Eu nem sempre tive uma opinião muito bem definida sobre a minha vó
Carmelita, a não ser que ela era uma mulher forte. Forte no sentido de
conseguir se impor, se posicionar. Uma matriarca no melhor sentido da palavra:
uma mulher capaz de manter a família unida, sem permitir que as arestas, os
perrengues familiares, tomassem uma proporção indevida.
Não dá para dissociar a condição de família que nós vivíamos, no período da
minha infância, desse comando que ela sabiamente exercia. Com muito jeito, por
conta do patriarcado familiar preponderante, era fácil sentir que o comando era
dela. Era por esse comando que, em qualquer que fosse a data e muitas vezes no
ano, todos nós estávamos reunidos em um convívio muito próximo. Estávamos
juntos em uma situação que hoje é quase utópica.
Imaginem 26 pessoas, provenientes de 05 famílias diferentes, entre eles o casal
patriarca, os filhos com os respectivos cônjuges, genros e noras com seus
jeitos e manias e mais uma penca de netos. Adultos e crianças convivendo,
parcialmente em harmonia, em uma casa simples, sem luxo, em um espaço reduzido.
Juntar todos no mesmo espaço era o desafio. Éramos pessoas vindas de realidades
distintas. Mesmo assim o Rancho da Vovó era o céu da família. Isso era o que
acontecia nos feriados, dias das mães, dia dos pais, dia das crianças, e toda
sorte de finais de semana.
Eu pessoalmente sempre gostei e muito desse convívio. Muita gente num bolo só.
Um grupo que, mesmo com suas limitações, suas distinções e hipocrisias veladas,
se davam ao deleite de uma convivência relativamente harmônica. Lá, se moldava
um sentimento de responsabilidade mútua, de muita colaboração, onde um
importava ao outro de fato. O todo, do sentimento que emanava dessa relação,
acabava por ser muito positivo.
Hoje, diante dos meus primos, percebo que guardamos muito dessa semente. Essa
semente plantada nos manteve juntos. Nós, os irmãos e primos, que vivenciamos
isso, criamos uma ligação ímpar, somos amigos e companheiros de vida. Fazemos
parte da vida um do outro. Não tenho como deixar de creditar isso ao que foi
plantado e regado em cada um desses momentos que tivemos oportunidade de viver.
Esses momentos que foram vividos sob o comando e guarda da vovó Carmelita.
Queria muito ter a força da minha vó, ter a competência para não deixar morrer
essa semente. Adoraria fazer com que essa cadeia de relacionamento, chegasse
aos meus filhos. Essa relação é hoje sedimentada no contexto da AFA, nossa
associação de família. No entanto, assumindo minha parcela de culpa, sem a tia
Carmem no comando efetivo, sucessora mais direta da vovó Carmelita e o elo
forte, perdemos essa energia e força para manter todo mundo junto.
Minha vó, de onde você esteja, abençoe os poucos que ainda estão com a
determinação de levar em frente essa corrente familiar. Que a senhora ilumine
os demais, para que o espírito de união ajude, promovendo a boa vontade, para
que possamos ampliar o convívio e a amizade. Isso, para dar continuidade a esse
elo de família tão distinto, diante do mundo que temos hoje, mesmo sem o nosso
elo mais forte!.
Aélio Jalles

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