quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A amizade também cobra seu preço!


 

Eu morava em Quixeramobim, uma cidade do interior do Ceará. Como toda cidade do interior, a calma, a tranquilidade e a segurança faziam parte do cotidiano. Era possível se viver em paz, respirando os ares da noite, sem que tivéssemos a necessidade de qualquer preocupação.

O interior do Ceará, aquela região central do estado, para quem não conhece, é quente! Um calor capaz de tirar o juízo de qualquer pessoa. Esse calor dura o dia todo, um climaquente e seco que entra pelo início da noite. Essa sensação de abafado só é aliviada com a chegada do Aracati, o vento que sopra do litoral e chega, para nós lá do Quixeramobim, por volta das 20 horas, trazendo a brisa que alivia a cidade toda. 

Esse é o vento que sopra as muriçocas, que leva o calor e refresca a casa. Não tem remédio melhor. Quando o Aracati chega, ele leva o mormaço que se instala nas casas durante o dia.  Até esse momento, se você pegar no lençol da cama, você vai sentir o reflexo desse mormaço. Dentro de casa, tudo é quente como se tivesse sido engomado naquele instante. É o reflexo do forno em que a temperatura normal do dia transforma as casas.

Quando o Aracati chega, para estabilizar o clima e deixar as casas habitáveis, todo mundo abre as portas e janelas, deixando tudo escancarado. Esse vento fresco derruba a temperatura e provoca um conforto térmico fantástico, às vezes chegando ao ponto de uma boa friagem. Normalmente, ele chega deixando o rastro de um friozinho gostoso para embalar o sono.

Em uma noite dessas, eu estava em casa, com as portas abertas, as janelas literalmente arreganhadas, aproveitando o frescor do vento, que, nessa noite, estava especialmente frio. Eu estava jogado no sofá da sala, assistindo televisão e, como morava em uma cidade tranquila, sem nenhuma preocupação com a vida lá fora.

Eu morava em uma dessas casas antigas, bem características do interior, uma casa que não tem varanda, onde a porta da sala já fica, como se diz comumente, na porta da rua. Aquele tipo de casa que a gente pode se debruçar na janela para dar conta da vida que se passa do lado de fora.

O fato é que a porta e as janelas, da parede da frente da casa, ficam literalmente ligadas à calçada. Para receber o vento, como todo mundo, eu deixava tudo aberto. Isso era comum, não tinha motivo algum para não fazer isso. 

Eu estava lá, sozinho, “deitadão” no sofá da sala, assistindo meu filme. O detalhe é que o filme era aquele de medo. Sabe aqueles filmes que dão susto na gente, que deixam os nervos à flor da pele? Esses filmes que ganham a classificação de filmes de terror. Eu acho que a gente assiste esse tipo de filme para testar o coração. 

Bem na hora da cena mais cavernosa, aquela cena que você está esmagando o braço da cadeira, comendo as unhas, arrancando os cabelos, totalmente ligado ao filme, eu só escutei um berro no meu pé do ouvido: him-hãmmmm, him-hommmmm - (isso é para ser o relinchado de um jumento), nas alturas, dentro da sala, bem pertinho de mim, nas costas do sofá que eu estava sentado.  

Naquele momento, o sangue desapareceu do corpo. Meu cabelo, que já estava arrepiado por conta do filme, virou espeto e eu não sei precisar exatamente o tempo que eu levei para reencontrar meu corpo. Eu sei que a cena durou somente alguns segundos, mas eu levei mais tempo para sentir os pés no chão, e fazer com que os pensamentos se encontrassem com a realidade: tinha um jumento na minha sala!

Do pulo da cadeira até a minha tentativa de retirar o animal, teve uma correria ao redor dos móveis, uma fuga pela janela e o encontro com o vigia da rua bolando de rir. Não sei se vocês conseguiram entender, ou pelo menos chegar perto, o tamanho do medo que eu senti.

Levei uns minutos respirando para o coração voltar ao normal, os olhos voltarem para caixa e os pensamentos se desembaralharem, para eu conseguir entender a diferença do que era o medo do filme e o que era o susto da marmota que estava acontecendo.  

O jumento se aproveitou da porta aberta e, segundo o vigia da rua, passou uns minutinhos assistido o filme. Ele viu a marmota e já estava quase chegando na porta para retirar o jumento, quando o bicho resolveu dar o show e me matar do coração, ou pelo menos testar, para ver se meu coração resistia a tanto.

O vigia só faltou morrer de rir da minha cara. Não posso negar que conto isso hoje com a graça que deve. Depois do susto, realmente dá até para rir!       

 

 

Aélio Jalles

 

 

 

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4 comentários:

  1. Tenho 2 fortes palpites! Kkkk

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  2. Tinha que ser no Quixeramobim!

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  3. Acho que todo mundo tem o Gênio que merece

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  4. Sou daí de Quixeramobim sei deste vento do aracati é verdade! Agoraestou rindo até agora , desta estória do jumento dentro de casa, imagino o susto. Kkkkkk

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