Luide estava com um nó na garganta por um
comentário da sua mãe sobre a Eli. Durante a festa da noite anterior, na casa
dos pais do Luide, uma roda de mulheres discutia a questão da liberdade sexual,
dissecando os limites dessa liberdade em relação à promiscuidade.
Na roda, a diversidade de opiniões reinava.
De um lado, as senhoras mais conservadoras defendendo a pureza do pensamento
das ditas “mulheres virtuosas”, do outro, as feministas exacerbadas que queriam
a todo custo a condição igualdade entre os gêneros.
No meio da história, a Eli tomou a palavra e
se posicionou diante do grupo. Ela falou que o fato de ter conhecimento a
respeito do assunto, o que fugia do conceito de virtuosidade que fora pregado, lhe
ofereceu a oportunidade de tratar o sexo em igualdade de condições com o Luide.
A moça foi se empoderando na medida em que
percebeu a atenção das senhoras. Mais
uma vez, a Eli se posicionou como uma pessoa que sabia se reconhecer como
mulher, e que sabia valorizar a sexualidade feminina. Ela explanava sobre o
assunto com muita clareza, dando uma beleza incomum ao prazer de saber usar o
corpo da forma correta.
A maneira desprendida com a qual Eli se
pronunciou, chamou muito a atenção da mãe do Luide. Ela, a mãe do garoto, vinha
de uma criação patriarcalista, com uma formação religiosa das mais opressoras.
Isso induz a um raciocínio social que classifica a mulher, quase que
diretamente, como objeto de uso e sem desejos próprios. Queira ou não essa
concepção permanece nas entranhas do pensamento, e romper com ela não é assim
tão fácil.
Não foi por maldade, mas a mãe do Luide
acabou soltando um desses comentários que ferem, dizendo que aquele tipo de
pensamento não cabia a uma mulher séria. Um comentário que mexeu com o Luide,
mas que ele achou melhor não retrucar naquele momento. Aquela seria uma
conversa para ele ter com a mãe em outro momento.
Na manhã do dia seguinte, na mesa do café,
sabendo que não seria uma conversa que ficaria somente entre os dois, o rapaz
puxou o assunto. Ele propositalmente jogou na mesa o comentário da mãe, ciente
de que o pai e a irmã participariam do assunto. Ele queria que fosse assim.
O pai, apesar de ser mais aberto que a mãe
para essas coisas, também estava sempre mostrando o raciocínio machista. Já a
irmã, mais velha que o rapaz, já independente, era uma dessas feministas
exacerbadas. Ela era dessas que defendem a igualdade de gêneros a todo custo e
o Luide não tinha dúvida que isso fosse o contraponto ideal, em relação aos
pais.
Quando o Luide questionou a mãe e expôs o
comentário que ela fez, os outros dois, o pai e a irmã, arregalaram os olhos. A
mãe sentiu de pronto que tinha falado demais, que tinha expressado uma opinião
que não deveria. Ela realmente não imaginou o peso que seu comentário teve na
cabeça do filho, e buscou se desculpar.
O pai, como todo bom patriarca, fez um
comentário cheio de autoridade, dizendo ”eu acho que os pais dela são muito
liberais, eles têm uma forma de educar muito solta, mas ele é quem tem que ver
onde está se metendo. O menino tem que aprender a tomar as decisões dele”. O
comentário do pai, no fundo, ratificou toda a questão.
Mesmo antes do Luide se posicionar, a irmã
deu o veredito: “vocês dois são muito quadrados. Não sei em que mundo vocês
estão vivendo. A mamãe presa a esse mundinho das amigas, um bando de
carochinhas amarradas aos ensinamentos da igreja. Ensinamentos que pregam que
mulher sentir prazer é pecado”.
E continuou dizendo, “e o senhor, meu pai,
vive imerso às concepções de vida da era medieval. Homem pode tudo e mulher não
podem nada. Está na hora dos dois acordarem. Não existe mais essa história de
que isso é coisa de homem, ou que isso é coisa de mulher. Hoje essa ideia não
vinga mais, esse tipo de pensamento não tem mais cabimento”.
“A Eli falou foi com muita propriedade”,
disse a irmã do Luide. “sexo foi feito para os dois, tanto para o homem, quanto
a mulher, os dois têm que sentir prazer. Se vocês dois nunca me ouviram falar
sobre isso, é porque vocês nunca me deram nem chance de falar. Os dois sempre
foram covardes, nunca tiveram coragem de ter uma conversa franca com a filha. E
quer saber?! Meus parabéns aos pais da Eli”.
Nesse
momento, o Luide interveio. Ele tentou abrandar a fala da irmã, mas ressaltou a
razão de todo o rancor que ela estava exprimindo. Ele disse, “não tem mais
como, no mundo de hoje, pensar que santidade é se abster da sexualidade.
Existem escândalos para todos os lados. Um monte de gente que se dizia pura cometendo
os maiores abusos, usando crianças”, por exemplo.
O rapaz então completou, “meu pai e minha mãe, eu agora estou pedindo para que vocês pensem sobre o assunto. Olhem para a minha irmã. Hoje ela é maior de idade, mas dá para imaginar o que ela sofreu no seu desenvolvimento sexual por falta de apoio? Hoje ela pode gritar, mas e quando ela tinha que se esconder? Inclusive de vocês dois! Tudo porque não podia se expor, dá para imaginar?”
Acrescentou ainda, “fomos feitos diferentes, e isso tem seu propósito. A questão é que essas diferenças devem ser vistas com respeito, buscando entender que fomos feitos para viver em comunidade e que precisamos uns dos outros. Em seu tempo cada virtude vai se fazer necessária e, por isso mesmo, todas merecem apreciação”.
Disse ainda, “Essas pregações da minha irmã, bem características de um feminismo mais radical, constroem mais barreiras que pontes no diálogo necessário para compreender pelo que elas vêm lutando há tantas décadas”.
“Na
minha visão”, continuou o Luide, “existem sim coisas de mulher, características
que são mais acentuadas e adequadas ao sexo feminino, assim como existem coisas
que são mais acentuadas e adequadas ao sexo masculino. São características e
não necessariamente significa que tem que ser bom ou ruim”.
“Na verdade, eu queria muito é que vocês fossem capazes de olhar um para outro com equidade. Não é com igualdade como prega minha irmã. A equidade visa o ajuste de condições, é a forma de oferecer o que cada um precisa, para que os dois possam se satisfazer. Para que os dois possam ter a mesma realização e prazer”.
E finalizou, “essa equidade tem início quando se tem na cabeça o princípio da consideração e do respeito mútuo. E é aqui, minha mãe, que eu quero rebater a sua fala de ontem. A seriedade da Eli, de fato, está na consideração e no respeito que ela distribui. O respeito que ela tem por mim, pelos pais, por vocês, meus pais, e pelas pessoas no geral”.
Aélio Jalles (Lelo)
Livro: Era
Uma Vez Meu Coração
Capitulo
01: E Ai K dê meu ovo?
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html
Capitulo
02: O Desabrochar da Sexualidade
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/o-desabrochar-da-sexualidade.html
Capitulo 03: A primeira vez
Link https://aeliojalles.blogspot.com/2023/05/a-primeira-vez.html
Capitulo
04: Sexo a Conexão das Almas
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/05/sexo-conexao-das-almas.html
Capitulo
05: O Abraço da Confiança
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/07/o-abraco-da-confinca.html
Capitulo
06: As novas cores do Arco-Íris
Link do
Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/as-novas-cores-do-arco-iris.html
Capitulo 07: A
Liberdade da Libido
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