domingo, 14 de agosto de 2022

O filho que me fez pai!


 

Há 32 anos, nesse mesmo dia 14 de agosto, nascia meu primeiro filho. Não tem como definir um sentimento tão exuberante, talvez a maior sensação de grandeza, mas que sai desse sentimento ao desespero de não saber o que fazer. Do sentir-se poderosamente responsável à inquietante sensação de impotência; é tudo no mesmo instante. Acho que naquele mesmo instante nascia também um pai!

Entre soluços e reflexões, imaginei tudo o que eu faria a partir daquele instante, tudo o que eu gostaria de viver com aquela criança e, principalmente, relacionei erros que eu supostamente não cometeria, jamais! Passei o dia inteiro vivendo essas elucubrações, sem uma noção real de tudo o que eu ainda viveria e passaria com ele.

Era meu filho! Eu agora era pai! Sem muito entender os porquês, saí mensurando toda a minha criação e relacionando todas as considerações que eu faria ao meu pai. Era como se eu quisesse dar-lhe lições, mostrar para ele, meu pai, que eu saberia ser melhor, muito melhor do que ele, muito mais competente.

A questão é que no filme da vida não existe ensaio, o script vem em branco e você vai escrevendo ali, de pronto, às vezes sem conseguir pensar muito, e o pior, na vida não dá pra repassar a cena e corrigir as cabeçadas que vamos dando. Sim, indiscutivelmente os erros e acertos vão sucedendo e, como essa é uma estrada sem volta, o máximo que podemos ter é a possibilidade de refazer um ou outro ponto, sem que isso apague os danos do que foi feito antes.

Dessa caminhada, não deixo de anotar meus acertos, ou o que eu assim posso considerar. Também não é difícil perceber os inúmeros erros que cometi, por mais boa-vontade que possa ter empregado. Às vezes me pego tentando dar desculpas por ter tomado decisões que hoje vejo como equivocadas e ter desviado meu caminho, deixando de oferecer mais de mim, de estar mais presente na vida dos meus filhos.

Hoje, diante do espelho, retratando toda essa minha carreira de pai, com a realidade e a bagagem de quem teve a vida não só de um, mas de cinco filhos nas mãos, reconheço que existe uma distância bem grande entre tudo o que eu tinha pensado em fazer e a verdade de tudo o que fiz.

Eu queria ter feito melhor, é claro. Hoje sei que de qualquer forma toda criação tem sua dose de aleatoriedade e tantos outros fatores que influenciam nesse resultado final. Por sorte existe uma mãe nessa história e no caso deles, os meus filhos, uma grande mãe!

Olho para esse mesmo filho hoje, esse mesmo que me fez pai, com orgulho. Ele conseguiu, e esse “conseguiu”, de uma forma qualquer “independeu” de mim. Tenho o orgulho de acreditar que o resultado final vai ser bom, que de alguma forma eu contribuí e que a estrada dele vem tomando o rumo necessário para que ele possa ser feliz.

Se isso não alivia minha culpa, ou retira dos meus ombros o peso dos meus erros, abre pelo menos a oportunidade de abraçá-lo mais uma vez, abre a oportunidade de que eu possa tentar ser e fazer algo a mais.

Hoje, com a data maximizada pela coincidência da data comemorativa do dia dos pais, gostaria muito de abraçá-lo, a ele e aos outros, e sem mais palavras comemorar. Eu estou completando 32 anos de pai e ele 32 anos de vida!

 

Aélio Jalles

 


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