terça-feira, 28 de março de 2023

“A Intimidade Artificial”


Ponho o título entre aspas para deixar bem claro que estou fazendo uso de algo que não é uma criação minha. Mais ainda, digo que fiz questão de colocar dessa forma por ser um tema recorrente nos eventos que tenho participado.

O mais fascinante é que ele vem sendo abordado desde eventos colegiais aos eventos coorporativos. Definitivamente é uma temática que tem tirado o sono, vamos dizer assim, de todo mundo. Uma discussão que ainda precisa ganhar força.

Recentemente, vi o assunto como pauta de uma reunião na escola da minha filha. Os professores falavam do desafio de controlar o uso das tecnologias. Que essa era uma porta indispensável para as pesquisas e para o acesso à informação, mas que isso permite a fuga da atenção dos alunos.

Eles mostravam o quanto o mundo virtual, e essas relações digitais, eram responsáveis pela desatenção dos alunos para com os objetivos das aulas. A tecnologia não só era uma porta que possibilitava a ruptura do aprendizado, como também introduzia informações distorcidas na sala de aula. 

No mundo coorporativo, assisti a uma palestra que apresentava o excesso de informação e a perfeição da vida emoldurada pelas redes sociais, como um dos maiores motivadores da depressão. Que as pessoas entravam em conflito existencial quando comparavam a perfeição de vida, projetada nas redes, com a realidade de vida delas.

De frente para o espelho, a imagem que era projetada, a realidade de vida daquela pessoa, impunha uma crueldade inaceitável. Um gatilho gigantesco para a crença de um mundo inconcebível e a completa ausência de petencimento. O ponto de partida para toda e qualquer distorção de comportamento que você queira imaginar.

A palestrante conseguiu contextualizar, de forma magnífica, a falta de preparo da humanidade para esse momento. O excesso de informação que chegou como uma onda gigante, e que ninguém sabe exatamente o que fazer com ela. Não estamos preparados para processar tanta informação e de forma tão rápida.

Para fechar, recebi de um amigo um texto falando de uma palestrante norte americana, uma pessoa especializada em relações humanas, que, em um evento de tecnologia, roubou a cena ao falar da “Intimidade Artificial”.

Seu argumento é que estamos vivendo nossas vidas em permanente estado de atenção parcial. Que nós não conseguimos mais nos relacionar de forma autêntica, e que estamos o tempo todo divididos, divagando na realidade das nossas redes sociais. Que esse é o maior motivador da ausência de uma intimidade real.

 

Ela se refere a essa artificialidade da relação quando mostra o quanto o uso das redes sociais, do celular, é capaz de permitir a fuga sempre que uma situação se apresenta inadequada. É como se a pessoa tivesse na mão uma forma de anestesia seletiva que ela pode acionar sempre que se sentir desconfortável.

Reconheço que não sou nenhuma autoridade no assunto, e que minha menção vem do senso comum. Mas como observador, qualquer ser mais analógico é capaz de perceber o desvio de conduta quando, em uma mesma mesa de bar, quatro pessoas se utilizam de mensagem para uma troca de informação.

Chamou-me a atenção quando uma mãe, com uma criança de 10 ou 11 anos, respondia às perguntas do médico, que por acaso consultava a menina, enquanto essa se mantinha ligada ao telefone. Era como se, fora o corpo físico, a filha não estivesse ali e a consulta não fosse com ela.

Não pode passar despercebido o quanto as crianças estão sendo impelidas e se fechar em um aparelho. É como se eles se mantivessem fora da realidade, sem a necessidade de participar das situações. Sem relações diretas, sem cumprimentar as pessoas, sem a necessidade de interagir.

Nesse meu senso, mesmo sem nenhuma especialidade, não consigo ver um mundo feliz sem as relações humanas. Conflitos, articulações, negociações, direitos, limites, cidadania, civilidade, ou simplesmente troca de sorrisos, não se pode pensar um mundo sem essas vivências.

E aí eu vou fechar meu texto com a fala da Dra. Ester Perel: “Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana”.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

4 comentários:

  1. Vivemos em um mundo conectado e cada vez mais pessoas possuem algum tipo de rede social. As redes sociais provocam efeitos positivos ou nocivos à saúde humana, dependendo de como é utilizada. Não precisamos negar as redes sociais, só precisamos encontrar o equilíbrio e não esquecer a importância das relações humanas e da autopreservação com o espaço privado. E cabe aos pais a importância de administrar o tempo de uso da internet, assim como dos aparelhos eletrônicos de seus filhos.

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  2. Imagine com o metaverso!!!

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  3. Inclusive já vi estudos que dizem que os adolescentes têm apresentado mais dificuldade pra se relacionar com o mundo exterior, justamente por toda essa tecnologia que os cerca cada vez mais...

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  4. Que belo texto, expressa muito bem a realidade. É inquestionável os benefícios que a internet nos proporciona, mas também somos conscientes de seu alto preço. Um exemplo, basta a gente lembrar do mal causado pelas famosas fake news que iniciaram timidamente como "informação" e ao longo de poucos anos envolveu, não só pessoas menos esclarecidas, mas vários cidadãos num estado de violência, agressões, radicalismo ideológico. Em um período curto levou milhares de brasileiros a defenderem, de modo veemente, atos sem o menor sentido a ponto de se complicarem pagando alto preço por suas ações.
    Acreditemos o tempo nos trará melhorias na convivência com a internet.

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