sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

O outro lado da questão!


Um amigo diz que nós vamos para a praça para conversar, mas como precisamos dar uma boa desculpa, a gente acaba caminhando para cuidar da saúde.  O bom é que nos contextos das nossas caminhadas matinais, nossas conversas acabam fazendo brotar verdadeiras pérolas sobre a filosofia da vida.

Quer queira ou não, o conhecimento acumulado pela idade, pela vivência, ganha forma nos comentários, muitas vezes despretensiosos, mas aplicados por uma visão de mundo muito abrangente. São análises dos fatos que cada um apresenta dentro da linha que lhe é própria, e esses ocorridos da vida vão ganhando versões belíssimas.

Em uma dessas, uma das nossas amigas, expôs um fato. Ela expôs um ocorrido bem pessoal, uma experiência de vida, que ela dividiu com o grupo e provocou uma avalanche de análises, críticas e diagnósticos. Compreensões com uma diversidade de visões e uma riqueza de valores que faço questão de dividir aqui com todos.  

Ela contou que um belo dia o marido ligou, já tarde da noite, pedindo que ela fosse buscá-lo em um bar. Ele estava sem condições de dirigir, tinha passado da conta na bebida, e estava recorrendo à esposa para socorrê-lo. Algo que a princípio poderia ser fácil de entender.

De imediato, as outras mulheres do grupo já deixaram de pronto a sua reprovação. Cito: “eu jamais me prestaria a um papel desses”. Buscar o marido em um bar, de cara, era uma atitude reprovada pela maioria das mulheres. Mais ainda quando ela descreveu o bar. O bar, digamos assim, não era um dos ambientes mais recomendados para a frequência de uma moça de família.

A esposa em questão, ainda deu mais amplitude ao caso quando fez referência às companhias com as quais ele se encontrava. Um amigo, ainda mais bêbado que o marido, que ela teve que deixar em casa, e as moças. Bom, as moças estavam trabalhando e ela ainda teve que pagar o cachê das acompanhantes.

Aquilo subiu para a cabeça de quase todas as mulheres. As criticas mais diretas eram ricas em detalhes e a quantidade de desfechos mencionados, do que fazer com o dito cujo, daria quase um livro. Algumas menções tinham requintes de maldade. Dava até para ficar chocado com a crueldade de algumas.

Por sorte quase todas. Digo quase todas porque uma delas enxergou a coisa por um ângulo diferente. Ainda bem que essa visão veio de uma mulher. Sei que não teria valor se tivesse vindo de um homem. Ela disse: “é muita confiança do seu marido em você. Ligar pedindo para você ir buscá-lo em um ambiente desses. Ele precisa ter certeza de que você também confia muito nele”.    

Eu pessoalmente adorei a quebra de paradigma daquela mulher. Adorei ver a experiência de vida dela, falando alto e apresentando aquela outra forma de ver o fato. Ela, a expectativa dela em relação ao marido e as nuances do seu próprio relacionamento foram jogadas na maneira que ela viu o acontecimento, que a amiga vivenciou.

Na verdade, eu percebi que os homens do grupo se abstiveram de dar opinião. A situação era tão delicada diante do universo masculino, que, na hora, realmente o melhor era ficar calado. Nós, da mesma forma que a maioria das mulheres, também julgamos o fato pelo prisma machista.  

Só que daquele momento em diante a discussão ganhou novos ares. Essa questão de confiança, de interação de um relacionamento e de tudo o que esse relacionamento é capaz de construir, pode fazer a diferença em tudo o que acontece dentro dele. Inclusive na forma que o próprio grupo passou a ver o casal.   

Ela, a esposa, carinhosamente acabou oferecendo uma grande lição de moral. Ela deixou claro que conhecia o marido e que acreditava nele. Ela disse que todos os anos de convivência e todas as dificuldades vividas, consolidou neles uma confiança mútua grande. Não que tenha sido um caminho só de flores, mas que, em toda essa caminhada, a certeza no carinho e no amor, de um com outro, tinha sido a fortaleza do casal.

Isso nos faz pensar que; em primeiro lugar, toda situação pode ser interpretada de vários ângulos. Que se faz necessário pensar e ouvir a opinião das outras pessoas para que se possa tirar uma conclusão adequada. Em segundo lugar, que todos nós colhemos muito do que plantamos, por isso mesmo devemos escolher com cuidado o que estamos fazendo com o nosso jardim.

 

Aélio Jalles (Lelo)



 

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O incorrigível romântico!



 

“E logo eu, esse incorrigível romântico, abrir mão do amor eterno e ter que viver dos amores práticos”.

 

Ouvi essa frase da boca de um amigo e, por não conseguir ver essa citação em nenhuma literatura que tive acesso, tenho até a ideia de que a frase é dele.  Penso nas conjecturas de vida que ele costumava fazer, e nas citações que ele escrevia. De qualquer forma, neste caso, vou me desculpar pela incerteza e vou omitir o autor. 

A temática, no entanto, é muito coincidente com a situação de vida de muitos casais. Relações que realçam a comodidade desses amores práticos, amores convencionais aos quais as pessoas vão se habituando a viver. Isso, tanto por um cotidiano aceitável, assim como pela consequência de tantos desencontros amorosos que a vida proporcionou.  

Nos amores práticos, a estabilidade é mais facilmente adquirida pela própria falta de sentimento. Basta que os dois envolvidos consigam se tolerar, se suportar, basta manter uma convivência amigável, que a coisa já funciona. Fica fácil quando as pessoas se enquadram no quesito: “gente boa”.

Se ambas são pessoas fáceis de conviver, se mantiverem o respeito e forem capazes de fechar os olhos para um detalhe aqui ou ali, detalhes que escapam da lógica do amor, a relação pode ser suportável, ou até mesmo se tornar uma relação agradável.

Mesmo sem o tempero devido, existe a compensação do risco que não se corre e, por isso, para muita gente, vale a pena pagar o preço dessa acomodação. É porque o preço dos encontros indevidos, normalmente, é alto. Se paga muito caro quando se bate à porta da pessoa errada. Isso até faz parecer que essa é uma busca ingrata.

Quantas vezes nos engraçamos por uma pessoa, apostamos alto e nos decepcionamos. É que, com a convivência, as máscaras vão caindo. Aqueles detalhes sórdidos, que as pessoas fazem questão de não apresentar de início, começam a dar as caras.

Os temperamentos mais controladores, mais opressores, mais radicais, mesmo visto como parte da personalidade de cada um, são amenizados no início das relações. Mas, lógico, esses temperamentos tendem a se apresentar mais fortemente na medida em que as coisas tomam rumo e as relações vão se estabilizando.

A gente leva cada pancada nessa busca!  Às vezes nós perdemos as forças, a esperança, para levantar a cabeça e continuar tentando.  Mas lembre-se, a vida nos cobra o preço de tudo aquilo que fazemos, e até do que não fazemos. Não interessa, tudo tem um custo estabelecido e ninguém escapa dessa cobrança.

Aí eu, olhando para algumas relações ao meu redor, percebo, em uma ou em outra, a leveza, a troca de energia, o magnetismo natural do companheirismo e, com um ar de admiração, vou apreciando e querendo buscar essa fórmula. Vou percebendo que essa relação, mesmo não sendo perfeita, mesmo não sendo um caminho só de flores, essa relação existe!

Parece que, quando a gente sintoniza com aquilo, começa a ver, a perceber que ao seu redor tem mais de um exemplo. Eu vejo um, onde a relação se moldou ao bom senso, mas que nunca perdeu o carinho. Não deixo de olhar para essas pessoas e ver nelas a ternura, a atenção de um com o outro, as atitudes tomadas pelo sentimento de amor e carinho. 

Não, não é uma relação acomodada. Nessa relação tem sal, tem vida, tem tempero. Eles são muito mais eles. Eles se representam, eles se bastam, e talvez por isso mesmo eles atraiam os amigos para perto deles. Uma relação que funciona como imã de vida e, por isso mesmo, merece a admiração de todos.

Sei que não se chega a isso do nada. Para se trabalhar uma relação como essa, existe a necessidade de um comportamento lícito, claro, honesto, transparente e com muitos predicados. Mas que, de certa forma, esse é um preço bom demais para ser pago por relação com essas medidas. A medida do bem querer!

Ai eu, nessa mesma referência do incorrigível romântico, mesmo consciente de todas os desvios que cometi pelo caminho, quero ter a chance de construir uma relação assim para mim. Sem peso, mas com uma grande cumplicidade de vida e muita reciprocidade afetiva. 

É gostoso ter alguém ao lado. É gostoso olhar para ela e ter a sensação de ter encontrado a mulher para a minha vida. Eu quero ter a chance de ver, em uma troca de olhar, a certeza do: Eu vejo você!

Eu vejo você! Expressão da reciprocidade afetiva dos protagonistas do filme Avatar. Uma alusão à relação perfeita, uma expressão que, entre outras coisas, diz: eu enxergo a sua alma, eu confio em você.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O limite da tolerância!


 

Abro esse texto com alguns questionamentos:

- De onde nós tiramos a ideia de que devemos impor a nossa verdade aos outros?

- Como creditar que a minha verdade é maior que a sua?

- Em que momento a certeza encontra um ponto final para o fechamento de uma questão?

Até onde sei, uma frase atribuída ao Sócrates, um dos grandes pensadores da humanidade, dizia: “Só sei que nada sei!”. Nesta frase, ele deixa explicitado que o desenvolvimento cognitivo é um ato contínuo, e que ninguém jamais terá todas as informações necessárias na mão.

Essa é uma declaração de que a humanidade deveria entender melhor a sua ignorância, que sempre vai existir um algo a mais para se aprender, para se pensar e para se questionar. 

Além dessa primeira questão, ainda temos as diferenças culturais, a formação que cada um de nós foi sujeito e que influencia na forma de compreender e emanar o conhecimento. Tudo isso molda o raciocínio e cria linhas de pensamento. Mesmo encontrando nossas boas coincidências, cada um de nós teve uma educação diferente, em uma diversidade impressionante.

Essa diversidade faz com que tenhamos crenças distintas. São aprendizados que direcionam a forma de pensar, e que delineiam o raciocínio de qualquer um. É esse aprendizado que oferece a trilha para que se chegue a uma conclusão que esteja dentro do aceitável para uma determinada cultura, para um modo de vida e as realidades que foram vivenciadas.

Prova disso é que, em uma primeira impressão, quando vivenciamos a casa dos pais de algum dos nossos amigos, por exemplo, temos uma nítida percepção de que não teríamos sobrevivido se fossemos sujeitos àquela rotina. Na nossa primeira impressão, aquela seria uma tortura muito além do que estávamos preparados para enfrentar.  

Então, eu acho que muito antes de tentarmos impor a nossa forma de pensar, deveríamos minimamente enxergar a do outro. Enxergar quem vai receber a nossa informação, já que o processamento de cada informação segue um modelo bem específico em cada um de nós. A informação pode até ser a mesma, mas as conclusões são diversas.

Se somos diferentes, se temos pontos para acertar, que tal darmos passos em direção um ao outro? Passos no sentido de aproximar para entender, passos no sentido de ouvir, de respeitar a opinião para poder tirar uma dedução melhor.

A divergência é saudável sim. É ela que quebra a zona de conforto e faz com que o ser humano possa crescer de verdade. Uma boa discussão, aquela que nos faz pensar, que nos faz reavaliar nossas certezas, sempre nos engrandece. Por isso mesmo devemos aprender a conviver juntos, a conversar para deduzir, a negociar para criar atitudes mais harmônicas.

Ser intolerante, mesmo ao que você classifica de intolerância, é fechar uma porta. Por que então uma pessoa admirável, que tem um notório saber, que prega a tolerância, que descreve a teia dos relacionamentos como sendo a maior base de uma felicidade…

Como essa pessoa pode prescrever fechar uma porta?

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O que significa RESPEITO?!


 

Durante uma conversa, usando um contexto no qual eu não tive a força necessária para impor uma determinada situação, uma pessoa ponderou comigo: “respeito você só tem pelo mal que você pode causar”. Ele expôs a sua definição de respeito, me jogando na cara o tamanho da minha fraqueza.

Na hora, mesmo não concordando com a definição dele, eu não consegui contextualizar o meu raciocínio, nem verbalizar a minha opinião sobre o assunto. Fiquei gaguejando e sem palavras. Mas aquilo ficou latejando na minha cabeça e, lógico, me incomodando muito.

Eu sabia que já tinha me deparado com aquelas palavras em algum lugar. A opinião era derivada de uma passagem do livro de Maquiavel, O Príncipe. O raciocínio foi retirado de um dos ensinamentos do Maquiavel para a formação de um príncipe regente, um ensinamento da idade média. Uma verdade que eu pessoalmente contesto, e que não posso acreditar que isso seja visto como um pensamento aceitável.

Na minha concepção, o mal que você pode causar só provoca medo. Este jamais pode ser confundido com respeito. Medo é um sentimento ruim, pesado. Por isso, eu coloco esses como sentimentos bem distintos, medo e respeito não se misturam. Sentimentos que não permitem intersecções.

O medo é um sentimento imposto. Quando você sente medo de alguém ou de alguma coisa, a primeira atitude, a atitude mais lógica, é a de afastamento. Você busca proteção do que provoca esse medo, seja com a criação de barreiras, ou mesmo, se você tiver oportunidade, você tende a aniquilar o que lhe causa esse sentimento.

Em uma ilustração, na tentativa de fazer a diferença entre o medo e o respeito, digo assim: imagine alguém dentro de uma poça de lama, totalmente atolado, com lama até o pescoço. A pessoa está rendida sem ação, sem condições sequer de se salvar. Mesmo com a tendência natural do ser humano de socorrer, se esse é um alguém que provoca medo, eu duvido que a sua atitude seja positiva.

Na verdade, essas situações liberam o instinto de preservação, e aí você acaba se deixando levar pelo desejo de se ver livre do medo. Não cabe aqui tecer críticas aos desejos mais sórdidos, nem as atitudes mais drásticas. Não é conveniente, aqui, causar terror, isso é somente uma forma de deixar claro, de dar nitidez a diferença  entre esses sentimentos.

O sentimento de respeito é exatamente o oposto. Respeito se confunde com admiração, com afeto, com deferência, com consideração, misericórdia, e em todos esses casos o sentimento é de aproximação. Respeito causa atração, e um tanto de outras coisas, mas nesse caso todas positivas.

Quando em uma situação como a apresentada, mesmo sendo uma pessoa que causa medo, você ainda tem uma vontade de ajudar, isso nada mais é que respeito à vida. Por que respeito está intimamente ligado a uma ética pessoal, emoldurada por um conjunto formado pela educação que você recebeu e todo o processo social a que você foi sujeito.

Isso não dá o direito de se engessar. Não adianta dizer que eu sou assim por isso ou por aquilo. Todos nós podemos aprimorar o nosso código de ética e redefinir os nossos paramentos sociais.

Respeito é para ser oferecido a quem merece e a quem precisa. E de forma gratuita!

 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)



A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...