quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Aos amigos, prefiro deixar a saudade!

 



Morrer de velhice é algo cheio de significado. Nem entendo o porquê de uma pessoa ter que viver tanto. A gente vai literalmente ficando para trás, se despedindo dos amigos, vendo partir, um a um. O que fica é somente uma saudade apertando no peito, sem saber direito o que fazer com ela.  

As pessoas mais novas nem gostam do que os velhos falam. É como se toda a experiência de vida não servisse para mais nada. Esses amigos eram os que gostavam da nossa conversa, de passar o tempo junto, e que, por isso mesmo, preenchiam a vida de alegria. Parece mesmo maldade do destino, a gente ir ficando sem eles.

Vivenciando a minha mãe, no passo dos seus oitenta e poucos anos, eu vejo o quanto ela se recente da dificuldade de locomoção. Ela sabe que as habilidades que tinha se esvaíram, e que ela tem a necessidade de contar muito mais com a paciência e a colaboração dos outros. É fácil entender porque ela acaba tendo a impressão de ser um peso.

Ela não se cansa de agradecer os meus cuidados, a minha boa vontade. Sou eu quem está ao lado dela, quem dá atenção e quem ainda supre o básico de suas necessidades. Ela diz que eu faço isso somente por obrigação e que, mesmo sabendo disso, ela ainda continua a me cobrar por mais. Para ela, é como se eu estivesse retribuindo uma dívida de vida.

Eu percebi que quando a idade vai pesando, quando as cobranças do corpo ultrapassam as nossas vontades, meio que sem querer, começamos a observar mais os mais velhos que nós. Quase que naturalmente passamos a dedicar mais atenção a eles. É como se eclodisse na cabeça a menção de que eu também estou ficando assim. No meu caso, já estou passando pelos cinquenta anos

Na verdade, a ficha vai caindo aos poucos. Vendo as descrenças da minha mãe, e toda a sorte de reclamações, vou me dando conta que esse é o meu próprio destino. Por isso é que, mesmo me considerando muito mais disponível do que a tempos atrás, eu reconheço que deveria oferecer ainda mais.

Embora ela não perceba isso, sinto-me privilegiado pela condição de viver a velhice da minha mãe de forma tão presente. Suprir as restrições que a vida vem lhe impondo, de certa forma, é poder retribuir o amor que me foi dado quando eu era muito mais dependente do que ela é hoje. Isso não tem exatamente o peso de um pagamento.

Tudo isso é extremamente gratificante, deixa a alma mais leve. Ter essa chance foi uma sorte. Essa oportunidade tem me feito dar mais valor à vida, respeitar mais as pessoas e ampliar o sentimento sobre a família e os amigos.

A questão é que, embora seja gratificante para mim, para ela nunca vai ser! O sentimento de fragilidade, de impotência diante da vida e, principalmente, a consciência da decadência física e mental, provoca um grande desconforto. Eu sei que não consigo escutar dela tudo o que deveria. Dá impaciência vê-la repetindo tanto e tantas vezes as mesmas coisas, os mesmos fatos e o pior, as mesmas lamúrias.

Eu sei que, por mais que eu me esforce, não tenho como dar a ela a atenção que ela tem por necessidade. Eu entendo que, no caso dela, a solidão passa a ter um peso e um significado ainda maior. Não é difícil entender que quase tudo que acontece, qualquer distanciamento que seja sentido por parte dela, para ela representa o abandono.

Na adolescência, eu e meus amigos falávamos em aposentadoria como uma forma de ter tempo para viver, viajar, ou, quando muito, dar atenção aos netos. Eu venho descobrindo que deveríamos nos aposentar para cuidar dos nossos pais, para lhes oferecer a atenção que os amigos deles, mesmo os que ainda estão vivos, já não podem mais lhe dar. Esses já estão tão dependentes quanto eles e, com todos, os mesmos sentimentos de abandono.  

Pensando em tudo isso é que eu digo: não quero morrer de velho! Não quero ser eu quem vai apagar as luzes. De coração, não quero chorar a partida dos amigos, a partida dessas pessoas tão queridas. Prefiro mesmo, de uma forma bem egoísta, deixar com eles a saudade de tudo o que vivemos juntos.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)


6 comentários:

  1. É um casa a se pensar.......

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  2. A morte é um fato iminente para todos nós. A perda de um amigo querido ou um parente, trás a certeza de que nada é eterno, e que devemos aproveitar com sabedoria e intensamente todos os momentos de nossa vida, com os amigos e a família. Morrer de velhice é ter a certeza de que tivemos muito tempo para desfrutarmos das boas companhias, lugares, situações, pessoas, momentos...e ter a oportunidade de agradecer tudo o que nos foi dado para escrevermos a nossa história.

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  3. Os amigos que conhecemos no decorrer da vida são umas bênçãos. Há amigos que consideramos mais que um irmão.A saudade sempre vai fazer presente nas nossos vidas.

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  4. Penso assim como você.

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