Falta pouco para que os fogos de
artifício anunciem um novo ano. De uma forma bem fria, esse é um momento fugaz,
nada mais que a virada de um minuto para o outro. Uma comemoração realizada por
pura convenção.
A virada do ano, assim como a
passagem das estações, para a maioria das pessoas, não passa de um momento
bucólico. Poucos realmente sabem o que significa, nem o que isso influencia na
vida. É tudo uma mera contagem de tempo, e as diferenças de temperatura, da
quantidade de chuva, de velocidade dos ventos, de mais ou menos calor, se
passam por meros detalhes.
A passagem do ano é realmente simbólica, mas internalizada pela maioria
da população como a renovação da esperança. É como se nesse momento
renascêssemos para a vida. É um momento onde nós revigoramos as expectativas,
abrimos mais uma oportunidade de ser feliz e conquistar os nossos objetivos.
Simbolicamente funciona como uma
motivação para que possamos ser melhores, em aspectos que cada um entende,
naquele momento, como essenciais. Em geral, pegamos de pronto os conselhos
daqueles discursos geniais que nos mandam observar a vida de ângulos diferentes,
e viver sem a ligação tão fria com o dinheiro.
Fala-se do aproveitar melhor o tempo
que se passa por aqui, um tempo que a bem da verdade representa uma vida. E
esse é o único fato que, sem questionar as concepções mais exotéricas e
espiritualizadas, temos em mãos. A vida que temos a oportunidade de viver aqui
e agora.
Também como de praxe, a virada do ano
é o momento de questionar os nossos erros e o que podemos fazer para
minimizá-los, já que não temos como voltar atrás. O que foi feito não se retira.
Não temos como retirar a dor que um dia causamos, não temos como justificar as
faltas, as ausências, as dores que provocamos. Quando muito, temos como
reconhecer tais equívocos, e tentar tomar uma atitude que possa aliviar o que deixamos
de rastro.
Pedir desculpas já é uma boa atitude.
Todos nós deveríamos fazer esse exercício. Em uma opinião bem pessoal, isso nos
faz mais humanos. De qualquer forma, lembre-se: nada apaga o que foi feito! Um
pedido de desculpas mostra que você reconheceu que errou, mas não obriga a
outra pessoa a passar uma borracha e simplesmente fazer de conta que nunca foi
ferida.
É por isso que, todo final de ano,
repassam-se todos os bons conselhos, cito: melhore a sua tolerância; aprenda a
ouvir primeiro; pare para pensar e só depois questione; não tome atitudes por
impulso, no calor da emoção, sempre faça uma pausa para respirar antes; olhe
para o lado, se ponha no lugar do outro.
Eu pessoalmente gosto muito de três dos Princípios da Harmonia:
- Você é o responsável pelas suas ações, por isso tome decisões de como
você deve ser e de como você deve agir. Essa é a sua estrada, a sua vida e
ninguém por percorrê-la por você.
- Seja sincero e verdadeiro com você mesmo e com os outros. Seja
verdadeiro em todas as situações. A honestidade é um exercício e deve ser
praticada em todos os momentos da nossa vida.
- Não interessa a sua religião, ou se você tem ou não, ore! A oração é
uma forma de meditação e essa introspecção promove o encontro entre o corpo, o
espirito e a energia universal da vida.
Quando eu faço a tentativa de
analisar a minha estrada, eu penso que gostaria de ter conhecido esses
princípios antes. A caminhada para a aquisição da experiência nos cobra o preço
das nossas atitudes anteriores, e nos obriga a carregar nas costas cada uma das
pedras que, de gosto, resolvemos pôr na mochila.
Tomamos muitas atitudes por acreditar
que a vida era assim mesmo. Quantas vezes eu me pego pensando sobre as atitudes
que eu tomei, imaginando que seria capaz de consertar depois?! Quantas
atitudes, mesmo entendendo que não deveria, que não era o caminho certo, eu
tomei porque era o que tinha para o momento e que seria assim mesmo?!
Também me vejo pensando em quantas vezes eu me escondi atrás das
pequenas mentiras, como forma de acreditar que assim seria mais fácil, mais
barato, que assim caberia uma menor quantidade de explicações. Tudo uma
sucessão de desvios que nunca me levaram a canto nenhum.
Esses anos de pandemia, de reclusão, de perdas, de tragédias pessoais,
como todas as grandes dores, também trazem junto muitos ensinamentos. São
lições de vida que são oferecidas, independente da sua capacidade de absorção.
Sem aqui querer menosprezar a dor de ninguém, eu recebi as minhas duras lições.
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Eu penso que cada um de nós
atravessou o seu deserto. Não foi fácil para ninguém, embora para algumas
pessoas, por conta de uma adaptação mais ágil, pareceu mais fácil. Eu
atravessei o meu deserto, o animal ferido, como diz na música do Roberto Calos,
por instinto decidido, tentando apagar os rastros como forma de fugir de mim
mesmo.
Mas aqui estamos nós, vivenciando a possibilidade de encarar novos
tempos, abrindo a cabeça para caminhos novos e deixando o ano de 2022 para
trás, acreditando que as coisas ruins também ficaram para trás com ele.
Que esse marco convencionado de virada, seja assim para todos aqueles que precisam de uma vida nova. Que os fogos de artificio anunciem um presente mais cheio de humanidade, que as esperanças realmente renasçam e nós possamos brindar em um desejo uno de paz e amor!
Aélio Jalles (Lelo)








