Não existe como falar do nosso grupo de amigos e não falar do restaurante Caravelle. Aconteceu, ele simplesmente passou a ser o ponto de partida e de chegada, a referência de onde tudo sempre começava e terminava.
O restaurante foi o placo das nossas farras,
isso desde crianças. Como eu já disse, a turma começou a se formar por volta do
final dos anos 70. Tomávamos refrigerante com batatas fritas. Só que o tempo
foi passando, nós fomos crescendo e os refrigerantes deram lugar para as
cervejas.
Coincidentemente, os proprietários do
restaurante eram pais de um dos amigos do grupo. E eles, assim como os outros
pais, adotaram esse grupo de amigos. Eles sempre nos receberam de braços
abertos e, da mesma forma, puxaram nossas orelhas por diversas vezes. Éramos
Anjos, mas de fato não éramos santos!
Nos anos da nossa pré-adolescência, tudo
fechava muito cedo, nós íamos para o Caravelle pegar o final de expediente do
restaurante. Algumas vezes ficávamos até mais tarde conversando, brincando. Não
sei nem dizer quantas vezes nós assaltamos a cozinha do restaurante.
Com o tempo, o Caravelle foi ganhando o status
natural de ponto de encontro. Tinham-se alguma coisa para combinar, um programa
ou algum lugar para ir, o ponto de encontro era o restaurante. Era lá o marco
zero de todas as nossas combinações.
Olha só, o lugar estava sempre de portas
abertas. Era extremamente cômodo marcar um encontro lá. Tinha onde ficar, tinha
onde sentar, o que beber e o que comer. Assim, os caminhos começaram a serem
traçados tendo esse como o ponto de partida. Era cômodo demais!
Não existia telefone celular! Tudo tinha que
ser resolvido presencialmente. Então, não tinha como fazer diferente. Para
combinar um passeio, por exemplo, e resolver os detalhes; arrecadar o dinheiro,
as compras, quem ficaria responsável e pelo que, e até ter tudo resolvido eram
uma, duas, e até mais encontros. Era tudo presencial e quem podia comparecia.
A coisa foi ficando tão automática que já nem
precisávamos marcar nada. Bastava ir, as pessoas, nesse caso, os amigos,
certamente estavam por lá. De inicio era o ponto departida, o ponto de encontro
para qualquer passeio, mas acabou que também passou a ser o ponto para onde nós
iriamos retornar.
Tenho certeza de todo mundo já sentiu o
gostinho de quero mais, no retorno de um passeio. De alguma forma, todo mundo
já viveu isso. Quando um passeio é marcante, gostoso, fica aquele desejo de
tomar mais uma cerveja, de fazer um último comentário, sabe-se lá do que!
Fica a ideia de que faltou alguma coisa para
o programa acabar. Pois é, nós resolvemos isso com a história de terminar tudo
lá. Não interessa de onde vinha, ou para onde você ia ao final dos programas.
Era como se não existisse um caminho mais lógico.
Todo mundo ia até o fim do programa e o
programa só terminava no Caravele. Tínhamos que chegar lá para, de lá, poder ir
para casa. Ninguém ficava pelo caminho.
Dessa forma o Caravelle foi incorporado a tudo
e passou a fazer parte do contexto da turma. Mais ainda, passou a ser a
extensão das nossas casas. Era o ponto de referência que todos tínhamos para
fazer qualquer coisa. E isso acabou tendo um efeito maior, isso funcionava como
um imã!
De forma intrigante, o que deveria ser o
ponto de encontro do final de semana, passou a ser a referência do caminho de
casa, mesmo durante a semana. A gente acabava dando uma passada em frente só
para conferir. Parecia que não tinha como voltar para casa, mesmo depois de um
dia de trabalho, sem dar essa gostosa passadinha, sem fazer esse desvio.
Aos poucos a rua Desembargador Praxedes, a
rua do restaurante, se tornou uma rua de passagem quase meio obrigatória.
Parecia que aquele era o único caminho viável para voltar para casa. Pouco
interessava de onde você vinha ou, muito menos, onde a pessoa morava. Passar em
frente ao restaurante foi ficando natural.
Sempre tinham conhecidos por lá, isso era
fato. Dai a questão de parar e descer, mesmo durante a semana, já era uma outra
coisa. Para isso já tínhamos que acrescentar outros detalhes. Era uma questão
de relacionamento, de amizade e carinho.
Um Amigo, um desses Anjinhos, um cara de
jeito simples, mas uma das joias mais polidas dessa turma, alguém que consegue
ver a vida com os olhos do coração, deixou registrada uma pérola de pensamento.
Ele disse: “você quer saber de quem realmente você gosta, de quem realmente
você é amigo? Basta ver se: quando você passa por aqui e vê a pessoa, você tem
vontade de parar e descer!”
E ele tinha razão. A gente só tem vontade de
parar e descer quando o carinho é real, quando a gente realmente gosta da
convivência, gosta da pessoa que está lá. Quantas vezes nós passamos lá em
frente, como acontece ainda nos dias de hoje, e damos uma conferida?!
Aquele não era o caminho mais curto, pode ter
certeza disso. Para muitos do grupo, ele jamais seria o mais cômodo, levando-se
em conta a referência da distância, ou mesmo a viabilidade de endereço entre o
trabalho e a residência.
Mesmo assim, por mais falta de lógica que
isso tivesse, não existia a possibilidade de se evitar aquele caminho. Você não
pode imaginar como tomar aquele caminho tinha uma lógica. Aquele caminho era
gostoso de percorrer, por que era o caminho do coração, o caminho da amizade.
Aquele era o nosso caminho, porque a amizade era
a nossa maior verdade!
Obs: Esse é um
texto extraído do livro Anjos da minha vida, onde eu conto muitas histórias
dessa turma de amigos, a turma dos Anjinhos!
Aélio Jalles (Lelo)
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Que lindeza de texto! Emocionou!
ResponderExcluirQuem tem um amigo nunca está sozinho! Há amizades que se tornam eternas, mesmo que as circunstâncias mudem ou os seus caminhos tomem outro rumo, pois a amizade verdadeira é um elo que nunca se quebra. Lindo texto!
ResponderExcluirPra quem tem amigo de verdade, e pra quem é amante da Boêmia, compreende esse texto da maneira mais espontânea possível. Parabéns pelo texto, amigo Lelo!
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