quinta-feira, 28 de setembro de 2023

A musicalidade do amor vivo


De uma forma qualquer, a música está muito ligada à dor de cotovelo, ao sofrimento da perda, à solidão e coisas do gênero. Como bem disse Vinícius de Moraes: “pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza”.

É a velha “sofrência”, tão bem descrita nos mais diversos estilos de música e, digamos de passagem, com as interpretações mais encantadoras possíveis. É a música ligada ao estado de espírito emocionalmente mais frágil. Talvez exatamente por isso, mais marcante.

De qualquer forma, quero deixar aqui o meu contraponto e ressaltar as músicas que falam do amor vivo. É que o encontro das “almas gêmeas”, essa conexão mágica de relações que a vida pode proporcionar, também tem sua boa representação musical.

Uma sintonia que chega, dentro do que eu mesmo pude perceber, quando o estado de espírito se volta para o outro lado, digamos que, mais positivo. É só uma mudança de chave, é só a apreciação do sentimento em plena vigência da relação, do aqui e agora.

No caso, eu estou só instigando que se possa puxar a sintonia para esse lado, que eu pessoalmente acho, mais bonito. Que se perceba toda a beleza gerada na expectativa cantada pelo Jorge Vercilo, em Monalisa, quando ele diz “E a vida, tão generosa comigo, veio de amigo a amigo, me apresentar a você”.

Dá para imaginar a maturidade de um amor que chega já quando nem se espera mais, quando os sonhos já se desencantaram. Ele foi cantado na voz da Marisa Monte assim “ainda bem, que agora encontrei você, eu realmente não sei, o que eu fiz pra merecer, você”.

Não tem como deixar de enaltecer a incrível descrição da saudade de quem está logo ali, a saudade de quem eu estou prestes a encontrar. Poucas pessoas têm a genialidade do Dominguinhos para dizer “tô com saudades de tu meu desejo, tô com saudades do beijo e do mel, do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu”

Passaria horas descrevendo todas as músicas que falam desse amor em plena vigência, e de todas as formas que ele já foi descrito. Mais ainda, se eu for falar de quanto tempo eu demorei em acordar e perceber essa sintonia tão gostosa.

Um casal cheio de amor é, na minha visão, a melhor representação de toda a musicalidade que a vida pode oferecer. Nesse estágio, quando a paixão transborda pelos poros, é que se irradia a felicidade de se estar junto.

Um faz a vida do outro, sem o menor esforço, cheia de graça. Afinal, o mesmo Vinícius de Moraes, disse que “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como luz no coração”.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Amizade, o ato de respirar juntos


Há muito tempo, por conta de uma brincadeira, nos intitulamos de Anjinhos, assim mesmo no diminutivo. Toda a história teve início a partir de um desenho. Um desenho com cunho, podemos assim dizer, meio pornográfico, coisa bem de adolescente mesmo.

Na verdade, esse desenho virou símbolo da turma e começou a ornamentar os carros e motos desse grupo de amigos. O desenho formatava somente o M de Motel. Era um casal, digamos assim, em um ato de amor.

Digo um ato de amor para não macular a imagem, já que estamos falando do símbolo dos Anjinhos. O desenho foi feito de forma tal que não estampava o ato sexual de forma tão evidente. Ele era sutil, algo que fosse capaz de deixar a imaginação viajar.

O que tínhamos em comum, na verdade o que nos segurou juntos e o que nos tornou anjos da vida uns dos outros, foi o carinho e muita disponibilidade. O carinho que floresceu, sabe-se lá de onde, mas que encontrou um terreno fértil nos nossos corações.

O vínculo de união desse grupo foi sendo naturalmente fortalecido, cada acontecimento ampliava a ideia de que respirar juntos era muito mais gostoso, e isso foi se tornando um hábito.

Não que fôssemos dependentes uns dos outros. Não. Isso tudo era muito mais pela forma que a presença de cada um fazia a diferença na felicidade que nós vivíamos. Posso dizer que estar juntos era inebriante.

Essa ideia, essa interpretação de respirar juntos, vinha de uma proteção que cada um oferecia gratuitamente ao outro. Uma interpretação que foi dada pelo pai de um dos membros da turma. Alguém que tinha muito gosto de ver os filhos dentro dessa turma.

Ele disse de forma bem textual: “o fato de saber que meus filhos estão com esse grupo de amigos, me oferece uma tranquilidade gigantesca. Eu vejo o quanto o grupo se protege e se cobra. Respirando juntos assim, ninguém consegue fazer nenhuma besteira”.

Essa cobrança, na verdade, fazia com que todos caminhassem dentro de algumas regras, as regras que são naturalmente impostas pelo grupo. Acaba que o grupo não permite que ninguém saia da linha. 

Nós éramos de fato um bando de “aborrecentes”. Um bando mesmo, muitas cabeças, muitas criações diferentes, formação de conceitos diferentes, jeito de lidar com as coisas diferente.

Sempre fomos pessoas de paz. Nunca fomos desordeiros demais, pelo menos não no sentido de criar problemas para outras pessoas, ou de encrencar ninguém. Nossas brincadeiras sempre foram do tipo que podemos chamar de “saudáveis”.

Não gostávamos de briga, estávamos sempre promovendo a alegria. Nesse grupo não cabiam as atitudes pesadas que pudessem prejudicar ninguém. Gostávamos mesmo era de estar juntos, de ouvir música, de acompanhar um violão, de pôr a nossa batucada para fazer barulho.

Nós formamos um grupo de amigos do bem, um grupo que nos levava por um caminho de paz, de harmonia, de entrosamento e de cumplicidade. Nós éramos a representação de toda a musicalidade que a vida podia oferecer, e transmitíamos a alegria que a energia de estar juntos nos proporcionava.

Por tudo isso, dá para ressaltar que nós vivemos os nossos momentos, criamos lembranças que, eu tenho certeza, hoje fazem parte da vida de cada um dos que tiveram a felicidade de usufruir da companhia, do carinho e da amizade desse grupo de amigos.

A vida nos ofereceu um momento ímpar, que nem dá para entender de onde ou porque surgiu. Só sei que foi assim, respirando juntos que nos tornamos anjos da vida uns dos outros.

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

Extraído do livro: Anjos daminha vida

 


 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Sob a ótica do Filho


O pai do Luide, apesar dos conceitos patriarcalistas, era um cara de uma cultura interessante, uma pessoa que sabia pensar. Isso pode até não se sobrepor ao machismo exacerbado, mas é um fato capaz de amenizar os efeitos dessas características vindas de uma educação dessas ditas “moralistas”.     

Ponho “moralista” assim, entre aspas, para deixar claro que considero tal forma de educação como uma imposição de determinada aparência social, onde o melhor é “fazer de conta”. Uma imposição que ninguém efetivamente quer cumprir e, mais ainda, ninguém consegue explicar. Trata-se de uma falsa moralidade, que joga para baixo do tapete aquilo que não é para ser visto, ao invés de tentar resolver o problema.

Então, por ser capaz de pensar, o pai do Luide provocou o filho com uma nova conversa. Dessa vez, uma conversa direta de pai para filho, imaginando que, sem a interferência de terceiros, ele poderia se expor mais efetivamente. Era uma boa condição para deixar seus pensamentos fluírem mais soltos.

O pai instigou o Luide: “queria conversar mais com você sobre essa questão da sua relação com a Eli. Sem broncas, meu filho. Eu só quero entender melhor em que pé está esse namoro e, como pai, poder participar mais, poder acompanhar melhor a vida do meu filho. Você acha isso ruim?”

O Luide respondeu de pronto: “de jeito nenhum, meu pai. Muito pelo contrário, eu admiro os pais da Eli por isso. Eles dois, o pai e mãe da minha namorada, são muito participativos, eles acompanham os filhos de perto e, muito ao contrário do comentário do senhor sobre a liberdade exagerada, eles não permitem que aconteça nada com os filhos sem que estejam juntos”.

“Pai”, o Luide disse, “eu já faço parte daquela família há alguns meses. Eu nunca os vi deixarem nenhum fato de lado. Eles conversam sobre tudo. Sempre que acontece alguma coisa, como por exemplo o meu namoro com a Eli, eles chegam junto, conversam, querem saber dos detalhes, aconselham… mas, antes de qualquer coisa, esperam que o filho se posicione”.

O garoto continuou: “como eles dizem, a cada dia que passa os filhos ganham mais liberdade, mais condição de resolver a vida e tomar as próprias decisões. De qualquer forma, eles nunca vão deixar de ser o pai e a mãe de seus filhos, e por isso vão estar ali, juntinhos, para o que der e vier. Lá, os filhos têm o apoio dos pais em tudo o que fazem”. 

Luide, então, relembrou: “foi por isso, pai, que eu chamei a atenção em relação à minha irmã. Eu a vi chorando quando teve sua primeira relação sexual. Eu entendi que ela não tinha com quem conversar, e eu ainda era muito novo para isso. Ela precisava de apoio, de alguém que a norteasse naquele momento”.

O rapaz continuou, dizendo: “hoje eu enxergo que minha irmã foi abusada sexualmente pelo namorado. Ele era bruto, mas ela era apaixonada. Ela se entregou sem saber o que realmente estava fazendo. Eu sei que ela iria ter uma relação sexual mais cedo ou mais tarde, mas poderia não ter sido daquela maneira. O medo, a vergonha, a insegurança que ela sentiu poderiam ter causado problemas sérios para ela. Por sorte o babaca caiu fora”.

Ele ainda acrescentou: “pai, quando eu e a Eli tivemos a nossa primeira relação sexual, ela estava completamente segura do que estava fazendo. Ela estava muito mais segura do que eu. Ela sabia o que fazer, mesmo sem experiência. Ela conhecia os passos que tinha que dar. Acho que por isso foi uma coisa tão gostosa, tão prazerosa e sem nenhuma culpa”.

O Luíde também considerou: “minha irmã pode até ser adulta, financeiramente independente, “de pescoço grosso”, como ela mesma diz... mas mesmo assim, eu acho que ela ainda precisa do apoio de vocês para superar o que aconteceu. Isso definitivamente não pode ficar a cargo das amigas. As amigas dela ainda não têm o conhecimento devido, não têm maturidade”. 

Por fim, disse ainda: “nesse momento eu te peço até desculpas, meu pai, por estar me posicionando assim, como quem quer ensinar alguma coisa. Eu sei que eu ainda não vivi o suficiente para enfrentar os problemas da vida e, querendo ou não, eu não tenho o direito de julgar vocês. Eu não tenho noção do que vocês dois enfrentaram”. 

Na medida em que a conversa rolava, o pai do Luide ia fazendo as suas interferências, colocando as suas posições. No fundo, ele acabou dando corda para que o filho se expressasse. Na verdade, o pai do Luide, apesar de toda a autoridade que ele queria demonstrar, estava encantado de ver o filho ter uma posição tão bem embasada.  

Por isso mesmo o Luide foi se sentindo mais à vontade para falar, para se posicionar e apontar o que ele queria ver no comportamento do pai. Como, por exemplo, ver o pai conversar sobre sexo com a filha. Era um desafio e tanto. Duas pessoas com visões totalmente opostas, tentando chegar a um denominador comum. 

A certa altura, Luide falou: “sabe, pai, aquela coisa de conversar, de trocar ideia com os filhos, dar ouvido, como dizia a minha avó... Essas coisas fazem bem. Seria muito importante para nós dois, seus filhos, ouvir as experiências de vocês, conversar abertamente e trocar ideias. Tanto eu quanto minha irmã temos a necessidade disso”. 

Nesse momento o pai do Luide se desmanchou, deixou que as lágrimas tomassem conta do rosto, abraçou o filho e pediu desculpas. Lá no fundo do coração ele queria ter oferecido tudo isso que estava sendo jogado na cara dele. Ele queria ter estado mais próximo dos filhos, e viu isso se esvair por consequência dos caminhos e da dureza da vida.

Fechando a conversa, o Luide falou: “pai, eu sei que existe muito amor entre nós. O senhor e a mamãe construíram uma família, nos ofereceram boas condições de vida e nos nortearam. Fomos criados dentro dos princípios de vida que vocês tinham nas mãos, e que achavam ser o correto. Eu e a minha irmã temos muito a agradecer e admirar vocês por tudo isso”.

E concluiu: “mas pai, nós estamos crescendo. Na medida em que o tempo passa, nós vamos ganhando alguns conhecimentos, e podemos contribuir com o andamento da nossa família. Não é uma questão de querer ensinar, é a condição de trazer para o seio da família novas formas de ver e entender o que o mundo está nos oferecendo”.

 

 Aélio Jalles (Lelo) 

 

Livro: Era Uma Vez Meu Coração

 

Capitulo 01: O primeiro beijo

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Capitulo 02: O curso da vida

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Capitulo 03: E Ai Cadê meu ovo?

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Capitulo 04: O Desabrochar da Sexualidade

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Capitulo 05: A primeira vez

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Capitulo 06: Sexo a Conexão das Almas

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Capitulo 07: O Abraço da Confiança

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Capitulo 08: As novas cores do Arco-Íris

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Capitulo 09:  A Liberdade da Libido 

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/a-liberdade-da-libido.html

 

Capitulo 10: Equidade é uma questão de respeito 

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/equidade-e-uma-questao-de-respeito.html

 

Capitulo 11: Sob a ótica do filho

Link do texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/09/sob-otica-do-filho.html


Capitulo 12: O valor de uma relação maturada

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/10/o-valor-de-uma-relacao-maturada.html

 

 

 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Civilidade

 



Nós vivemos em sociedade, e, de uma forma qualquer, dependemos um dos outros. Isso independe da concepção individual de alguns que se acham melhores, maiores ou até mesmo se imaginam independentes da humanidade. No meu modo de ver, por ignorância ou mera estupidez.

Na minha boa fé, eu penso: foi exatamente essa associatividade dos seres humanos que nos fez tão fortes e duradouros diante do mundo. Foi por conta dessa associatividade que vencemos, em parte, a capacidade da natureza de se renovar. Nós, seres humanos, inventamos a velhice.

Saímos de qualquer linha estabelecida e fomos parar no topo da cadeia alimentar. Agora estamos vivenciando o desafio da convivência, no estabelecimento das relações, na construção do que se pode chamar de dinâmica da consciência coletiva.

Então, entendo que essa consciência social é dinâmica pela necessidade de se renovar constantemente, de se moldar aos conceitos e preceitos de cada época. A evolução das relações gera a necessidade da evolução do entendimento acerca da convivência em sociedade.

O conceito de civilidade difere do conceito do “Politicamente Correto”. Dentro da minha compreensão, a civilidade está muito mais ligada à ética, à conduta do que se faz simplesmente pelo bem-estar geral, porque e assim que deve ser feito.    

Ética, em uma definição simplória, é tudo aquilo que se faz porque é bom, porque é justo e porque coloca o respeito ao que é coletivo acima dos interesses individuais. Ética ou, como aqui eu estou querendo traduzir, “civilidade” é a obediência ao que não é obrigatório.   

Isto não se aprende com teorias. Isso se aprende nos exemplos, nos processos de vida. Trata-se de uma coisa cultural que vem com a educação, com a conscientização do papel social que cada indivíduo deve exercer para fazer a diferença na construção de uma sociedade mais justa, livre e solidária.

Somos indivíduos inseridos em uma rede de relações. Pertencemos aos mais diversos grupos (família, amigos, vizinhos etc.), e deles extraímos as condições necessárias para a nossa sobrevivência. Como integrante desses grupos, somos responsáveis pelo bom funcionamento de todos os processos dessa coletividade.

Todos, sem uma única exceção, devem dar a sua contribuição ao contexto de vida e bem estar comum. No meu modo de ver, a “civilidade” se encontra nos detalhes mais cotidianos. Em reciclar o lixo, no observar o posicionamento adequado do carro na vaga, na utilização devida dos bens comuns e coisas do gênero.

A “civilidade” é expressa por um conjunto de atitudes que possibilitam a atuação de cada um de nós, como responsáveis, como atores protagonistas de um mundo melhor.

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


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A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...