segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Tem um Caravelle no caminho de casa!







Não existe como falar do nosso grupo de amigos e não falar do restaurante Caravelle. Aconteceu, ele simplesmente passou a ser o ponto de partida e de chegada, a referência de onde tudo sempre começava e terminava.

O restaurante foi o placo das nossas farras, isso desde crianças. Como eu já disse, a turma começou a se formar por volta do final dos anos 70. Tomávamos refrigerante com batatas fritas. Só que o tempo foi passando, nós fomos crescendo e os refrigerantes deram lugar para as cervejas.

Coincidentemente, os proprietários do restaurante eram pais de um dos amigos do grupo. E eles, assim como os outros pais, adotaram esse grupo de amigos. Eles sempre nos receberam de braços abertos e, da mesma forma, puxaram nossas orelhas por diversas vezes. Éramos Anjos, mas de fato não éramos santos!

Nos anos da nossa pré-adolescência, tudo fechava muito cedo, nós íamos para o Caravelle pegar o final de expediente do restaurante. Algumas vezes ficávamos até mais tarde conversando, brincando. Não sei nem dizer quantas vezes nós assaltamos a cozinha do restaurante.

Com o tempo, o Caravelle foi ganhando o status natural de ponto de encontro. Tinham-se alguma coisa para combinar, um programa ou algum lugar para ir, o ponto de encontro era o restaurante. Era lá o marco zero de todas as nossas combinações.

Olha só, o lugar estava sempre de portas abertas. Era extremamente cômodo marcar um encontro lá. Tinha onde ficar, tinha onde sentar, o que beber e o que comer. Assim, os caminhos começaram a serem traçados tendo esse como o ponto de partida. Era cômodo demais!

Não existia telefone celular! Tudo tinha que ser resolvido presencialmente. Então, não tinha como fazer diferente. Para combinar um passeio, por exemplo, e resolver os detalhes; arrecadar o dinheiro, as compras, quem ficaria responsável e pelo que, e até ter tudo resolvido eram uma, duas, e até mais encontros. Era tudo presencial e quem podia comparecia.

A coisa foi ficando tão automática que já nem precisávamos marcar nada. Bastava ir, as pessoas, nesse caso, os amigos, certamente estavam por lá. De inicio era o ponto departida, o ponto de encontro para qualquer passeio, mas acabou que também passou a ser o ponto para onde nós iriamos retornar. 

Tenho certeza de todo mundo já sentiu o gostinho de quero mais, no retorno de um passeio. De alguma forma, todo mundo já viveu isso. Quando um passeio é marcante, gostoso, fica aquele desejo de tomar mais uma cerveja, de fazer um último comentário, sabe-se lá do que!

Fica a ideia de que faltou alguma coisa para o programa acabar. Pois é, nós resolvemos isso com a história de terminar tudo lá. Não interessa de onde vinha, ou para onde você ia ao final dos programas. Era como se não existisse um caminho mais lógico.

Todo mundo ia até o fim do programa e o programa só terminava no Caravele.  Tínhamos que chegar lá para, de lá, poder ir para casa. Ninguém ficava pelo caminho.

Dessa forma o Caravelle foi incorporado a tudo e passou a fazer parte do contexto da turma. Mais ainda, passou a ser a extensão das nossas casas. Era o ponto de referência que todos tínhamos para fazer qualquer coisa. E isso acabou tendo um efeito maior, isso funcionava como um imã!

De forma intrigante, o que deveria ser o ponto de encontro do final de semana, passou a ser a referência do caminho de casa, mesmo durante a semana. A gente acabava dando uma passada em frente só para conferir. Parecia que não tinha como voltar para casa, mesmo depois de um dia de trabalho, sem dar essa gostosa passadinha, sem fazer esse desvio.   

Aos poucos a rua Desembargador Praxedes, a rua do restaurante, se tornou uma rua de passagem quase meio obrigatória. Parecia que aquele era o único caminho viável para voltar para casa. Pouco interessava de onde você vinha ou, muito menos, onde a pessoa morava. Passar em frente ao restaurante foi ficando natural.  

Sempre tinham conhecidos por lá, isso era fato. Dai a questão de parar e descer, mesmo durante a semana, já era uma outra coisa. Para isso já tínhamos que acrescentar outros detalhes. Era uma questão de relacionamento, de amizade e carinho.

Um Amigo, um desses Anjinhos, um cara de jeito simples, mas uma das joias mais polidas dessa turma, alguém que consegue ver a vida com os olhos do coração, deixou registrada uma pérola de pensamento. Ele disse: “você quer saber de quem realmente você gosta, de quem realmente você é amigo? Basta ver se: quando você passa por aqui e vê a pessoa, você tem vontade de parar e descer!”

E ele tinha razão. A gente só tem vontade de parar e descer quando o carinho é real, quando a gente realmente gosta da convivência, gosta da pessoa que está lá. Quantas vezes nós passamos lá em frente, como acontece ainda nos dias de hoje, e damos uma conferida?!

Aquele não era o caminho mais curto, pode ter certeza disso. Para muitos do grupo, ele jamais seria o mais cômodo, levando-se em conta a referência da distância, ou mesmo a viabilidade de endereço entre o trabalho e a residência.

Mesmo assim, por mais falta de lógica que isso tivesse, não existia a possibilidade de se evitar aquele caminho. Você não pode imaginar como tomar aquele caminho tinha uma lógica. Aquele caminho era gostoso de percorrer, por que era o caminho do coração, o caminho da amizade.

Aquele era o nosso caminho, porque a amizade era a nossa maior verdade!

 

 

 

Obs: Esse é um texto extraído do livro Anjos da minha vida, onde eu conto muitas histórias dessa turma de amigos, a turma dos Anjinhos!

 

 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 

 

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3 comentários:

  1. Que lindeza de texto! Emocionou!

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  2. Quem tem um amigo nunca está sozinho! Há amizades que se tornam eternas, mesmo que as circunstâncias mudem ou os seus caminhos tomem outro rumo, pois a amizade verdadeira é um elo que nunca se quebra. Lindo texto!

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  3. Pra quem tem amigo de verdade, e pra quem é amante da Boêmia, compreende esse texto da maneira mais espontânea possível. Parabéns pelo texto, amigo Lelo!

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