Bem cedinho da manhã, Eli ainda lutava contra
a preguiça. Transitava entre a lucidez da beleza do dia de sol e o abraço dos
lençóis e travesseiros, que insistiam em mante-la na cama. Ela ansiava por
aquele dia, mas a preguiça agia com a força natural que era capaz de exercer
sobre todo adolescente.
Eli era uma adolescente bem apresentada.
Tinha uma beleza capaz de atrair os olhares dos meninos, muito simpática e comunicativa.
Ela era aquela pessoa muito bem aceita em todos os círculos dos quais fazia
parte. Digamos que uma menina de uma vida bem razoável.
Mas aquela manhã era especial. É que Eli
tinha recém começado um namoro. O “carinha” já a vinha cercando há algum tempo,
e ela, por pura precaução, demorou a ceder aos encantos do rapaz. O sujeitinho
era aquele tipo cobiçado, o gostosão que pairava pelo desejo de quase todas as
suas amigas.
De certo que mexia com o desejo da menina
também, e ela, entre a vontade de ficar com ele e todos os comentários
negativos sobre o que seria namorar com aquela figura, sofria a angústia de ter
que tomar uma decisão e assumir, diante das amigas, as consequências.
Pois aquele era o dia. Aquele era o domingo
de Páscoa, o dia do encontro da família, e o dia em que o tal garoto ia se
apresentar, ou seria apresentado. A bagunça na cabeça da menina já não deixava
o pensamento fluir normalmente, e a ansiedade tomava conta até da sua
respiração.
Ela não sabia se sorria ou se chorava quando
Luide se aproximou do portão. Ele chegou todo bonitinho, vestido de forma
simples, como era conveniente para a ocasião, em um estilo bem casual, mas
muito apresentado. A sua simpatia não conseguia esconder o nervosismo natural
da situação a ser enfrentada.
Não tinha como ser diferente. Ele ainda era
um menino se jogando em uma situação delicada, enfrentando com a cara e a
coragem os desafios que a família da moça certamente o iria impor. Claro que
não poderia faltar, para agravar a situação, um sujeito mais sarcástico que vem
fazer piadas e perguntas indelicadas, para pôr a pessoa em uma saia justa.
Eles até tinham se preparado para isso. Eli
tinha repassado as possibilidades desses acontecimentos, e prevenido o Luide de
quem seriam as pessoas brincalhonas. Ela preveniu sobre os tios que instigariam
os pais dela, os primos e primas mais gaiatos e as pessoas mais suscetíveis às
brincadeiras provocadoras.
Mas, o Luide chegou. A mãe de Eli foi
recebê-lo, e fez questão de conduzi-lo sob seus cuidados. Ele trazia, na mão,
flores. Uma cortesia que ele pensava em destinar a Eli, e, à mãe dela, um ovo
de chocolate. O ovo era para homenagear a namorada recém-conquistada.
Só que quando a situação foge de todo e
qualquer script razoavelmente possível, o nervosismo toma conta da situação, e
o raciocínio não consegue se fazer ouvir. Sabe quando simplesmente não tem como
fazer tudo o que você tinha pensado, pelo menos não exatamente como você tinha
pensado?
Fugiu do controle. Antes mesmo de ele chegar
junto de Eli, o grupo dos primos e primas tomou conta da situação. Eles tinham
preparado uma verdadeira loucura de amor para anunciar o namoro da priminha
querida. Uma brincadeira que deveria quebrar, de uma vez por todas, o gelo do
rapaz para com a família da moça.
Tomaram as flores e o ovo de chocolate das
mãos do Luide, e carregaram o rapaz para o palco da festa. Seguraram Eli até
posicionar o rapaz no palco, e depois levaram ela para o meio do salão.
Forçaram a barra para que o rapaz fizesse o pedido de namoro ali, na frente de
todo mundo.
Só não foi pior porque o pai da moça,
percebendo o sufoco em que tinham metido o rapaz, subiu no palco. Ele chegou
junto, acalmou o Luide e deu a ele o apoio necessário para encarar a
brincadeira. A mãe também chegou junto da filha, apoiando, mas sem fugir da
situação. Eles fizeram com que a coisa acontecesse bem.
No final das contas, ao invés do Luide, quem
fez a declaração de amor foi o pai da Eli. O casal falou de todo o início do
namoro, contou a sua história e refez os seus votos, inspirados no início da
relação de namoro da filha. Eles abraçaram os dois meninos, e depositaram as
melhores energias possíveis naquele início de relação.
Foi aí que o pai da Eli desfez a bagunça do
início da festa. Ele trouxe de volta as flores, que o Luide gentilmente
distribuiu entre a mãe e a filha, assim como também o ovo de Páscoa. Nesse
momento, o rapaz, já sem mais nenhuma cerimônia, fez o pedido de namoro e
entregou o bendito ovo de Páscoa a Eli.
Só que um grito de ”PERA AÍ”, interrompeu tudo.
Era a mãe da Eli. Foi ela quem olhou para o marido e perguntou: E aí, cadê meu
ovo?!
Aélio Jalles (Lelo)
*Do
livro Era uma vez meu coração








