terça-feira, 28 de março de 2023

“A Intimidade Artificial”


Ponho o título entre aspas para deixar bem claro que estou fazendo uso de algo que não é uma criação minha. Mais ainda, digo que fiz questão de colocar dessa forma por ser um tema recorrente nos eventos que tenho participado.

O mais fascinante é que ele vem sendo abordado desde eventos colegiais aos eventos coorporativos. Definitivamente é uma temática que tem tirado o sono, vamos dizer assim, de todo mundo. Uma discussão que ainda precisa ganhar força.

Recentemente, vi o assunto como pauta de uma reunião na escola da minha filha. Os professores falavam do desafio de controlar o uso das tecnologias. Que essa era uma porta indispensável para as pesquisas e para o acesso à informação, mas que isso permite a fuga da atenção dos alunos.

Eles mostravam o quanto o mundo virtual, e essas relações digitais, eram responsáveis pela desatenção dos alunos para com os objetivos das aulas. A tecnologia não só era uma porta que possibilitava a ruptura do aprendizado, como também introduzia informações distorcidas na sala de aula. 

No mundo coorporativo, assisti a uma palestra que apresentava o excesso de informação e a perfeição da vida emoldurada pelas redes sociais, como um dos maiores motivadores da depressão. Que as pessoas entravam em conflito existencial quando comparavam a perfeição de vida, projetada nas redes, com a realidade de vida delas.

De frente para o espelho, a imagem que era projetada, a realidade de vida daquela pessoa, impunha uma crueldade inaceitável. Um gatilho gigantesco para a crença de um mundo inconcebível e a completa ausência de petencimento. O ponto de partida para toda e qualquer distorção de comportamento que você queira imaginar.

A palestrante conseguiu contextualizar, de forma magnífica, a falta de preparo da humanidade para esse momento. O excesso de informação que chegou como uma onda gigante, e que ninguém sabe exatamente o que fazer com ela. Não estamos preparados para processar tanta informação e de forma tão rápida.

Para fechar, recebi de um amigo um texto falando de uma palestrante norte americana, uma pessoa especializada em relações humanas, que, em um evento de tecnologia, roubou a cena ao falar da “Intimidade Artificial”.

Seu argumento é que estamos vivendo nossas vidas em permanente estado de atenção parcial. Que nós não conseguimos mais nos relacionar de forma autêntica, e que estamos o tempo todo divididos, divagando na realidade das nossas redes sociais. Que esse é o maior motivador da ausência de uma intimidade real.

 

Ela se refere a essa artificialidade da relação quando mostra o quanto o uso das redes sociais, do celular, é capaz de permitir a fuga sempre que uma situação se apresenta inadequada. É como se a pessoa tivesse na mão uma forma de anestesia seletiva que ela pode acionar sempre que se sentir desconfortável.

Reconheço que não sou nenhuma autoridade no assunto, e que minha menção vem do senso comum. Mas como observador, qualquer ser mais analógico é capaz de perceber o desvio de conduta quando, em uma mesma mesa de bar, quatro pessoas se utilizam de mensagem para uma troca de informação.

Chamou-me a atenção quando uma mãe, com uma criança de 10 ou 11 anos, respondia às perguntas do médico, que por acaso consultava a menina, enquanto essa se mantinha ligada ao telefone. Era como se, fora o corpo físico, a filha não estivesse ali e a consulta não fosse com ela.

Não pode passar despercebido o quanto as crianças estão sendo impelidas e se fechar em um aparelho. É como se eles se mantivessem fora da realidade, sem a necessidade de participar das situações. Sem relações diretas, sem cumprimentar as pessoas, sem a necessidade de interagir.

Nesse meu senso, mesmo sem nenhuma especialidade, não consigo ver um mundo feliz sem as relações humanas. Conflitos, articulações, negociações, direitos, limites, cidadania, civilidade, ou simplesmente troca de sorrisos, não se pode pensar um mundo sem essas vivências.

E aí eu vou fechar meu texto com a fala da Dra. Ester Perel: “Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana”.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 23 de março de 2023

O lixo nosso de cada dia!


Dos quatro cantos da Praça João Gentil, a esquina das ruas Waldery Uchoa com Paulino Nogueira se transformou em um deposito de lixo. É como se aquele canto tivesse sido estabelecido como o lixão da praça. É impressionante a facilidade com a qual o lixo aparece nesse canto.

Não faltam dedos para apontar os motivos de como isso tudo começou. Por mais que a prefeitura atue, nesse caso não podemos dizer que ela não faz a sua parte, não se consegue passar um só dia sem que ali seja depositado o lixo dos bares, restaurantes, assim como das casas do entorno da praça, para não ser injusto.

Para quem frequenta a praça há mais tempo, sabe que o problema foi sendo construído no dia a dia, e que é fato que a colaboração dos bares da região foi muito grande.  Todos os dias, os usuários da praça testemunham as garrafas secas, os espetos de madeira utilizados, os resto de comida e outros dejetos característicos dos desses bares.

Isso não isenta os moradores que, como foi dito, são flagrados fazendo o descarte de uma variedade de objetos. É que a comunidade, os moradores das casas da vizinhança, ao invés de combater, corrobora com o acumulo do lixo no canto da praça, mesmo sendo impactada diretamente com o efeito nocivo dessa ação.  

Esse aspecto causado pelo lixo se soma aos bancos quebrados, aos aparelhos da academia da praça cheios de problemas e mais os detalhes da falta de manutenção, para transmitir a ideia de abandono do espaço. Isso para fechar o estigma do “ninguém liga” que cai sobre a nossa praça.

A praça é usada diariamente por uma boa diversidade de público. É um local de atividade física, uma área de laser para as crianças, tem feiras, venda de roupas e um mundo de atividades culturais. Não tenho dúvida em afirmar que é uma das praças mais movimentadas de Fortaleza.

Nós estamos falando de um ambiente que mistura a maturidade dos moradores de um bairro já antigo, de moradores estabelecidos há décadas, com toda a juventude dos estudantes. Sendo esse público jovem, um público que se renova ano a ano, por conta da universidade, do instituto federal e dos centros de cultura.   

Eu sou parte dos que utiliza a praça para atividade física todos os dias e que, por isso mesmo, quero trabalhar na busca de uma boa solução para essa questão. Sou um dos tantos que querem ver a praça bem apresentada.

 

Também sou cliente desses mesmos bares citados e, por isso, levanto a bandeira de que chega a hora de buscar, entre eles, um salvador da pátria. Não seria difícil começar uma mudança, se um desses empresários resolvesse assumir a responsabilidade e adotasse formalmente a Praça João Gentil.  

Tenho certeza de que o ganho de imagem compensaria o investimento. Imagine o quanto esse empresário seria bem-visto. De uma forma bem significativa, a propaganda institucional, nesse caso, poderia oferecer a essa empresa o carinho de muitos moradores e frequentadores, consumidores diretos desses bares e restaurantes.

Digamos que uma atitude como essa seria capaz de capitalizar os méritos para a sua empresa. De uma forma bem lúdica, esse empresário estaria transformando lixo em reconhecimento.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)





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terça-feira, 14 de março de 2023

Um Sonho de Família!


Eu achei emocionante, pela maneira com a qual ela se expressou, quando li o comentário da mãe de uma amiga, sobre o relato do sonho de vida da filha. A mãe ressaltou a beleza desse sonho, com o pedido de licença para se incluir. Era como se existisse a necessidade de pedir licença para poder fazer parte da vida da filha.

Aquela declaração destacou a beleza da projeção de felicidade que a filha tinha descrito. O sonho de uma vidinha simples, em um local aconchegante, sem pompas, com o abastecimento das necessidades materiais mais básicas e um mínimo de conforto necessário.

Só que, no texto, a felicidade vai sendo descrita em uma conjuntura de fatores, que enfatiza o espaço físico como símbolo dessa felicidade. O local acolhedor invoca o romantismo do que é “um amor e uma cabana”, e esse é o ponto do questionamento que acabei fazendo. 

No meu modo de interpretar as palavras da filha, nas entrelinhas, ela ressaltou a ternura do convívio familiar. E o que é mais forte, um convívio que a própria mãe proporcionara durante a vida toda, mesmo sem todo o aparato e as condições necessárias.  

A filha descreveu uma cena em que o café quentinho envolve a casa com o seu cheiro, dizendo que esse odor, por si, era acolhedor. Na minha visão, ela estava simplesmente resgatando uma memória afetiva. O cheiro podia até remeter a uma sensação gostosa, mas acolhedora, na verdade, são as mãos que sempre serviram o café.   

Nunca uma tapioca com manteiga vai ter o gosto descrito pela minha amiga, por mais eloquente que sejam as suas palavras, se a mesa não estiver rodeada de gente, de conversas soltas e muito carinho. Isso sim, na verdade, se traduz em um sentimento de plenitude de vida e de felicidade.

Não quero aqui questionar os sentimentos da minha amiga. Eu sei o quanto ela é emotiva. De coração, eu quero somente chamar a sua atenção para o foco. Esse sonho nunca vai ser encontrado assim, por conta de um cenário, por mais que ele pareça apropriado.

Esse sonho, e eu já tive a oportunidade de dizer a ela, nasce de uma ação acolhedora, da atitude das pessoas que sabem abraçar, muito mais do que um espaço físico possa apresentar.

Enumerando todos os casos em que eu vi pessoas com essa relação de pertencimento, é perceptível que o espaço físico nunca fez diferença. Esse é um ambiente que somente vai se moldando e se caracterizando pela ação de acolhimento.

Ele vai sendo criado pela disponibilidade, pela boa vontade e por um conjunto de fatores que nem sempre dá para explicar. Esse espaço vai se transformando e, de acordo com as necessidades, vai se adequando para que possam caber nele um conjunto de vidas.

Esse é o espaço em que a sensação de aconchego tem um valor imensamente maior que o conforto físico. Nele o vão mais importante é o do abraço. Tal lugar só existe no coração, e é ali que todos querem estar.

Todos nós, eu acredito que sem muitas exceções, gostaríamos de terminar a existência terrena dentro de um desses círculos de amor. Terminar a vida entre as pessoas que se importam e com a segurança do convívio familiar. 

Por isso, sem querer ser grosseiro com a minha amiga, eu digo que o pedido de inclusão, feito pela mãe, nada mais era que um chamado de atenção. Ela estava somente mostrando para a filha que tudo aquilo que estava descrito, ela já tinha nas mãos.

É que o melhor lugar do mundo tem uma ligação direta com o amor, com o calor humano e com a troca de energia das pessoas que se gostam.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 


 

terça-feira, 7 de março de 2023

Dilemas Éticos da Pluralidade Social!


 

O carnaval é sem duvidas a festa da liberdade, a festa da carne, da permissividade. E é por isso mesmo que é nele onde se apresentam, de forma mais clara, toda a nossa pluralidade social. De uma maneira bem ampla, as pessoas se desnudam e expõe as suas maiores intimidades, deixando a mostra toda a sua alma, a essência do seu “EU”.

Também, e exatamente por conta dessa exposição, que uma diversidade de situações, de dilemas sociais, acaba se apresentando, vindo à tona. São manifestações derivadas das novas condições sociais, desse movimento dinâmico de vida que nos obriga a repensar e nos adaptar a essas novas questões comportamentais que emergem.

Vivemos um embate permanente entre a parte mais progressista da sociedade e a parte mais conservadora. Eu diria que, dentro de um todo, as duas partes acabam tendo muito valor. O que seria do desenvolvimento sem a parte mais progressista, e o que seria da história sem a parte mais conservadora.

Nesse processo de desenvolvimento, nem todos os comportamentos são tão fáceis de serem aceitos, de serem compreendidos, ou até mesmo de se moldar à realidade da cultura social que nós vivemos. Sempre vão existir os dilemas práticos que toda mudança comportamental carrega.

A questão do uso do banheiro é um dos exemplos do que é essa discussão. Não dá para se ter uma opinião, ou para se definir uma questão como essa sem muita conversa. Tudo o que for pensado deve levar em conta o RESPEITO, com todas as letras maiúsculas, sobre o direito e o sentimento individual de cada pessoa. Não se pode deixar de levar em conta as implicações sobre a coletividade. 

Uma pessoa, num corpo físico de um homem, que se identifica como mulher, pode usar o banheiro feminino? Uma pessoa, em um corpo físico de mulher, que se identifica como homem, vai usar o banheiro masculino? Como vai se sentir a mulher, com a presença de uma pessoa com o corpo físico de um homem no banheiro? O que pode acontecer com uma pessoa com o corpo físico de mulher em um banheiro masculino?

Pensar, conversar e discutir sobre o assunto, pode propiciar o encontro das melhores possibilidades, o encontro das saídas mais adequadas. E isso é o que cabe para uma série de questões dentro do que é a convivência social.

Não é simplesmente impor o que um ou dois acham, ou o que é a condição mais conveniente para uma meia dúzia. O meu comportamento como ser individual, deve ser respeitado, e eu, da mesma forma, devo respeitar o sentimento e o comportamento das outras pessoas. Ninguém precisa, ou tem o direito de agredir ninguém.

De uma forma qualquer, a diversidade carrega consigo o sentimento de plenitude da vida. Ela funciona como um espelho da alegria, e o “grosso” da sociedade enxerga isso com muita clareza. Na sua grande maioria, a sociedade enxerga esses dilemas e pensa sobre eles, independente de se posicionar mais conservador ou mais progressista.  A sociedade, como um todo, é tolerante, por assim dizer.

Só que, à margem desses dois lados, tem um público que abdica dessa tolerância, um público que não se conforma com o fato dos demais divergirem do seu pensamento, e que faz questão impor a sua verdade. Eles agridem, como se isso fosse capaz de provocar a aceitação.  

A maior parte da sociedade, a parte onde eu mesmo me enxergo incluso, busca o seu espaço, as suas conveniências, mas procura entender e valorizar o espaço dos outros. Mesmo tendo uns mais arraigados com as ideias conservadoras e outros que tem a necessidade de criar, ou, por assim dizer, de abrir os seus espaços, existe uma interseção de pensamento e uma tolerância que possibilita a convivência harmónica.

Os que agridem, os que precisam ferir para defender suas posições, fazem parte do grupo mais tóxico da sociedade, do grupo que faz questão de se pôr à margem, independente do lado da corda em que eles estão. São pessoas que não se abrem para pensar com os demais, não conseguem uma argumentação lógica, e por isso querem forçar o seu raciocínio no grito, na pancada. 

Normalmente, esse é um comportamento que chama muito a atenção. Nós notamos e acabamos dando ênfase a esse tipo de comportamento. Por isso, acabamos por percebê-los com uma conotação de grandeza maior do que deveríamos.

A questão que nós precisamos entender é que dentro do círculo estão a maioria das pessoas. É aqui que está a maior força da sociedade. Nós precisamos olhar melhor uns para os outros, valorizar essa pluralidade, nos dar as mãos para construir uma barreira contra todos esses que buscam se colocar à margem, e que fazem questão de ferir e machucar a sociedade como um todo.

Nunca devemos parar no tempo. Precisamos da dinâmica social, da evolução, mas nunca devemos deixar que a tolerância, que a possibilidade de olhar para o lado, se perca na individualidade, no egoísmo do ser humano.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Meu Acordo com Baco!


 

Os excessos de tudo que representa o Carnaval batem à porta logo depois da festa, como cobrança por tudo aquilo que se fez. Nem é difícil entender isso! Acaba aparecendo um registro aqui, outro ali, dos pequenos deslizes que foram cometidos no decorrer desse período momesco.

Afinal, essa é festa da carne, da alegria, dos deslumbres, dos excessos! A bem da verdade, só quem não se permite contagiar pelo carnaval, é que fica isento desses registros. Bem ou mal, isso é vida. Faz parte! Isso é o que nós deixamos para a nossa história pessoal.   

Eu mesmo nem me considero um folião dos mais aguerridos, muito menos um bebedor inveterado. Nesses dois pontos, bem especificamente, eu me considero um cara extremamente comedido. Gosto da festa, da brincadeira, gosto da bebida, das rodas de amigos, mas de fato, tudo dentro dos limites, sem passar do ponto.

Meu acordo com o Baco, já de muito tempo, foi de que a bebida não poderia passar do ponto, e que eu jamais deveria passar da linha em que se perde o controle. De uma forma qualquer, por esse acordo, eu percebo o momento de parar. Não me permitindo passar daquele ponto em que o álcool assumiria o controle.

E assim eu tenho feito. Nem sei quando foi à última vez que eu passei desse ponto. Sempre venho tendo o cuidado de não me deixar levar pela empolgação e, no momento certo, paro, sem perder a condição da alegria e do bem estar. Eu me vanglorio por conseguir reconhecer o momento certo em que não posso mais ceder aos encantos de continuar na brincadeira. 

Eu reconheço que tem ocasiões em que eu chego a pisar na linha. É que tem situações em que a vontade vai um pouco mais longe. São situações empolgantes, que deixam o sangue mais quente. Mas, o desejo que eu tenho de manter o controle é muito determinado.

Essa determinação vem de muitas histórias de família, das mais diversas situações com os amigos e muitas outras situações vivenciadas pelo descontrole do consumo de álcool. Por isso, mesmo quando pontualmente acontece comigo, eu grito e recorro à água. Tomo muita água. Tanto que acabo, naturalmente, saindo das minhas festas e confraternizações totalmente lúcido. 

Até aqui, eu pensava ter encontrado o acordo perfeito. Só que tem uma pessoa que tem me feito questionar esse acordo tão bem elaborado. Segundo ela, eu deveria parar sempre alguns copos antes. Nessa linha de pensamento, eu tenho que dar uma afinada maior no meu controle, de uma forma que eu não me permita chegar tão perto do limite.

Mas, ainda que essa pessoa me faça pensar sobre os meus motivos, buscando uma reflexão, algo como se beber, para mim, fosse uma obrigação, não me vejo assim dependente. Ela questiona que a bebida não pode funcionar como o gatilho da minha felicidade. Como se eu só pudesse ser feliz assim, de copo na mão.

Lógico que isso abre uma reflexão. Existe uma razão na questão do controle sobre o ato de beber. Mais ainda na questão da necessidade da bebida. Isso torna a situação difícil de explicar. Ora, nem mesmo um alcoólatra inveterado consegue reconhecer seu vício.

Meu dilema é conseguir mostrar que o peso que está sendo colocado é maior do que merece. A bebida é atrativa sim, ela ajuda a liberar as tensões, alivia o peso das obrigações, desafoga os problemas e faz a vida fluir, digamos assim, mais facilmente. Ela dá uma pitada a mais, põe um tempero, oferece um colorido para a vida.

Mesmo sendo Baco o Deus protetor das condutas desviadas, meu acordo com ele não prevê excessos. De uma forma bem clara, eu penso que todo excesso, seja ele na bebida ou na vaidade, tomando somente como um exemplo paralelo, carrega uma dose de compensação, como se isso fosse capaz de suprir alguma falta.  

Eu sei que existem os que não conseguem esse acordo tão preciso com ele. Tem muitos que não podem beber pela falta de controle, por não conseguir identificar um limite seja lá onde for. Tem outros que simplesmente saem do ar com a bebida, desligam o “modo” bom senso e entram em um outro “modo” meio questionável.  

Assim, mesmo respeitando os que podem ter os problemas com a bebida, quero reiterar meu acordo com Baco. Brindar a alegria não pode ser considerado um pecado, e fazê-lo por opção, sem excessos e quando coerentemente pode ser feito, faz parte do lado bom da vida.

Essa é uma questão que faz bem, integra aquilo que é pleno e merecedor da luz divina!

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Saudade do Carnaval!




O carnaval de rua tem seu valor. Não é a ideia questionar essa verdade. Mas neste instante, eu queria rememorar o carnaval dos clubes, o carnaval que se fazia ao redor da pista de dança, onde a cada volta se avizinhava mais uma troca de olhares. Sabe, a brincadeira ganhava empolgação.

O carnaval de clubes era bem menos irreverente do que o carnaval de rua, por conta das regras impostas pelo clube, bem menos inclusivo. Isto é fato. Os ambientes acabavam selecionados pelo preço. Também era um espaço bem menos permissivo, o que é fácil de entender. O ambiente era bem controlado, por assim dizer, mesmo assim era um lugar sugestivo e apropriado à brincadeira.

O fato de estar em um espaço fechado, na contrapartida das exigências, proporcionava uma sensação de segurança. Essa sensação de segurança proporcionava a condição de deixar o contexto mais leve, as pessoas ficavam mais desarmadas, mais soltas, mais acessíveis.

Quer queira ou não, isso propiciava bons encontros. Essa condição abria o espaço para as possibilidades das relações, para que uma aproximação fosse capaz de ser feita sem tanto receio. Um alguém que se aproximava de um outro alguém, não se fazia anônimo jamais.

Os amigos, as companhias, as brincadeiras, o comportamento, o ambiente ajudava muito para que uma pessoa fosse referenciada. Digamos que o mau comportamento, nesse caso, era identificado rapidamente e punido. Se não fosse a identificação da própria pessoa, os amigos se posicionavam rapidamente para tirar a pessoa de uma eventual fogueira.

Essa condição também nos deixava mais a vontade quando a companhia já estava estabelecida. Os casais se faziam mais soltos na sua própria relação. As demonstrações de amor, de afeto, que surgiam dentro da festa, em boa parte eram embaladas pelo cantarolar das letras. Estas davam o ar de romantismo necessário e deixava tudo muito mais gostoso.

Eu pude reviver um pouco de tudo isso, com o carnaval da saudade do Clube do Náutico. Não posso negar que fiquei impressionado com a idade das pessoas presentes. Pelos comentários das festas anteriores, eu já estava esperando encontrar um público de mais idade, mas mesmo assim me surpreendi.

O que eu vi, não foram só pessoas mais velhas brincando carnaval, o que eu vi foi a alegria de muita gente por poder estar brincando o carnaval. Pessoas que com certeza não iriam para as ruas. Essas pessoas, que devem ter aos montes por ai ainda, que não se sentem à vontade para brincar o carnaval de rua.

Eu vi, na expressão de muitos, o valor de se fazer presente ao baile. Não cabe aqui nenhum questionamento da condição financeira, mesmo ciente de que aquela festa, por ser uma festa tradicional e de uma referência social, tem um custo relativo. Aqui, o que chamo a atenção, é o fator condicionante da idade, onde a possibilidade de um ambiente favorável pode permitir a participação de uma grande parcela dessas pessoas.

Muito além do Carnaval da Saudade, eu percebi a saudade do carnaval na alma de muita gente e tudo o que um ambiente agregador, mais seguro, pode proporcionar. .

 

 

Aélio Jalles (Lelo)







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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

A verdade por principio!


 

“Seja verdadeiro consigo mesmo e com os outros. Seja verdadeiro com seus valores em todos os momentos. A honestidade é o maior teste da sua força de vontade e do seu caráter.”

Princípios da Harmonia


Nós nos embolamos em umas situações pela vida e acreditamos que não precisamos mais olhar para elas de frente. Para nos esconder dessas situações, criamos “verdades abstratas”, e, assim, vamos justificando as questões e tocando a vida em frente. Afinal de contas, não é nada demais, é só uma mentira, só mais uma, entres tantas outras mentiras que permeiam a nossa realidade.   

Observando o comportamento das pessoas, até porque é mais fácil enxergar os erros dos outros, percebo o quanto nós nos escondemos atrás das pequenas mentiras. São detalhes, coisinhas pequenas, tudo sem muito peso e que, na verdade, em sua maioria, não fazem mal a ninguém. São mentirinhas que eu vejo, cotidianamente, usadas para evitar explicações.

A questão é que essas mentirinhas vão se tornando um vício tão grande, e são ditas com tanta facilidade, que vão se tornando parte da vida. De repente, as pessoas não sabem mais nem dizer porque não disseram simplesmente a verdade. Virou um vício, uma forma natural de fazer com que as coisas fiquem parecidas com o que você gostaria que fossem. 

Aí fica a pergunta: como construir uma relação de confiança com outra pessoa, se nós acabamos deixando o costume da aplicação dessas mentiras tomarem conta do nosso cotidiano? Uma relação de confiança, confiança real, um sentimento que deixasse fora de questão a dúvida, deve ser transparente e, por isso, verdadeiro o tempo todo.

Porém, ser verdadeiro o tempo todo não diz respeito somente à relação entre as duas pessoas. A pessoa que está ao meu lado deve me perceber verdadeiro, deve enxergar a verdade na essência da minha conduta. A minha capacidade de ser autêntico deve prevalecer em todos os meus momentos, pois sempre que eu utilizar a mentira como subterfugio, isso, de alguma forma, vai ser percebido por ela. . 

De qualquer maneira, todas as religiões pregam essa lei do retorno. Elas teorizam a essência da verdade como algo vital e imperioso para uma vida plena. A conduta ética, tomando como exemplo o que pregam as pessoas que seguem a linha do espiritismo, diz que: “nós devemos reverberar a energia que nós queremos receber”, isso não deixa espaço para os desvios, e a verdade deve prevalecer como uma determinação.

Como eu quero para mim uma vida lícita, como eu quero para mim uma energia positiva, se eu me escondo constantemente da verdade?

A questão é que essas mentiras ganham vulto. Algumas mentiras das quais nos apropriamos, nos obrigam a cometer outros erros, a tomar atitudes que não gostaríamos. Uma mentira puxa outra. Uma mentira puxa mais uma atitude ilícita, e isso acaba criando uma cadeia de atos indevidos, e tendo um custo caro.

Qual seria realmente o preço de eu ter assumido naturalmente a verdade? Hoje, na minha própria retrospectiva de vida, penso que, na grande maioria das vezes, sairia mais barato assumir simplesmente a verdade. Seria muito mais apropriado e muito mais leve.

Cada mentira descoberta, mentiras têm pernas curtas, é como se a pessoa ganhasse um cartão de descredito, um carimbo de desonesto, que vai manchando a reputação. Um dia, e por vezes nos momentos mais delicados, você vai ser cobrado em público, e esse cartão de descredito vai ser apresentado.

E quando nós falamos dos grandes dilemas, esses é que são pesados. Mas nós nos acostumamos tanto com as pequenas mentiras que as grandes vão acontecendo pelo processo. O engano é acreditar que é mais fácil se esconder atrás da mentira, que é mais fácil lidar com os efeitos colaterais dela, do que simplesmente encarar a verdade de frente.

De uma forma bem generalizada, todos nós acabamos achando injusta quando a cobrança nos é apresentada. É que nós nos esquecemos dos nossos delitos com uma imensa facilidade, e esses detalhes da vida, que lá atrás nos achamos sem muita importância, vem à tona e por vezes da forma mais inapropriada do mundo.

E como fazer para mudar isso? Como fazer para mudar de atitude? Como fazer para passar a usar a verdade por princípio? 

Esse é um grande dilema. Esse é um dilema que só os seres mais iluminados podem nos responder. Quando eu estou escrevendo, quando eu estou criando uma reflexão como essa, acabo criando uma referência de pensamento para mim mesmo. Nesse caso, acabo tornando público, expondo, meus dilemas angustias e pensamentos. 

Mas eu penso que; se não bastasse a lei do retorno, estampada na descrição de conduta ética de todas as seitas e religiões, eu diria que a verdade, por mais dura que seja, pode até doer, magoar, ferir, mas essa é uma ferida que tem cura. Ela pode até demorar, mas ela sara! Já a mentira é uma ferida cancerosa, que infecciona e não tem cura. A mentira é uma ferida que reabre de tempos em tempos, que estoura e que é cobrada por toda uma eternidade.

 

Aélio Jalles (Lelo)


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O Tamanho do Coração!


 

Há poucos dias, um dos amigos da praça, um desses que há muito tempo não aparecia, parou o carro na calçada da praça e me mostrou, segundo ele, um presente que a vida tinha o oferecido. Duas meninas lindas, com um sorriso estonteante estampado no rosto. Mais brilhante ainda estava o sorriso do pai, refletindo o tamanho da felicidade com a qual eles, o casal, tinham recebido aquele presente. 

Não tive como conter a admiração pela atitude deles. Que decisão linda a desse casal. Embora eu possa imaginar que a vontade do casal tenha sido influenciada por uma vontade de complementar a família, não tem como oferecer uma medida ao tamanho, nem a beleza desse passo. Um passo que requer uma imensa responsabilidade.

Não deixo de me comover quando vejo alguém remodelar a sua vida para oferecer os cuidados necessários à vida de outro alguém. Mesmo entendendo que essa é uma troca, que quem se doa sempre tem seus benefícios, ainda entendo como sendo essa uma decisão muito forte, pela mudança de vida que ela propõe e, como eu mencionei, a imensa responsabilidade que ela carrega.

Eu vejo uma medida que ultrapassa até a lógica, quando vejo uma atitude de doação de vida como essa, onde as pessoas, ou um casal, remodelam o seu cotidiano para dar conta dos cuidados de uma terceira. Nesse caso até mais. Sei que isso não é abrir mão da vida, mas é necessária uma mudança de perspectiva, de objetivos, de foco, para se tomar essa atitude com a responsabilidade adequada.

Nessa medida, eu queria deixar registrado o tamanho da minha admiração pelo casal. Que vida possa oferecer-lhes o necessário para que o passo dado seja recheado com toda a sorte de bons resultados. Também gostaria de tornar publico toda a minha admiração por outro casal. Nesse caso vou até me desculpar com a esposa, mas vou me dirigir mais especificamente a ele, ao pai, por conhecê-lo tão de perto e entender o amor que ele emprega na criação desses filhos.

Sem uma medida, sem ter como entender o tamanho desse coração, eu vi a adoção de uma criança ser feita, simplesmente por que ele enxergou aquela criança como sua, não importando a origem, ou as condições de sobrevivência daquela criança. Ele a adotou e resolveu lutar por ela.

Já não era o primeiro filho, ele já tinha uma família completa. Na minha visão, não existia qualquer outra necessidade para essa adoção. Mas ele viu naquela, uma criança com a necessidade de vida que ele poderia lhe proporcionar, e puxou a responsabilidade.

Sei que não são muitos os indivíduos que circulam na terra com um coração desse tamanho, mas o fato é que com esse exemplo, eu acredito mais ainda que entre nós existem pessoas com o coração cheios de amor para dar e para oferecer vida a quem tem necessidade.

Toda vez que vejo isso acontecer, me sinto contagiado a ser melhor, a fazer o bem, a acreditar no bem que o ser humano é capaz de fazer e principalmente, que existem muito mais pessoas dispostas e prontas para tomar boas atitudes, do que pessoas ruins, no mundo.

Toda vez que enxergo atitudes assim, passo a acreditar mais na humanidade e na sua capacidade de fazer coisas boas, de tomar atitudes em prol da vida, pessoas permanecem muito mais na sintonia do amor.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

O outro lado da questão!


Um amigo diz que nós vamos para a praça para conversar, mas como precisamos dar uma boa desculpa, a gente acaba caminhando para cuidar da saúde.  O bom é que nos contextos das nossas caminhadas matinais, nossas conversas acabam fazendo brotar verdadeiras pérolas sobre a filosofia da vida.

Quer queira ou não, o conhecimento acumulado pela idade, pela vivência, ganha forma nos comentários, muitas vezes despretensiosos, mas aplicados por uma visão de mundo muito abrangente. São análises dos fatos que cada um apresenta dentro da linha que lhe é própria, e esses ocorridos da vida vão ganhando versões belíssimas.

Em uma dessas, uma das nossas amigas, expôs um fato. Ela expôs um ocorrido bem pessoal, uma experiência de vida, que ela dividiu com o grupo e provocou uma avalanche de análises, críticas e diagnósticos. Compreensões com uma diversidade de visões e uma riqueza de valores que faço questão de dividir aqui com todos.  

Ela contou que um belo dia o marido ligou, já tarde da noite, pedindo que ela fosse buscá-lo em um bar. Ele estava sem condições de dirigir, tinha passado da conta na bebida, e estava recorrendo à esposa para socorrê-lo. Algo que a princípio poderia ser fácil de entender.

De imediato, as outras mulheres do grupo já deixaram de pronto a sua reprovação. Cito: “eu jamais me prestaria a um papel desses”. Buscar o marido em um bar, de cara, era uma atitude reprovada pela maioria das mulheres. Mais ainda quando ela descreveu o bar. O bar, digamos assim, não era um dos ambientes mais recomendados para a frequência de uma moça de família.

A esposa em questão, ainda deu mais amplitude ao caso quando fez referência às companhias com as quais ele se encontrava. Um amigo, ainda mais bêbado que o marido, que ela teve que deixar em casa, e as moças. Bom, as moças estavam trabalhando e ela ainda teve que pagar o cachê das acompanhantes.

Aquilo subiu para a cabeça de quase todas as mulheres. As criticas mais diretas eram ricas em detalhes e a quantidade de desfechos mencionados, do que fazer com o dito cujo, daria quase um livro. Algumas menções tinham requintes de maldade. Dava até para ficar chocado com a crueldade de algumas.

Por sorte quase todas. Digo quase todas porque uma delas enxergou a coisa por um ângulo diferente. Ainda bem que essa visão veio de uma mulher. Sei que não teria valor se tivesse vindo de um homem. Ela disse: “é muita confiança do seu marido em você. Ligar pedindo para você ir buscá-lo em um ambiente desses. Ele precisa ter certeza de que você também confia muito nele”.    

Eu pessoalmente adorei a quebra de paradigma daquela mulher. Adorei ver a experiência de vida dela, falando alto e apresentando aquela outra forma de ver o fato. Ela, a expectativa dela em relação ao marido e as nuances do seu próprio relacionamento foram jogadas na maneira que ela viu o acontecimento, que a amiga vivenciou.

Na verdade, eu percebi que os homens do grupo se abstiveram de dar opinião. A situação era tão delicada diante do universo masculino, que, na hora, realmente o melhor era ficar calado. Nós, da mesma forma que a maioria das mulheres, também julgamos o fato pelo prisma machista.  

Só que daquele momento em diante a discussão ganhou novos ares. Essa questão de confiança, de interação de um relacionamento e de tudo o que esse relacionamento é capaz de construir, pode fazer a diferença em tudo o que acontece dentro dele. Inclusive na forma que o próprio grupo passou a ver o casal.   

Ela, a esposa, carinhosamente acabou oferecendo uma grande lição de moral. Ela deixou claro que conhecia o marido e que acreditava nele. Ela disse que todos os anos de convivência e todas as dificuldades vividas, consolidou neles uma confiança mútua grande. Não que tenha sido um caminho só de flores, mas que, em toda essa caminhada, a certeza no carinho e no amor, de um com outro, tinha sido a fortaleza do casal.

Isso nos faz pensar que; em primeiro lugar, toda situação pode ser interpretada de vários ângulos. Que se faz necessário pensar e ouvir a opinião das outras pessoas para que se possa tirar uma conclusão adequada. Em segundo lugar, que todos nós colhemos muito do que plantamos, por isso mesmo devemos escolher com cuidado o que estamos fazendo com o nosso jardim.

 

Aélio Jalles (Lelo)



 

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