quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

A verdade por principio!


 

“Seja verdadeiro consigo mesmo e com os outros. Seja verdadeiro com seus valores em todos os momentos. A honestidade é o maior teste da sua força de vontade e do seu caráter.”

Princípios da Harmonia


Nós nos embolamos em umas situações pela vida e acreditamos que não precisamos mais olhar para elas de frente. Para nos esconder dessas situações, criamos “verdades abstratas”, e, assim, vamos justificando as questões e tocando a vida em frente. Afinal de contas, não é nada demais, é só uma mentira, só mais uma, entres tantas outras mentiras que permeiam a nossa realidade.   

Observando o comportamento das pessoas, até porque é mais fácil enxergar os erros dos outros, percebo o quanto nós nos escondemos atrás das pequenas mentiras. São detalhes, coisinhas pequenas, tudo sem muito peso e que, na verdade, em sua maioria, não fazem mal a ninguém. São mentirinhas que eu vejo, cotidianamente, usadas para evitar explicações.

A questão é que essas mentirinhas vão se tornando um vício tão grande, e são ditas com tanta facilidade, que vão se tornando parte da vida. De repente, as pessoas não sabem mais nem dizer porque não disseram simplesmente a verdade. Virou um vício, uma forma natural de fazer com que as coisas fiquem parecidas com o que você gostaria que fossem. 

Aí fica a pergunta: como construir uma relação de confiança com outra pessoa, se nós acabamos deixando o costume da aplicação dessas mentiras tomarem conta do nosso cotidiano? Uma relação de confiança, confiança real, um sentimento que deixasse fora de questão a dúvida, deve ser transparente e, por isso, verdadeiro o tempo todo.

Porém, ser verdadeiro o tempo todo não diz respeito somente à relação entre as duas pessoas. A pessoa que está ao meu lado deve me perceber verdadeiro, deve enxergar a verdade na essência da minha conduta. A minha capacidade de ser autêntico deve prevalecer em todos os meus momentos, pois sempre que eu utilizar a mentira como subterfugio, isso, de alguma forma, vai ser percebido por ela. . 

De qualquer maneira, todas as religiões pregam essa lei do retorno. Elas teorizam a essência da verdade como algo vital e imperioso para uma vida plena. A conduta ética, tomando como exemplo o que pregam as pessoas que seguem a linha do espiritismo, diz que: “nós devemos reverberar a energia que nós queremos receber”, isso não deixa espaço para os desvios, e a verdade deve prevalecer como uma determinação.

Como eu quero para mim uma vida lícita, como eu quero para mim uma energia positiva, se eu me escondo constantemente da verdade?

A questão é que essas mentiras ganham vulto. Algumas mentiras das quais nos apropriamos, nos obrigam a cometer outros erros, a tomar atitudes que não gostaríamos. Uma mentira puxa outra. Uma mentira puxa mais uma atitude ilícita, e isso acaba criando uma cadeia de atos indevidos, e tendo um custo caro.

Qual seria realmente o preço de eu ter assumido naturalmente a verdade? Hoje, na minha própria retrospectiva de vida, penso que, na grande maioria das vezes, sairia mais barato assumir simplesmente a verdade. Seria muito mais apropriado e muito mais leve.

Cada mentira descoberta, mentiras têm pernas curtas, é como se a pessoa ganhasse um cartão de descredito, um carimbo de desonesto, que vai manchando a reputação. Um dia, e por vezes nos momentos mais delicados, você vai ser cobrado em público, e esse cartão de descredito vai ser apresentado.

E quando nós falamos dos grandes dilemas, esses é que são pesados. Mas nós nos acostumamos tanto com as pequenas mentiras que as grandes vão acontecendo pelo processo. O engano é acreditar que é mais fácil se esconder atrás da mentira, que é mais fácil lidar com os efeitos colaterais dela, do que simplesmente encarar a verdade de frente.

De uma forma bem generalizada, todos nós acabamos achando injusta quando a cobrança nos é apresentada. É que nós nos esquecemos dos nossos delitos com uma imensa facilidade, e esses detalhes da vida, que lá atrás nos achamos sem muita importância, vem à tona e por vezes da forma mais inapropriada do mundo.

E como fazer para mudar isso? Como fazer para mudar de atitude? Como fazer para passar a usar a verdade por princípio? 

Esse é um grande dilema. Esse é um dilema que só os seres mais iluminados podem nos responder. Quando eu estou escrevendo, quando eu estou criando uma reflexão como essa, acabo criando uma referência de pensamento para mim mesmo. Nesse caso, acabo tornando público, expondo, meus dilemas angustias e pensamentos. 

Mas eu penso que; se não bastasse a lei do retorno, estampada na descrição de conduta ética de todas as seitas e religiões, eu diria que a verdade, por mais dura que seja, pode até doer, magoar, ferir, mas essa é uma ferida que tem cura. Ela pode até demorar, mas ela sara! Já a mentira é uma ferida cancerosa, que infecciona e não tem cura. A mentira é uma ferida que reabre de tempos em tempos, que estoura e que é cobrada por toda uma eternidade.

 

Aélio Jalles (Lelo)


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O Tamanho do Coração!


 

Há poucos dias, um dos amigos da praça, um desses que há muito tempo não aparecia, parou o carro na calçada da praça e me mostrou, segundo ele, um presente que a vida tinha o oferecido. Duas meninas lindas, com um sorriso estonteante estampado no rosto. Mais brilhante ainda estava o sorriso do pai, refletindo o tamanho da felicidade com a qual eles, o casal, tinham recebido aquele presente. 

Não tive como conter a admiração pela atitude deles. Que decisão linda a desse casal. Embora eu possa imaginar que a vontade do casal tenha sido influenciada por uma vontade de complementar a família, não tem como oferecer uma medida ao tamanho, nem a beleza desse passo. Um passo que requer uma imensa responsabilidade.

Não deixo de me comover quando vejo alguém remodelar a sua vida para oferecer os cuidados necessários à vida de outro alguém. Mesmo entendendo que essa é uma troca, que quem se doa sempre tem seus benefícios, ainda entendo como sendo essa uma decisão muito forte, pela mudança de vida que ela propõe e, como eu mencionei, a imensa responsabilidade que ela carrega.

Eu vejo uma medida que ultrapassa até a lógica, quando vejo uma atitude de doação de vida como essa, onde as pessoas, ou um casal, remodelam o seu cotidiano para dar conta dos cuidados de uma terceira. Nesse caso até mais. Sei que isso não é abrir mão da vida, mas é necessária uma mudança de perspectiva, de objetivos, de foco, para se tomar essa atitude com a responsabilidade adequada.

Nessa medida, eu queria deixar registrado o tamanho da minha admiração pelo casal. Que vida possa oferecer-lhes o necessário para que o passo dado seja recheado com toda a sorte de bons resultados. Também gostaria de tornar publico toda a minha admiração por outro casal. Nesse caso vou até me desculpar com a esposa, mas vou me dirigir mais especificamente a ele, ao pai, por conhecê-lo tão de perto e entender o amor que ele emprega na criação desses filhos.

Sem uma medida, sem ter como entender o tamanho desse coração, eu vi a adoção de uma criança ser feita, simplesmente por que ele enxergou aquela criança como sua, não importando a origem, ou as condições de sobrevivência daquela criança. Ele a adotou e resolveu lutar por ela.

Já não era o primeiro filho, ele já tinha uma família completa. Na minha visão, não existia qualquer outra necessidade para essa adoção. Mas ele viu naquela, uma criança com a necessidade de vida que ele poderia lhe proporcionar, e puxou a responsabilidade.

Sei que não são muitos os indivíduos que circulam na terra com um coração desse tamanho, mas o fato é que com esse exemplo, eu acredito mais ainda que entre nós existem pessoas com o coração cheios de amor para dar e para oferecer vida a quem tem necessidade.

Toda vez que vejo isso acontecer, me sinto contagiado a ser melhor, a fazer o bem, a acreditar no bem que o ser humano é capaz de fazer e principalmente, que existem muito mais pessoas dispostas e prontas para tomar boas atitudes, do que pessoas ruins, no mundo.

Toda vez que enxergo atitudes assim, passo a acreditar mais na humanidade e na sua capacidade de fazer coisas boas, de tomar atitudes em prol da vida, pessoas permanecem muito mais na sintonia do amor.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

O outro lado da questão!


Um amigo diz que nós vamos para a praça para conversar, mas como precisamos dar uma boa desculpa, a gente acaba caminhando para cuidar da saúde.  O bom é que nos contextos das nossas caminhadas matinais, nossas conversas acabam fazendo brotar verdadeiras pérolas sobre a filosofia da vida.

Quer queira ou não, o conhecimento acumulado pela idade, pela vivência, ganha forma nos comentários, muitas vezes despretensiosos, mas aplicados por uma visão de mundo muito abrangente. São análises dos fatos que cada um apresenta dentro da linha que lhe é própria, e esses ocorridos da vida vão ganhando versões belíssimas.

Em uma dessas, uma das nossas amigas, expôs um fato. Ela expôs um ocorrido bem pessoal, uma experiência de vida, que ela dividiu com o grupo e provocou uma avalanche de análises, críticas e diagnósticos. Compreensões com uma diversidade de visões e uma riqueza de valores que faço questão de dividir aqui com todos.  

Ela contou que um belo dia o marido ligou, já tarde da noite, pedindo que ela fosse buscá-lo em um bar. Ele estava sem condições de dirigir, tinha passado da conta na bebida, e estava recorrendo à esposa para socorrê-lo. Algo que a princípio poderia ser fácil de entender.

De imediato, as outras mulheres do grupo já deixaram de pronto a sua reprovação. Cito: “eu jamais me prestaria a um papel desses”. Buscar o marido em um bar, de cara, era uma atitude reprovada pela maioria das mulheres. Mais ainda quando ela descreveu o bar. O bar, digamos assim, não era um dos ambientes mais recomendados para a frequência de uma moça de família.

A esposa em questão, ainda deu mais amplitude ao caso quando fez referência às companhias com as quais ele se encontrava. Um amigo, ainda mais bêbado que o marido, que ela teve que deixar em casa, e as moças. Bom, as moças estavam trabalhando e ela ainda teve que pagar o cachê das acompanhantes.

Aquilo subiu para a cabeça de quase todas as mulheres. As criticas mais diretas eram ricas em detalhes e a quantidade de desfechos mencionados, do que fazer com o dito cujo, daria quase um livro. Algumas menções tinham requintes de maldade. Dava até para ficar chocado com a crueldade de algumas.

Por sorte quase todas. Digo quase todas porque uma delas enxergou a coisa por um ângulo diferente. Ainda bem que essa visão veio de uma mulher. Sei que não teria valor se tivesse vindo de um homem. Ela disse: “é muita confiança do seu marido em você. Ligar pedindo para você ir buscá-lo em um ambiente desses. Ele precisa ter certeza de que você também confia muito nele”.    

Eu pessoalmente adorei a quebra de paradigma daquela mulher. Adorei ver a experiência de vida dela, falando alto e apresentando aquela outra forma de ver o fato. Ela, a expectativa dela em relação ao marido e as nuances do seu próprio relacionamento foram jogadas na maneira que ela viu o acontecimento, que a amiga vivenciou.

Na verdade, eu percebi que os homens do grupo se abstiveram de dar opinião. A situação era tão delicada diante do universo masculino, que, na hora, realmente o melhor era ficar calado. Nós, da mesma forma que a maioria das mulheres, também julgamos o fato pelo prisma machista.  

Só que daquele momento em diante a discussão ganhou novos ares. Essa questão de confiança, de interação de um relacionamento e de tudo o que esse relacionamento é capaz de construir, pode fazer a diferença em tudo o que acontece dentro dele. Inclusive na forma que o próprio grupo passou a ver o casal.   

Ela, a esposa, carinhosamente acabou oferecendo uma grande lição de moral. Ela deixou claro que conhecia o marido e que acreditava nele. Ela disse que todos os anos de convivência e todas as dificuldades vividas, consolidou neles uma confiança mútua grande. Não que tenha sido um caminho só de flores, mas que, em toda essa caminhada, a certeza no carinho e no amor, de um com outro, tinha sido a fortaleza do casal.

Isso nos faz pensar que; em primeiro lugar, toda situação pode ser interpretada de vários ângulos. Que se faz necessário pensar e ouvir a opinião das outras pessoas para que se possa tirar uma conclusão adequada. Em segundo lugar, que todos nós colhemos muito do que plantamos, por isso mesmo devemos escolher com cuidado o que estamos fazendo com o nosso jardim.

 

Aélio Jalles (Lelo)



 

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O incorrigível romântico!



 

“E logo eu, esse incorrigível romântico, abrir mão do amor eterno e ter que viver dos amores práticos”.

 

Ouvi essa frase da boca de um amigo e, por não conseguir ver essa citação em nenhuma literatura que tive acesso, tenho até a ideia de que a frase é dele.  Penso nas conjecturas de vida que ele costumava fazer, e nas citações que ele escrevia. De qualquer forma, neste caso, vou me desculpar pela incerteza e vou omitir o autor. 

A temática, no entanto, é muito coincidente com a situação de vida de muitos casais. Relações que realçam a comodidade desses amores práticos, amores convencionais aos quais as pessoas vão se habituando a viver. Isso, tanto por um cotidiano aceitável, assim como pela consequência de tantos desencontros amorosos que a vida proporcionou.  

Nos amores práticos, a estabilidade é mais facilmente adquirida pela própria falta de sentimento. Basta que os dois envolvidos consigam se tolerar, se suportar, basta manter uma convivência amigável, que a coisa já funciona. Fica fácil quando as pessoas se enquadram no quesito: “gente boa”.

Se ambas são pessoas fáceis de conviver, se mantiverem o respeito e forem capazes de fechar os olhos para um detalhe aqui ou ali, detalhes que escapam da lógica do amor, a relação pode ser suportável, ou até mesmo se tornar uma relação agradável.

Mesmo sem o tempero devido, existe a compensação do risco que não se corre e, por isso, para muita gente, vale a pena pagar o preço dessa acomodação. É porque o preço dos encontros indevidos, normalmente, é alto. Se paga muito caro quando se bate à porta da pessoa errada. Isso até faz parecer que essa é uma busca ingrata.

Quantas vezes nos engraçamos por uma pessoa, apostamos alto e nos decepcionamos. É que, com a convivência, as máscaras vão caindo. Aqueles detalhes sórdidos, que as pessoas fazem questão de não apresentar de início, começam a dar as caras.

Os temperamentos mais controladores, mais opressores, mais radicais, mesmo visto como parte da personalidade de cada um, são amenizados no início das relações. Mas, lógico, esses temperamentos tendem a se apresentar mais fortemente na medida em que as coisas tomam rumo e as relações vão se estabilizando.

A gente leva cada pancada nessa busca!  Às vezes nós perdemos as forças, a esperança, para levantar a cabeça e continuar tentando.  Mas lembre-se, a vida nos cobra o preço de tudo aquilo que fazemos, e até do que não fazemos. Não interessa, tudo tem um custo estabelecido e ninguém escapa dessa cobrança.

Aí eu, olhando para algumas relações ao meu redor, percebo, em uma ou em outra, a leveza, a troca de energia, o magnetismo natural do companheirismo e, com um ar de admiração, vou apreciando e querendo buscar essa fórmula. Vou percebendo que essa relação, mesmo não sendo perfeita, mesmo não sendo um caminho só de flores, essa relação existe!

Parece que, quando a gente sintoniza com aquilo, começa a ver, a perceber que ao seu redor tem mais de um exemplo. Eu vejo um, onde a relação se moldou ao bom senso, mas que nunca perdeu o carinho. Não deixo de olhar para essas pessoas e ver nelas a ternura, a atenção de um com o outro, as atitudes tomadas pelo sentimento de amor e carinho. 

Não, não é uma relação acomodada. Nessa relação tem sal, tem vida, tem tempero. Eles são muito mais eles. Eles se representam, eles se bastam, e talvez por isso mesmo eles atraiam os amigos para perto deles. Uma relação que funciona como imã de vida e, por isso mesmo, merece a admiração de todos.

Sei que não se chega a isso do nada. Para se trabalhar uma relação como essa, existe a necessidade de um comportamento lícito, claro, honesto, transparente e com muitos predicados. Mas que, de certa forma, esse é um preço bom demais para ser pago por relação com essas medidas. A medida do bem querer!

Ai eu, nessa mesma referência do incorrigível romântico, mesmo consciente de todas os desvios que cometi pelo caminho, quero ter a chance de construir uma relação assim para mim. Sem peso, mas com uma grande cumplicidade de vida e muita reciprocidade afetiva. 

É gostoso ter alguém ao lado. É gostoso olhar para ela e ter a sensação de ter encontrado a mulher para a minha vida. Eu quero ter a chance de ver, em uma troca de olhar, a certeza do: Eu vejo você!

Eu vejo você! Expressão da reciprocidade afetiva dos protagonistas do filme Avatar. Uma alusão à relação perfeita, uma expressão que, entre outras coisas, diz: eu enxergo a sua alma, eu confio em você.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O limite da tolerância!


 

Abro esse texto com alguns questionamentos:

- De onde nós tiramos a ideia de que devemos impor a nossa verdade aos outros?

- Como creditar que a minha verdade é maior que a sua?

- Em que momento a certeza encontra um ponto final para o fechamento de uma questão?

Até onde sei, uma frase atribuída ao Sócrates, um dos grandes pensadores da humanidade, dizia: “Só sei que nada sei!”. Nesta frase, ele deixa explicitado que o desenvolvimento cognitivo é um ato contínuo, e que ninguém jamais terá todas as informações necessárias na mão.

Essa é uma declaração de que a humanidade deveria entender melhor a sua ignorância, que sempre vai existir um algo a mais para se aprender, para se pensar e para se questionar. 

Além dessa primeira questão, ainda temos as diferenças culturais, a formação que cada um de nós foi sujeito e que influencia na forma de compreender e emanar o conhecimento. Tudo isso molda o raciocínio e cria linhas de pensamento. Mesmo encontrando nossas boas coincidências, cada um de nós teve uma educação diferente, em uma diversidade impressionante.

Essa diversidade faz com que tenhamos crenças distintas. São aprendizados que direcionam a forma de pensar, e que delineiam o raciocínio de qualquer um. É esse aprendizado que oferece a trilha para que se chegue a uma conclusão que esteja dentro do aceitável para uma determinada cultura, para um modo de vida e as realidades que foram vivenciadas.

Prova disso é que, em uma primeira impressão, quando vivenciamos a casa dos pais de algum dos nossos amigos, por exemplo, temos uma nítida percepção de que não teríamos sobrevivido se fossemos sujeitos àquela rotina. Na nossa primeira impressão, aquela seria uma tortura muito além do que estávamos preparados para enfrentar.  

Então, eu acho que muito antes de tentarmos impor a nossa forma de pensar, deveríamos minimamente enxergar a do outro. Enxergar quem vai receber a nossa informação, já que o processamento de cada informação segue um modelo bem específico em cada um de nós. A informação pode até ser a mesma, mas as conclusões são diversas.

Se somos diferentes, se temos pontos para acertar, que tal darmos passos em direção um ao outro? Passos no sentido de aproximar para entender, passos no sentido de ouvir, de respeitar a opinião para poder tirar uma dedução melhor.

A divergência é saudável sim. É ela que quebra a zona de conforto e faz com que o ser humano possa crescer de verdade. Uma boa discussão, aquela que nos faz pensar, que nos faz reavaliar nossas certezas, sempre nos engrandece. Por isso mesmo devemos aprender a conviver juntos, a conversar para deduzir, a negociar para criar atitudes mais harmônicas.

Ser intolerante, mesmo ao que você classifica de intolerância, é fechar uma porta. Por que então uma pessoa admirável, que tem um notório saber, que prega a tolerância, que descreve a teia dos relacionamentos como sendo a maior base de uma felicidade…

Como essa pessoa pode prescrever fechar uma porta?

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O que significa RESPEITO?!


 

Durante uma conversa, usando um contexto no qual eu não tive a força necessária para impor uma determinada situação, uma pessoa ponderou comigo: “respeito você só tem pelo mal que você pode causar”. Ele expôs a sua definição de respeito, me jogando na cara o tamanho da minha fraqueza.

Na hora, mesmo não concordando com a definição dele, eu não consegui contextualizar o meu raciocínio, nem verbalizar a minha opinião sobre o assunto. Fiquei gaguejando e sem palavras. Mas aquilo ficou latejando na minha cabeça e, lógico, me incomodando muito.

Eu sabia que já tinha me deparado com aquelas palavras em algum lugar. A opinião era derivada de uma passagem do livro de Maquiavel, O Príncipe. O raciocínio foi retirado de um dos ensinamentos do Maquiavel para a formação de um príncipe regente, um ensinamento da idade média. Uma verdade que eu pessoalmente contesto, e que não posso acreditar que isso seja visto como um pensamento aceitável.

Na minha concepção, o mal que você pode causar só provoca medo. Este jamais pode ser confundido com respeito. Medo é um sentimento ruim, pesado. Por isso, eu coloco esses como sentimentos bem distintos, medo e respeito não se misturam. Sentimentos que não permitem intersecções.

O medo é um sentimento imposto. Quando você sente medo de alguém ou de alguma coisa, a primeira atitude, a atitude mais lógica, é a de afastamento. Você busca proteção do que provoca esse medo, seja com a criação de barreiras, ou mesmo, se você tiver oportunidade, você tende a aniquilar o que lhe causa esse sentimento.

Em uma ilustração, na tentativa de fazer a diferença entre o medo e o respeito, digo assim: imagine alguém dentro de uma poça de lama, totalmente atolado, com lama até o pescoço. A pessoa está rendida sem ação, sem condições sequer de se salvar. Mesmo com a tendência natural do ser humano de socorrer, se esse é um alguém que provoca medo, eu duvido que a sua atitude seja positiva.

Na verdade, essas situações liberam o instinto de preservação, e aí você acaba se deixando levar pelo desejo de se ver livre do medo. Não cabe aqui tecer críticas aos desejos mais sórdidos, nem as atitudes mais drásticas. Não é conveniente, aqui, causar terror, isso é somente uma forma de deixar claro, de dar nitidez a diferença  entre esses sentimentos.

O sentimento de respeito é exatamente o oposto. Respeito se confunde com admiração, com afeto, com deferência, com consideração, misericórdia, e em todos esses casos o sentimento é de aproximação. Respeito causa atração, e um tanto de outras coisas, mas nesse caso todas positivas.

Quando em uma situação como a apresentada, mesmo sendo uma pessoa que causa medo, você ainda tem uma vontade de ajudar, isso nada mais é que respeito à vida. Por que respeito está intimamente ligado a uma ética pessoal, emoldurada por um conjunto formado pela educação que você recebeu e todo o processo social a que você foi sujeito.

Isso não dá o direito de se engessar. Não adianta dizer que eu sou assim por isso ou por aquilo. Todos nós podemos aprimorar o nosso código de ética e redefinir os nossos paramentos sociais.

Respeito é para ser oferecido a quem merece e a quem precisa. E de forma gratuita!

 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)



quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A renovação da esperança!


Falta pouco para que os fogos de artifício anunciem um novo ano. De uma forma bem fria, esse é um momento fugaz, nada mais que a virada de um minuto para o outro. Uma comemoração realizada por pura convenção.

A virada do ano, assim como a passagem das estações, para a maioria das pessoas, não passa de um momento bucólico. Poucos realmente sabem o que significa, nem o que isso influencia na vida. É tudo uma mera contagem de tempo, e as diferenças de temperatura, da quantidade de chuva, de velocidade dos ventos, de mais ou menos calor, se passam por meros detalhes. 

A passagem do ano é realmente simbólica, mas internalizada pela maioria da população como a renovação da esperança. É como se nesse momento renascêssemos para a vida. É um momento onde nós revigoramos as expectativas, abrimos mais uma oportunidade de ser feliz e conquistar os nossos objetivos.

Simbolicamente funciona como uma motivação para que possamos ser melhores, em aspectos que cada um entende, naquele momento, como essenciais. Em geral, pegamos de pronto os conselhos daqueles discursos geniais que nos mandam observar a vida de ângulos diferentes, e viver sem a ligação tão fria com o dinheiro.

Fala-se do aproveitar melhor o tempo que se passa por aqui, um tempo que a bem da verdade representa uma vida. E esse é o único fato que, sem questionar as concepções mais exotéricas e espiritualizadas, temos em mãos. A vida que temos a oportunidade de viver aqui e agora.

Também como de praxe, a virada do ano é o momento de questionar os nossos erros e o que podemos fazer para minimizá-los, já que não temos como voltar atrás. O que foi feito não se retira. Não temos como retirar a dor que um dia causamos, não temos como justificar as faltas, as ausências, as dores que provocamos. Quando muito, temos como reconhecer tais equívocos, e tentar tomar uma atitude que possa aliviar o que deixamos de rastro.  

Pedir desculpas já é uma boa atitude. Todos nós deveríamos fazer esse exercício. Em uma opinião bem pessoal, isso nos faz mais humanos. De qualquer forma, lembre-se: nada apaga o que foi feito! Um pedido de desculpas mostra que você reconheceu que errou, mas não obriga a outra pessoa a passar uma borracha e simplesmente fazer de conta que nunca foi ferida.

É por isso que, todo final de ano, repassam-se todos os bons conselhos, cito: melhore a sua tolerância; aprenda a ouvir primeiro; pare para pensar e só depois questione; não tome atitudes por impulso, no calor da emoção, sempre faça uma pausa para respirar antes; olhe para o lado, se ponha no lugar do outro.

Eu pessoalmente gosto muito de três dos Princípios da Harmonia:

- Você é o responsável pelas suas ações, por isso tome decisões de como você deve ser e de como você deve agir. Essa é a sua estrada, a sua vida e ninguém por percorrê-la por você.

- Seja sincero e verdadeiro com você mesmo e com os outros. Seja verdadeiro em todas as situações. A honestidade é um exercício e deve ser praticada em todos os momentos da nossa vida.

- Não interessa a sua religião, ou se você tem ou não, ore! A oração é uma forma de meditação e essa introspecção promove o encontro entre o corpo, o espirito e a energia universal da vida.

Quando eu faço a tentativa de analisar a minha estrada, eu penso que gostaria de ter conhecido esses princípios antes. A caminhada para a aquisição da experiência nos cobra o preço das nossas atitudes anteriores, e nos obriga a carregar nas costas cada uma das pedras que, de gosto, resolvemos pôr na mochila.

Tomamos muitas atitudes por acreditar que a vida era assim mesmo. Quantas vezes eu me pego pensando sobre as atitudes que eu tomei, imaginando que seria capaz de consertar depois?! Quantas atitudes, mesmo entendendo que não deveria, que não era o caminho certo, eu tomei porque era o que tinha para o momento e que seria assim mesmo?!

Também me vejo pensando em quantas vezes eu me escondi atrás das pequenas mentiras, como forma de acreditar que assim seria mais fácil, mais barato, que assim caberia uma menor quantidade de explicações. Tudo uma sucessão de desvios que nunca me levaram a canto nenhum.

Esses anos de pandemia, de reclusão, de perdas, de tragédias pessoais, como todas as grandes dores, também trazem junto muitos ensinamentos. São lições de vida que são oferecidas, independente da sua capacidade de absorção. Sem aqui querer menosprezar a dor de ninguém, eu recebi as minhas duras lições. .

Eu penso que cada um de nós atravessou o seu deserto. Não foi fácil para ninguém, embora para algumas pessoas, por conta de uma adaptação mais ágil, pareceu mais fácil. Eu atravessei o meu deserto, o animal ferido, como diz na música do Roberto Calos, por instinto decidido, tentando apagar os rastros como forma de fugir de mim mesmo.

Mas aqui estamos nós, vivenciando a possibilidade de encarar novos tempos, abrindo a cabeça para caminhos novos e deixando o ano de 2022 para trás, acreditando que as coisas ruins também ficaram para trás com ele.  

Que esse marco convencionado de virada, seja assim para todos aqueles que precisam de uma vida nova. Que os fogos de artificio anunciem um presente mais cheio de humanidade, que as esperanças realmente renasçam e nós possamos brindar em um desejo uno de paz e amor!

 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)



 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

As faces do Natal!


 

O natal é, por essência, uma época de bons presságios. O espirito do natal reina e, pode-se dizer, ele contagia as pessoas, fazendo com que cada um libere o que há de melhor no seu coração. O natal traz à luz esse lado emocional, mais positivo das pessoas, o lado humano, caridoso, deixando florescer amor e paz na humanidade.

Mesmo assim é bom lembrar que, como o natal é uma data comercial, ele também traz a reboque as frustrações de quem não tem as condições financeiras adequadas. Nem todo mundo tem a condição de fazer parte dessas confraternizações sem fim, de participar de tantos amigos secretos, de tantas cotas, além de tudo a mais que sobrecarregam os gastos extras. Gastos que não cabem no orçamento de todo mundo.

Não é tão incomum ver pessoas que não se tocam dessa realidade. Não é que sejam pessoas insensíveis, é que são pessoas que não conseguem enxergar a realidade que está ali ao seu lado. Elas falam de valores que podem até não fazer falta no bolso delas, mas que, diante da realidade de vida de tantas outras pessoas, tem um peso e faz falta.

Partindo dessa visão, eu fico imaginando, o tamanho da frustração de um pai que não consegue atender ao pedido de um filho, quando esse mesmo filho vê o Papai Noel,  atender ao desejo do garotinho rico.  O rico aqui só conotando a condição financeira de atender ao desejo do presente.

É injusto ver que o Papai Noel, esse bom velhinho, que no imaginário das crianças representa o espirito da esperança, só dá presente a quem “pode”, a quem tem as condições financeiras adequadas a essa realidade. Uma ilusão que nós, os adultos, seguimos dando vazão, insensíveis, esquecendo-nos de olhar para o lado.

Trato como insensibilidade, pois não é uma doação de presente que resolve o problema ou as frustrações. Pense: por mais que nós nos ofereçamos para algum trabalho voluntário, por mais que possamos fazer algumas doações, e até nos lembrarmos de uma ou outra criança a quem possamos realizar o desejo, isso não resolve. E o resto?

Eu não estou querendo aqui macular a magia do natal, muito pelo contrário. Essa magia é o que faz brotar a generosidade, como eu citei no início. É essa mágica quem faz surgir o que existe de melhor na humanidade. Eu estou querendo aqui é que nós possamos humanizar ainda mais esse espirito.

O lado comercial, não vai deixar de existir. O dinheiro vai sempre financiar a manutenção da data e ressaltar os valores do “dar e receber” presentes. No entanto, nós, como seres humanos precisamos ampliar o valor dos abraços, dos sorrisos, das boas atitudes.

Nós, como seres humanos, temos que instigar nas pessoas à nossa volta o valor desse espirito que espalha bons presságios mundo a fora. É o espirito do natal que contagia as pessoas a fazer o bem. E é o bem que se faz, independentemente de como se faz, que precisa ter mais valor que o presente físico.

 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


terça-feira, 29 de novembro de 2022

Família é uma mistura cheia de boa vontade!







Uma vez, em uma discussão, meu filho me disse que dava valor aos amigos dele, pois eles o aceitavam do jeito que ele era. Eu não consegui concordar com a afirmação, mas não tive como argumentar de imediato. Precisei remoer a afirmação dele, para conseguir fechar o meu raciocínio, ou melhor, aprimorar a contextualização da minha resposta.

Na minha cabeça, ciente de que tenho amigos maravilhosos que me acompanham por toda a minha história, tenho a clareza de entender que contamos mais certamente e firmemente com a nossa família. Pai, mãe e irmãos, precisam de motivos muito maiores para nos deixar de lado.

Adoro meus amigos, tenho alguns deles como irmãos. Tenho a certeza, inclusive, que agiriam como irmãos de fato, sobre minhas necessidades mais extremas. Mas, o que me refiro à família é sobre um contexto ainda maior, é uma espécie de ligação espiritual, como se o fator sangue, falasse mais forte. É uma ligação tão forte que chega a nos incomodar.

Incomoda pelas cobranças, os puxões de orelha, as intervenções que eles se acham no direito de fazer nas nossas vidas, direito esse que, de certa forma, eles realmente têm! Tudo em meio a preservação da nossa própria identidade. Nós também precisamos manter a nossa independência.

De qualquer forma é muito importante reconhecer que todo esse contexto tem algo de imensurável. Não se pode deixar de entender que essa é uma cobrança de quem realmente se importa. Por isso, mesmo você não podendo seguir todos os conselhos integralmente, valorize-os!

A bem da verdade, nós deveríamos era abraçar mais essas pessoas. Abraçar, agradecer, nos desculpar por nem sempre darmos o ouvido necessários a tudo o que eles nos dizem. São essas as pessoas que mais nos acolhem e que chegam junto das nossas necessidades. Vem dessas pessoas, quase sempre, o apoio necessário quando o resto do mundo parece ter nos abandonado. 

Em geral, os amigos estão ligados por um senso comum, o senso do grupo e que tem por limite a nossa própria tolerância. Quando alguém foge dos parâmetros desse senso, essa pessoa acaba por se distanciar. Essa é uma situação quase que natural e a isso destacamos raríssimas exceções.

Desses amigos, perceba que os que mais nos cobram, os que mais torram a nossa paciência por conta das colocações de vida, os que mais nos incomodam chamando a atenção pelas nossas faltas ou desvios de conduta, são os mais ligados. São essas pessoas que mais fazem parte da nossa vida. Esses são os que não querem perder o convívio. Essas são as pessoas para quem nós somos caros!

Pois família não é mais que isso! Embora em uma mistura que, a princípio, não deveria dar certo, por conta da heterogenia, são essas pessoas que comemoram as nossas vitórias e se importam com nossos fracassos. As pessoas que integram a família criam elos com as nossas vidas extremamente fortes, e passam a despejar sobre nós uma boa carga de energia positiva.

Não estou dizendo que tudo são flores. Não tem como ter uma harmonia plena no exercício da convivência tão próxima. Quem convive, tropeça nas vontades alheias, na linda e maravilhosa diversidade, seja de egos, de gênios, ou de personalidades. Mas é daí que surge a maior de todas as habilidades humanas, a resiliência!  

Se somos capazes de construir amizades, também podemos as construir dentro da nossa família. Isso ligando primos, tios, sobrinhos a esse exercício da amizade plena, onde todos podem crescer como pessoas. Dessa forma, todos nós podemos desenvolver as habilidades de relacionamentos, sabendo que ali existe uma propensão maior a tolerância e a compreensão.

De certo que existe sim a formação das famílias que não são de sangue. Pessoas que encontram uma conjuntura apropriada de vida e, assim, constroem uma ligação tão forte, um elo existencial de amor tão incomum, que se tornam parte de tudo o que somos.

Imagine você sofrer um acidente grave e ficar preso a uma cama. Imagine quais as pessoas que você acredita que vão estar ao lado da sua cama com passar do tempo. Quem realmente se disporia a estar com você, nessa condição incomum? Quem se disporia a cuidar de você, a doar seu tempo para estar ali, depois de um ou dois anos desse seu infortúnio?

Pois, aprenda a dar valor a essas pessoas. Aprenda a regar esses relacionamentos.  Aprenda que, dar a essas pessoas explicações, ou prestar contas das suas atitudes, não é ruim. Isso até pode funcionar como uma reavaliação do contexto apresentado. Você vai prestar contas com quem se importa, com quem lhe deseja o bem, embora nem sempre consiga compreender os seus motivos.

Essas pessoas são de fato a sua família. É porque na essência, o melhor que existe de ser da família, é saber que ali se encontra uma mistura de sentimentos grandiosos, de um amor fora do comum. Uma mistura totalmente cheia de boa vontade!

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 


 

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