O carnaval é sem duvidas a festa da liberdade, a festa da carne, da
permissividade. E é por isso mesmo que é nele onde se apresentam, de forma mais
clara, toda a nossa pluralidade social. De uma maneira bem ampla, as pessoas se
desnudam e expõe as suas maiores intimidades, deixando a mostra toda a sua
alma, a essência do seu “EU”.
Também, e exatamente por conta dessa exposição, que uma diversidade de
situações, de dilemas sociais, acaba se apresentando, vindo à tona. São
manifestações derivadas das novas condições sociais, desse movimento dinâmico
de vida que nos obriga a repensar e nos adaptar a essas novas questões comportamentais
que emergem.
Vivemos um embate permanente entre a parte mais progressista da
sociedade e a parte mais conservadora. Eu diria que, dentro de um todo, as duas
partes acabam tendo muito valor. O que seria do desenvolvimento sem a parte
mais progressista, e o que seria da história sem a parte mais conservadora.
Nesse processo de desenvolvimento, nem todos os comportamentos são tão
fáceis de serem aceitos, de serem compreendidos, ou até mesmo de se moldar à
realidade da cultura social que nós vivemos. Sempre vão existir os dilemas
práticos que toda mudança comportamental carrega.
A questão do uso do banheiro é um dos exemplos do que é essa discussão. Não
dá para se ter uma opinião, ou para se definir uma questão como essa sem muita
conversa. Tudo o que for pensado deve levar em conta o RESPEITO, com todas as
letras maiúsculas, sobre o direito e o sentimento individual de cada pessoa. Não
se pode deixar de levar em conta as implicações sobre a coletividade.
Uma pessoa, num corpo físico de um homem, que se identifica como mulher,
pode usar o banheiro feminino? Uma pessoa, em um corpo físico de mulher, que se
identifica como homem, vai usar o banheiro masculino? Como vai se sentir a
mulher, com a presença de uma pessoa com o corpo físico de um homem no banheiro?
O que pode acontecer com uma pessoa com o corpo físico de mulher em um banheiro
masculino?
Pensar, conversar e discutir sobre o assunto, pode propiciar o encontro
das melhores possibilidades, o encontro das saídas mais adequadas. E isso é o
que cabe para uma série de questões dentro do que é a convivência social.
Não é simplesmente impor o que um ou dois acham, ou o que é a condição
mais conveniente para uma meia dúzia. O meu comportamento como ser individual,
deve ser respeitado, e eu, da mesma forma, devo respeitar o sentimento e o
comportamento das outras pessoas. Ninguém precisa, ou tem o direito de agredir
ninguém.
De uma forma qualquer, a diversidade carrega consigo o sentimento de
plenitude da vida. Ela funciona como um espelho da alegria, e o “grosso” da
sociedade enxerga isso com muita clareza. Na sua grande maioria, a sociedade
enxerga esses dilemas e pensa sobre eles, independente de se posicionar mais
conservador ou mais progressista. A
sociedade, como um todo, é tolerante, por assim dizer.
Só que, à margem desses dois lados, tem um público que abdica dessa
tolerância, um público que não se conforma com o fato dos demais divergirem do
seu pensamento, e que faz questão impor a sua verdade. Eles agridem, como se
isso fosse capaz de provocar a aceitação.
A maior parte da sociedade, a parte onde eu mesmo me enxergo incluso,
busca o seu espaço, as suas conveniências, mas procura entender e valorizar o
espaço dos outros. Mesmo tendo uns mais arraigados com as ideias conservadoras
e outros que tem a necessidade de criar, ou, por assim dizer, de abrir os seus
espaços, existe uma interseção de pensamento e uma tolerância que possibilita a
convivência harmónica.
Os que agridem, os que precisam ferir para defender suas posições, fazem
parte do grupo mais tóxico da sociedade, do grupo que faz questão de se pôr à
margem, independente do lado da corda em que eles estão. São pessoas que não se
abrem para pensar com os demais, não conseguem uma argumentação lógica, e por
isso querem forçar o seu raciocínio no grito, na pancada.
Normalmente, esse é um comportamento que chama muito a atenção. Nós
notamos e acabamos dando ênfase a esse tipo de comportamento. Por isso,
acabamos por percebê-los com uma conotação de grandeza maior do que deveríamos.
A questão que nós precisamos entender é que dentro do círculo estão a
maioria das pessoas. É aqui que está a maior força da sociedade. Nós precisamos
olhar melhor uns para os outros, valorizar essa pluralidade, nos dar as mãos para
construir uma barreira contra todos esses que buscam se colocar à margem, e que
fazem questão de ferir e machucar a sociedade como um todo.
Nunca devemos parar no tempo. Precisamos da dinâmica social, da
evolução, mas nunca devemos deixar que a tolerância, que a possibilidade de
olhar para o lado, se perca na individualidade, no egoísmo do ser humano.
Aélio Jalles (Lelo)








