Os excessos de tudo que representa o Carnaval batem à porta logo depois
da festa, como cobrança por tudo aquilo que se fez. Nem é difícil entender isso!
Acaba aparecendo um registro aqui, outro ali, dos pequenos deslizes que foram
cometidos no decorrer desse período momesco.
Afinal, essa é festa da carne, da alegria, dos deslumbres, dos excessos!
A bem da verdade, só quem não se permite contagiar pelo carnaval, é que fica
isento desses registros. Bem ou mal, isso é vida. Faz parte! Isso é o que nós deixamos
para a nossa história pessoal.
Eu mesmo nem me considero um folião dos mais aguerridos, muito menos um
bebedor inveterado. Nesses dois pontos, bem especificamente, eu me considero um
cara extremamente comedido. Gosto da festa, da brincadeira, gosto da bebida,
das rodas de amigos, mas de fato, tudo dentro dos limites, sem passar do ponto.
Meu acordo com o Baco, já de muito tempo, foi de que a bebida não
poderia passar do ponto, e que eu jamais deveria passar da linha em que se
perde o controle. De uma forma qualquer, por esse acordo, eu percebo o momento
de parar. Não me permitindo passar daquele ponto em que o álcool assumiria o
controle.
E assim eu tenho feito. Nem sei quando foi à última vez que eu passei
desse ponto. Sempre venho tendo o cuidado de não me deixar levar pela
empolgação e, no momento certo, paro, sem perder a condição da alegria e do bem
estar. Eu me vanglorio por conseguir reconhecer o momento certo em que não
posso mais ceder aos encantos de continuar na brincadeira.
Eu reconheço que tem ocasiões em que eu chego a pisar na linha. É que
tem situações em que a vontade vai um pouco mais longe. São situações
empolgantes, que deixam o sangue mais quente. Mas, o desejo que eu tenho de
manter o controle é muito determinado.
Essa determinação vem de muitas histórias de família, das mais diversas
situações com os amigos e muitas outras situações vivenciadas pelo descontrole
do consumo de álcool. Por isso, mesmo quando pontualmente acontece comigo, eu
grito e recorro à água. Tomo muita água. Tanto que acabo, naturalmente, saindo
das minhas festas e confraternizações totalmente lúcido.
Até aqui, eu pensava ter encontrado o acordo perfeito. Só que tem uma
pessoa que tem me feito questionar esse acordo tão bem elaborado. Segundo ela,
eu deveria parar sempre alguns copos antes. Nessa linha de pensamento, eu tenho
que dar uma afinada maior no meu controle, de uma forma que eu não me permita
chegar tão perto do limite.
Mas, ainda que essa pessoa me faça pensar sobre os meus motivos,
buscando uma reflexão, algo como se beber, para mim, fosse uma obrigação, não
me vejo assim dependente. Ela questiona que a bebida não pode funcionar como o
gatilho da minha felicidade. Como se eu só pudesse ser feliz assim, de copo na
mão.
Lógico que isso abre uma reflexão. Existe uma razão na questão do
controle sobre o ato de beber. Mais ainda na questão da necessidade da bebida. Isso
torna a situação difícil de explicar. Ora, nem mesmo um alcoólatra inveterado
consegue reconhecer seu vício.
Meu dilema é conseguir mostrar que o peso que está sendo colocado é
maior do que merece. A bebida é atrativa sim, ela ajuda a liberar as tensões, alivia
o peso das obrigações, desafoga os problemas e faz a vida fluir, digamos assim,
mais facilmente. Ela dá uma pitada a mais, põe um tempero, oferece um colorido
para a vida.
Mesmo sendo Baco o Deus protetor das condutas desviadas, meu acordo com
ele não prevê excessos. De uma forma bem clara, eu penso que todo excesso, seja
ele na bebida ou na vaidade, tomando somente como um exemplo paralelo, carrega
uma dose de compensação, como se isso fosse capaz de suprir alguma falta.
Eu sei que existem os que não conseguem esse acordo tão preciso com ele.
Tem muitos que não podem beber pela falta de controle, por não conseguir
identificar um limite seja lá onde for. Tem outros que simplesmente saem do ar
com a bebida, desligam o “modo” bom senso e entram em um outro “modo” meio questionável.
Assim, mesmo respeitando os que podem ter os problemas com a bebida, quero
reiterar meu acordo com Baco. Brindar a alegria não pode ser considerado um
pecado, e fazê-lo por opção, sem excessos e quando coerentemente pode ser
feito, faz parte do lado bom da vida.
Essa é uma questão que faz bem, integra aquilo que é pleno e merecedor
da luz divina!
Aélio Jalles (Lelo)








