O
ano era 1988. Nessa época a cidade de Aracati era um dos melhores destinos no
carnaval, uma referência do carnaval no Ceará. A praia de Canoa Quebrada, uma
das praias de Aracati, era um destino dos mais cobiçados.
Estamos falando de um tempo em que o celular ainda não fazia parte do cotidiano das nossas vidas. A praia de Canoa Quebrada também não era o que se vê hoje. Ainda era uma praia de aventureiros, sem muita estrutura.
Na época, a prefeitura de Aracati já tinha aberto uma via de acesso que permitia a chegada dos carros próximos ao paredão das falésias. Até então, só se chegava próximo a praia caminhando ou em carros apropriados. Esse aceso permitia que o trio elétrico chegasse até lá e o carnaval tomasse conta.
E nós estávamos lá. Mais de trinta pessoas socadas em uma casa, num esquema que só funcionava bem, eu acredito, por conta da amizade. A casa era de uma tia de uma das meninas da turma. Ela morava na casa com a mãe, mas, nesse período, ela despachava a mãe para casa de outra filha e tirava o proveito dessa renda extra de carnaval.
A casa ficava colada na praça central do Aracati, a praça do carnaval. Isso tornava a casa estratégica. Ela servia de base e nos permitia aproveitar, de uma forma ímpar, toda a folia de carnaval. Nós ficamos literalmente no meio da fofoca, com o carnaval na nossa porta.
Diariamente, logo depois do café, comprávamos duas caixas de cerveja, cerveja em garrafa de 600ml, para sair mais barato, e alguns refrigerantes de dois litros. Púnhamos tudo em dois recipientes de isopor. Cobríamos a cerveja com gelo e seguíamos para a praia.
Aquele aparato era para o consumo da noite. Quando o carnaval estava rolando na nossa porta, e nós podíamos usufruir do nosso camarote particular. Tudo muito apropriado para um carnaval majestoso.
A praia de canoa quebrada era bem turística. Isso deixava os preços, principalmente no período de carnaval, onerados, o que tornava impeditivo os exageros de consumo. Esse era o motivo mais determinante para que nós retornássemos da praia relativamente cedo.
No último dia de carnaval, nós nos preparamos para uma farra um pouco maior. Descobrimos que tinha verba para uma caixa a mais de cerveja. O que fez a felicidade de uma boa parte do grupo.
Já na praia, nesse último dia, os bons cervejeiros queriam retornar mais cedo ainda da praia. Já as meninas, em sua maioria, queria aproveitar o último dia de praia. Foi ai que nasceu o dilema do quem vai e do quem fica.
Dividimos os carros, e as dez mulheres, as que estavam fazendo questão do sol, ficariam para esse bronze a mais. Ficaram dois carros para o transporte delas, dois fusquinhas. O resto da turma tomou rumo e subiu o morro para ir embora.
Quando nós chegamos no alto do morro, apareceu a ideia maluca: vamos enterrar os carros das meninas?! A ideia fluiu de um jeito tão rápido, que em questão de minutos, já se tinha nas mãos duas pás, escoras de madeira e outros aparatos. São as loucuras da adolescência!
Foi um trabalho danado. Usamos os macacos dos outros carros para levantar, as escoras de madeira para sustentar e retirar a areia debaixo deles. Cavamos os buracos, tudo em um processo muito corrido e mais ainda desorganizado. .
Só como referência do custo desse processo, isso tudo estava acontecendo debaixo do sol de meio dia. Deu um trabalho gigante, uma suadeira que nem dá para descrever. Nós levamos quase uma hora para fazer essa arrumação toda.
Fomos embora deixando para trás, de uma forma meio irresponsável, o abacaxi dos carros enterrados. Não sabíamos como as meninas iam se virar para tirar os carros dos buracos que nós metemos.
Chegamos em casa, fomos tomar banho, almoçar e nos preparar para dar inicio aos trabalhos, com o compromisso de dar conta de uma caixa de cerveja a mais até o final do dia. Tudo isso misturado com a curiosidade de saber como as meninas iam se sair.
Na verdade, nós demoramos tanto tempo para enterrar os carros que pouco tempo depois de nós chegarmos, questão de alguns minutos, elas chegaram também. O que fez aumentar a curiosidade do que tinha acontecido. Elas chegaram rindo, fazendo hora com a cara dos idiotas que tentaram pregar uma peça com elas.
Quando elas saíram da praia e subiram o morro para ir embora, elas encontraram junto dos carros enterrados, uma ruma de gente. Pessoas que tinham visto a arrumação, e outros mais que ficaram curiosos, imaginando como e porque tinham sido feito aquela presepada.
Imaginem; 10 mulheres, bonitas, risonhas e nessa situação. Não demorou um instante e uma verdadeira força tarefa de homens se ofereceu para retirar os carros. Rodearam um dos carros, suspenderam e retiraram o carro do buraco no braço. Repetiram a mesma coisa com o segundo carro e pronto. Parecia brincadeira.
É fato que elas nunca deram os detalhes exatos de como foi esse processo, e de como elas agradeceram esses cavalheiros tão disponíveis e dispostos. Melhor mesmo não saber. Já basta a cara de abestado que todos ficamos por conta disso tudo.
Obs: Esse é um texto extraído do livro Anjos da minha vida, onde eu conto muitas histórias dessa turma de amigos, a turma dos Anjinhos!
Aélio Jalles (Lelo)
#Escritosdocoracao - #coracaodeescritor - #publicacoesemocionantes - #coracaoemevidencia - #amorperfeito - #simplesassim - #amodemais - #declaracoes - #escrevendoavida - #jallesecia - #bastanteamor - #anjosdaminhavida







