sábado, 22 de outubro de 2022

A Festa do Contrário!



Foi assim que nós batizamos aquela festa épica!

Estamos falando do ano de 1987. Nossa turma era ainda toda formada de adolescentes. Nós já éramos amigos de longas datas, e já tínhamos realizado muitas outras aventuras. De qualquer forma, aquele tipo de festa era um desafio, levando em conta as concepções sociais da época. 

A data comemorativa mais marcante da turma era o dia dos namorados, sendo óbvio até. Assim nasceu a ideia de uma comemoração diferente, algo que marcasse, que ficasse registrado na nossa história. Foi para isso que nos desafiamos a fazer a Festa do Contrario! 

A festa começou a ser idealizada nos nossos encontros, como sempre, tendo o Caravele como pano de fundo. Em cada reunião que fazíamos apareciam novas sugestões e lógico, as negativas, as dificuldades que teríamos que enfrentar.

Uma festa onde os homens se vestiriam como mulheres e as mulheres se vestiriam como homens, era de se imaginar que nem todo mundo iria topar. Essa era só uma das questões levantadas. Tinha a questão do onde, de como nossos pais iriam encerrar essa brincadeira e coisas do gênero.

O primeiro desafio era garantir que todos estivessem vestidos a caráter. Nós teríamos que fechar a questão de que só entraria na festa quem estivesse devidamente trajado. Não se poderia permitir ninguém quebrar a regra. Nem mesmo se um dos pais, por exemplo, quisesse ir à festa, teria que se vestir a caráter. Ninguém era ninguém!

O Local escolhido foi um sítio nas imediações de Messejana. Um local tranquilo, onde nós poderíamos fazer a bagunça do mundo todo, sem incomodar ninguém. O sitio era dos pais de um dos nossos amigos, um dos membros da turma. A Turma dos Anjinhos!

Teria que ser uma festa com todos os aparatos. A decoração feita com muito capricho, um buffet que pudesse dar conta do número de pessoas que imaginamos que poderiam estar lá, a seleção musical, que deveria ser escolhida e preparada a tempo. Nós estávamos no tempo da fita K7. Não dava para preparar uma trilha musical assim da noite para o dia não.

Só que a festa rendeu muito mais do que poderíamos imaginar. Nos dias que se seguiram a preparação dessa festa, teve um dia em que 14 homens se prontificaram a ir ao centro da cidade, comprar sapatos de mulher. O detalhe: sapatos que coubessem naqueles “pesinhosdelicados”. Sapatos de mulher com tamanhos do 40 ao 46. A loja escolhida foi a Arca da Aliança!

Da para imaginar? Um monte de homens na secção de sapatos femininos enchendo o saco dos vendedores. Deu para chamar a atenção de todo mundo que estava na loja, rendeu muitas risadas e, diga-se de passagem, demorou para que a nossa história fosse absorvida.

Lá estávamos nós, tentando encontrar um sapato que se adaptasse ao pé. Cada pé que vou te contar. De repente começou os aplausos. Cada um que conseguia um par adequado ao pé, desfilava na passarela da loja e arrancava os aplausos, vindo dos amigos e dos outros clientes da loja. Virou bagunça, a gente desfilava, dançava, fazia todo tipo de graça.

Um dos amigos, no entanto, ainda saiu da loja sem o seu par de sapatos. O pé dele tinha a tala mais larga do que os demais. Segundo as piadas, não era um pé era um casco. Ele só foi encontrar uma sandália, sem lateral e com umas tiras de amarrar, o que facilitou a adaptação do pé dele, em um dos Camelôs, no calçadão, nas bancas de vendas do centro de Fortaleza.

Tivemos também muitos outros, como por assim dizer, incidentes engraçados, no transcorrer de toda a preparação, e em todo o processo para se chagar à festa. Foi todo mundo muito bem arrumado. O traslado, entre as casas e o sítio onde a festa seria realizada, era longo.

Um dos amigos, devidamente trajado, quase uma moça, ficou esperando um bom momento para pegar o elevador do prédio. Quando ele tomou coragem e decidiu ir não deu outra, no andar debaixo entrou um bocado de gente. Lógico que ficou todo mundo olhando para ele, sem conseguir entender.

O outro com o vestido de 15 anos da irmã, deu o prego de pneu na moto. Assim mesmo! Um cara até meio parrudo, de bigode, com as feições bem características de homem, em um vestido branco, esvoaçante, com o zíper nas costas abertos (não dava para fechar) e “puto” de raiva. O borracheiro deve ter dado gargalhadas o resto da noite!

O fato é que a festa rendeu tudo o que a gente poderia imaginar. Muitos outros amigos, amigos que não eram da turma, mas que foram convidados, tomaram coragem e apareceram. Devidamente vestidos, é claro. Todo mundo fez piada com todo mundo! Todo mundo, de alguma forma, ou por alguma coisa mais especifica, foi “gozado”!

Tivemos de um tudo. Desde a “macheza” daquelas moças que, travestidas, demonstraram quão grotesca é a cultura machista da nossa sociedade. Da mesma forma, aqueles rapazes que se libertavam de uma espécie de armadura e deixavam fluir o seu lado mais doce.  

Deixando a filosofia de lado, tivemos muita dança, um desfile para a realização geral, para mexer com o ego daquelas moças e rapazes, muito mais dos rapazes, pode se afirmar. A verdade é que, todo mundo se soltou. Devagarinho foram aparecendo às performances, algumas que ficaram na história.

As imitações e as caracterizações, como a da nossa Cover da Elba Ramalho, uma briga entre as mais puritanas e as mais prostituídas da festa, que não se deixaram em paz durante toda a noite. E, para fechar a festa, um show de strip-tease.

Um dos caras embarcou na brincadeira, e fez um show mesmo. Ele levou todo mundo junto na viagem dele. Incorporou a meretriz no palco, envolveu todo mundo no clima de sedução e só parou por conta de uma chuva de sapatos.

A festa foi fotografada e filmada, uma novidade para a época. Uma câmera que gravava em fita VHS! Lógico que todos esses registros foram usados para as alfinetadas que se sucederam pelo tempo. Hoje, ainda quando se tem algum contato com uma dessas fotografias, como no meu caso de hoje, vem à mente todas essas histórias.

A fita VHS sumiu. Uma pena! Era um registro de muito valor sentimental, mas nessa de bolar de uma casa para a outra, sumiu!


Obs: Esse é um texto extraído do livro Anjos da minha vida, onde eu conto muitas histórias dessa turma de amigos, a turma dos Anjinhos!

 

Aélio Jalles (Lelo)






#Escritosdocoracao - #coracaodeescritor - #publicacoesemocionantes - #coracaoemevidencia - #amorperfeito - #simplesassim - #amodemais - #declaracoes - #escrevendoavida - #jallesecia - #bastanteamor - #anjosdaminhavida 

 

5 comentários:

  1. Excelente!!! Uma linda recordação.

    ResponderExcluir
  2. Roberto Quintino Albuquerque-Betinho

    ResponderExcluir
  3. Essa história é um clássico da turma! 🤣

    ResponderExcluir
  4. Muito legal essas recordações! nos faz viajar no tempo! 😍😍

    ResponderExcluir
  5. Onde eu estava nessa época? rsrsrsrs
    Gostaria de ter participado dessa aventura e bagunça, com certeza teria sido o "homem" mais charmoso e elegante dessa festa.rsrsrsrs

    ResponderExcluir

A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...