Eli passou pela centésima vez diante do
espelho. Ela conferiu mais uma vez a barra da calça, o formato que a blusa
estava dando aos seus seios, a maquiagem, se os cachos do cabelo estavam do
jeito que ela queria. Era tudo mera formalidade, mas mesmo assim ela não
conseguia se convencer. Tinha sempre uma sensação de que ainda faltava alguma
coisa no ar.
Aquilo não era insegurança. Não mesmo. Eli
sempre reclamava de alguma coisa, mas eu acho que era só para que alguém lhe
reafirmasse o tamanho da beleza que ela esbanjava. Ela gostava da imagem que o
espelho lhe apresentava, embora sempre tivesse um detalhezinho que ela quisesse
corrigir. Mas isso é coisa de mulher mesmo, né?
Quando o Luide chegou, ela deu aquela
respirada, se concentrou e correu para a porta, foi recebê-lo. Eles se
entreolharam, sorriram um para o outro, como se não acreditassem que aquele
sentimento tinha tomado conta deles, e deram aquele selinho bem básico.
A área lateral da casa de Eli era o espaço de
junção das casas da família. A casa dos avós que os filhos vão ocupando. Eles
constroem as casas e o que fica no meio delas acaba se tornando o espaço comum
para toda a família. Eli morava no que se pode chamar de condomínio familiar. O
que sobrou do terreno entre as casa acabou se tornando ideal para os festejos
e, porque não, para namorar também.
O casalzinho estava bem empolgado com o andar
do relacionamento. Eles conversavam, conseguiam se entender e vinham até então
tendo boas negociações com as divergências de pensamento. Eles conversavam
sobre uma diversidade de coisas, e sexo já não era um tabu entre eles.
Embora as situações ainda fossem muito novas,
o volume que se formava nas calças do Luide, digamos que, a cada beijo mais
chegado, já não era nenhuma supressa para a moça. Ela também sentia os efeitos
dos hormônios borbulhando no seu corpo e, para não deixar o rapaz embaraçado
demais, fazia questão de corresponder ao desejo dele.
Lógico que, com o passar do tempo, a
intimidade vai crescendo e a confiança mútua no relacionamento também. Isso, da
forma mais natural possível, faz com que eles se sintam à vontade, e comecem a
vencer as barreiras naturais que a sociedade impõe para a sexualidade das
pessoas, muitas vezes sem muita explicação.
Eli era uma menina de boa formação. Seus pais
eram muito ligados a sua educação e eles entendiam cada passo do
desenvolvimento da sexualidade da filha. Eles estavam sempre buscando
orientá-la da maneira mais transparente possível. Os pais de Eli ainda se
consideravam apaixonados, e, por isso mesmo, conseguiam passar para ela essas
questões de uma forma muito bonita.
Mesmo assim, e como um casal responsável, os
pais de Eli tinham toda a atenção e preocupação com a filha. Eles não queriam
que ela passasse da conta, ou que ela avançasse nenhuma das etapas da vida de
uma forma indevida.
Luide também não era um menino à toa. Mesmo
assim, ele sofria as questões da sexualidade que são impostas aos homens pela
sociedade, pelos amigos, pela família e por que não dizer, pelos próprios pais.
Os homens acabam tendo a sexualidade tratada na base da porrada mesmo. É como
se, por ser homem, você já nascesse sabendo o que fazer e como fazer.
De uma forma qualquer, o Luide, fugindo de
todo esse prognóstico, tinha uma visão romantizada da sexualidade. Ele tinha um
respeito muito grande pela Eli. Ele desejava, curtia os momentos ao lado dela,
deixava fluir a energia natural da idade. Só que ele se preocupava com a
situação. Ele mesmo não se permitia qualquer conduta indevida.
Sexo, entre eles dois, mesmo sendo um casal
ainda muito jovem, era um assunto já facilmente debatido, e tudo o que vinha
acontecendo, apesar das empolgações, passava pelo acordo do que deveria ou não
acontecer entre eles. Não acontecia nada sem uma espécie de consciência prévia
que eles dois iam formando.
Naquele dia, a empolgação do casal deu um
pouco mais de “pilha” ao desejo. Eles já tinham conversado bastante, inclusive
sobre uma situação indelicada que aconteceu com outro casal, um casal de
amigos. Como entre eles o respeito era um sentimento muito latente, eles se
permitiram mais. Acho que isso faz parte, e que é o andamento natural de todo
relacionamento.
Atentos a tudo, os pais de Eli se
apresentaram. De uma forma muito descente, eles se fizeram notar com
antecedência, na tentativa de evitar o constrangimento do casalzinho. Era difícil, o constrangimento deles foi
muito direto e, embora não tenham sido pegos, por assim dizer, com as calças na
mão, a simples presença dos pais já era demais para a situação.
Os pais de Eli foram contornando a situação.
Eles falaram de muitas coisas antes de chagar ao assunto devido, e trataram a
coisa da forma mais natural que se pode imaginar. Como um casal adulto, eles
deram um depoimento de todo o processo de construção da vida a dois. O processo
que eles mesmos tinham vivenciado.
É difícil você se colocar como exemplo. É
difícil você, com a honestidade devida, e sem querer só as glórias por tudo o
que fez ou conquistou, ser capaz de assumir os erros que cometeu. Eu penso que
mostrar o peso dos erros cometidos, e tudo o que se teve a necessidade de fazer
para contornar, é mostrar muito equilíbrio.
Pois esse foi o grande feito dos pais de Eli.
O equilíbrio mostrado por eles fez a diferença. Eli e Luide se olharam no
espelho no dia seguinte sem culpa. Eles não passaram do ponto naquela noite por
pouco, mas no fundo eles sabiam que aquele momento ofereceu para eles muito
mais.
Eli e Luide tiveram nas mãos o apoio, o
carinho, gente que ofereceu a ajuda mais do que necessária para uma boa
formação da história da vida deles. Foi por conta daquela intervenção que eles
se sentiram prontos para ir mais longe.
Aélio Jalles (Lelo)
*Do livro: Era uma vez meu coração..........
Livro:
Era Uma Vez Meu Coração
Capitulo
01: E Ai K dê meu ovo?
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html

São momentos incríveis, capazes de deixar aprendizados para o resto da vida. Mas são, também momentos delicados, em que o jovem intenso, impulsivo e ao mesmo tempo vulnerável diante do que desconhece precisa ser acompanhado de perto. Como o casal do conto que teve o apoio dos pais de Eli, para o despertar da sexualidade. Lindo conto!
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