Ponho o título entre aspas para deixar bem
claro que estou fazendo uso de algo que não é uma criação minha. Mais ainda,
digo que fiz questão de colocar dessa forma por ser um tema recorrente nos
eventos que tenho participado.
O mais fascinante é que ele vem sendo
abordado desde eventos colegiais aos eventos coorporativos. Definitivamente é
uma temática que tem tirado o sono, vamos dizer assim, de todo mundo. Uma
discussão que ainda precisa ganhar força.
Recentemente, vi o assunto como pauta de uma
reunião na escola da minha filha. Os professores falavam do desafio de
controlar o uso das tecnologias. Que essa era uma porta indispensável para as
pesquisas e para o acesso à informação, mas que isso permite a fuga da atenção
dos alunos.
Eles mostravam o quanto o mundo virtual, e
essas relações digitais, eram responsáveis pela desatenção dos alunos para com
os objetivos das aulas. A tecnologia não só era uma porta que possibilitava a
ruptura do aprendizado, como também introduzia informações distorcidas na sala de
aula.
No mundo coorporativo, assisti a uma palestra
que apresentava o excesso de informação e a perfeição da vida emoldurada pelas
redes sociais, como um dos maiores motivadores da depressão. Que as pessoas
entravam em conflito existencial quando comparavam a perfeição de vida,
projetada nas redes, com a realidade de vida delas.
De frente para o espelho, a imagem que era
projetada, a realidade de vida daquela pessoa, impunha uma crueldade
inaceitável. Um gatilho gigantesco para a crença de um mundo inconcebível e a
completa ausência de petencimento. O ponto de partida para toda e qualquer
distorção de comportamento que você queira imaginar.
A palestrante conseguiu contextualizar, de
forma magnífica, a falta de preparo da humanidade para esse momento. O excesso
de informação que chegou como uma onda gigante, e que ninguém sabe exatamente o
que fazer com ela. Não estamos preparados para processar tanta informação e de
forma tão rápida.
Para fechar, recebi de um amigo um texto
falando de uma palestrante norte americana, uma pessoa especializada em
relações humanas, que, em um evento de tecnologia, roubou a cena ao falar da
“Intimidade Artificial”.
Seu argumento é que estamos vivendo nossas
vidas em permanente estado de atenção parcial. Que nós não conseguimos mais nos
relacionar de forma autêntica, e que estamos o tempo todo divididos, divagando
na realidade das nossas redes sociais. Que esse é o maior motivador da ausência
de uma intimidade real.
Ela se refere a essa artificialidade da
relação quando mostra o quanto o uso das redes sociais, do celular, é capaz de
permitir a fuga sempre que uma situação se apresenta inadequada. É como se a
pessoa tivesse na mão uma forma de anestesia seletiva que ela pode acionar
sempre que se sentir desconfortável.
Reconheço que não sou nenhuma autoridade no
assunto, e que minha menção vem do senso comum. Mas como observador, qualquer
ser mais analógico é capaz de perceber o desvio de conduta quando, em uma mesma
mesa de bar, quatro pessoas se utilizam de mensagem para uma troca de
informação.
Chamou-me a atenção quando uma mãe, com uma
criança de 10 ou 11 anos, respondia às perguntas do médico, que por acaso
consultava a menina, enquanto essa se mantinha ligada ao telefone. Era como se,
fora o corpo físico, a filha não estivesse ali e a consulta não fosse com ela.
Não pode passar despercebido o quanto as
crianças estão sendo impelidas e se fechar em um aparelho. É como se eles se
mantivessem fora da realidade, sem a necessidade de participar das situações.
Sem relações diretas, sem cumprimentar as pessoas, sem a necessidade de
interagir.
Nesse meu senso, mesmo sem nenhuma
especialidade, não consigo ver um mundo feliz sem as relações humanas.
Conflitos, articulações, negociações, direitos, limites, cidadania, civilidade,
ou simplesmente troca de sorrisos, não se pode pensar um mundo sem essas
vivências.
E aí eu vou fechar meu texto com a fala da
Dra. Ester Perel: “Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que
estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos
para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da
vida humana”.
Aélio Jalles (Lelo)



