Um amigo diz que nós vamos para a praça para conversar, mas como
precisamos dar uma boa desculpa, a gente acaba caminhando para cuidar da
saúde. O bom é que nos contextos das
nossas caminhadas matinais, nossas conversas acabam fazendo brotar verdadeiras
pérolas sobre a filosofia da vida.
Quer queira ou não, o conhecimento acumulado pela idade, pela vivência,
ganha forma nos comentários, muitas vezes despretensiosos, mas aplicados por
uma visão de mundo muito abrangente. São análises dos fatos que cada um
apresenta dentro da linha que lhe é própria, e esses ocorridos da vida vão ganhando
versões belíssimas.
Em uma dessas, uma das nossas amigas, expôs um fato. Ela expôs um
ocorrido bem pessoal, uma experiência de vida, que ela dividiu com o grupo e
provocou uma avalanche de análises, críticas e diagnósticos. Compreensões com
uma diversidade de visões e uma riqueza de valores que faço questão de dividir
aqui com todos.
Ela contou que um belo dia o marido ligou, já tarde da noite, pedindo
que ela fosse buscá-lo em um bar. Ele estava sem condições de dirigir, tinha
passado da conta na bebida, e estava recorrendo à esposa para socorrê-lo. Algo
que a princípio poderia ser fácil de entender.
De imediato, as outras mulheres do grupo já deixaram de pronto a sua
reprovação. Cito: “eu jamais me prestaria a um papel desses”. Buscar o marido
em um bar, de cara, era uma atitude reprovada pela maioria das mulheres. Mais
ainda quando ela descreveu o bar. O bar, digamos assim, não era um dos
ambientes mais recomendados para a frequência de uma moça de família.
A esposa em questão, ainda deu mais amplitude ao caso quando fez referência
às companhias com as quais ele se encontrava. Um amigo, ainda mais bêbado que o
marido, que ela teve que deixar em casa, e as moças. Bom, as moças estavam
trabalhando e ela ainda teve que pagar o cachê das acompanhantes.
Aquilo subiu para a cabeça de quase todas as mulheres. As criticas mais
diretas eram ricas em detalhes e a quantidade de desfechos mencionados, do que
fazer com o dito cujo, daria quase um livro. Algumas menções tinham requintes
de maldade. Dava até para ficar chocado com a crueldade de algumas.
Por sorte quase todas. Digo quase todas porque uma delas enxergou a
coisa por um ângulo diferente. Ainda bem que essa visão veio de uma mulher. Sei
que não teria valor se tivesse vindo de um homem. Ela disse: “é muita confiança
do seu marido em você. Ligar pedindo para você ir buscá-lo em um ambiente
desses. Ele precisa ter certeza de que você também confia muito nele”.
Eu pessoalmente adorei a quebra de paradigma daquela mulher. Adorei ver
a experiência de vida dela, falando alto e apresentando aquela outra forma de
ver o fato. Ela, a expectativa dela em relação ao marido e as nuances do seu
próprio relacionamento foram jogadas na maneira que ela viu o acontecimento,
que a amiga vivenciou.
Na verdade, eu percebi que os homens do grupo se abstiveram de dar
opinião. A situação era tão delicada diante do universo masculino, que, na
hora, realmente o melhor era ficar calado. Nós, da mesma forma que a maioria
das mulheres, também julgamos o fato pelo prisma machista.
Só que daquele momento em diante a discussão ganhou novos ares. Essa
questão de confiança, de interação de um relacionamento e de tudo o que esse
relacionamento é capaz de construir, pode fazer a diferença em tudo o que
acontece dentro dele. Inclusive na forma que o próprio grupo passou a ver o
casal.
Ela, a esposa, carinhosamente acabou oferecendo uma grande lição de
moral. Ela deixou claro que conhecia o marido e que acreditava nele. Ela disse
que todos os anos de convivência e todas as dificuldades vividas, consolidou neles
uma confiança mútua grande. Não que tenha sido um caminho só de flores, mas que,
em toda essa caminhada, a certeza no carinho e no amor, de um com outro, tinha
sido a fortaleza do casal.
Isso nos faz pensar que; em primeiro lugar, toda situação pode ser
interpretada de vários ângulos. Que se faz necessário pensar e ouvir a opinião
das outras pessoas para que se possa tirar uma conclusão adequada. Em segundo
lugar, que todos nós colhemos muito do que plantamos, por isso mesmo devemos
escolher com cuidado o que estamos fazendo com o nosso jardim.
Aélio Jalles (Lelo)








