O pai do Luide, apesar dos conceitos patriarcalistas, era um cara de uma cultura interessante, uma pessoa que sabia pensar. Isso pode até não se sobrepor ao machismo exacerbado, mas é um fato capaz de amenizar os efeitos dessas características vindas de uma educação dessas ditas “moralistas”.
Ponho “moralista” assim, entre aspas, para
deixar claro que considero tal forma de educação como uma imposição de
determinada aparência social, onde o melhor é “fazer de conta”. Uma imposição
que ninguém efetivamente quer cumprir e, mais ainda, ninguém consegue explicar.
Trata-se de uma falsa moralidade, que joga para baixo do tapete aquilo que não
é para ser visto, ao invés de tentar resolver o problema.
Então, por ser capaz de pensar, o pai do Luide provocou o filho com uma nova conversa. Dessa vez, uma conversa direta de pai para filho, imaginando que, sem a interferência de terceiros, ele poderia se expor mais efetivamente. Era uma boa condição para deixar seus pensamentos fluírem mais soltos.
O pai instigou o Luide: “queria conversar mais com você sobre essa questão da sua relação com a Eli. Sem broncas, meu filho. Eu só quero entender melhor em que pé está esse namoro e, como pai, poder participar mais, poder acompanhar melhor a vida do meu filho. Você acha isso ruim?”
O Luide respondeu de pronto: “de jeito nenhum, meu pai. Muito pelo contrário, eu admiro os pais da Eli por isso. Eles dois, o pai e mãe da minha namorada, são muito participativos, eles acompanham os filhos de perto e, muito ao contrário do comentário do senhor sobre a liberdade exagerada, eles não permitem que aconteça nada com os filhos sem que estejam juntos”.
“Pai”, o Luide disse, “eu já faço parte daquela família há alguns meses. Eu nunca os vi deixarem nenhum fato de lado. Eles conversam sobre tudo. Sempre que acontece alguma coisa, como por exemplo o meu namoro com a Eli, eles chegam junto, conversam, querem saber dos detalhes, aconselham… mas, antes de qualquer coisa, esperam que o filho se posicione”.
O garoto continuou: “como eles dizem, a cada dia que passa os filhos ganham mais liberdade, mais condição de resolver a vida e tomar as próprias decisões. De qualquer forma, eles nunca vão deixar de ser o pai e a mãe de seus filhos, e por isso vão estar ali, juntinhos, para o que der e vier. Lá, os filhos têm o apoio dos pais em tudo o que fazem”.
Luide, então, relembrou: “foi por isso, pai, que eu chamei a atenção em relação à minha irmã. Eu a vi chorando quando teve sua primeira relação sexual. Eu entendi que ela não tinha com quem conversar, e eu ainda era muito novo para isso. Ela precisava de apoio, de alguém que a norteasse naquele momento”.
O rapaz continuou, dizendo: “hoje eu enxergo que minha irmã foi abusada sexualmente pelo namorado. Ele era bruto, mas ela era apaixonada. Ela se entregou sem saber o que realmente estava fazendo. Eu sei que ela iria ter uma relação sexual mais cedo ou mais tarde, mas poderia não ter sido daquela maneira. O medo, a vergonha, a insegurança que ela sentiu poderiam ter causado problemas sérios para ela. Por sorte o babaca caiu fora”.
Ele ainda acrescentou: “pai, quando eu e a Eli tivemos a nossa primeira relação sexual, ela estava completamente segura do que estava fazendo. Ela estava muito mais segura do que eu. Ela sabia o que fazer, mesmo sem experiência. Ela conhecia os passos que tinha que dar. Acho que por isso foi uma coisa tão gostosa, tão prazerosa e sem nenhuma culpa”.
O Luíde também considerou: “minha irmã pode até ser adulta, financeiramente independente, “de pescoço grosso”, como ela mesma diz... mas mesmo assim, eu acho que ela ainda precisa do apoio de vocês para superar o que aconteceu. Isso definitivamente não pode ficar a cargo das amigas. As amigas dela ainda não têm o conhecimento devido, não têm maturidade”.
Por fim, disse ainda: “nesse momento eu te peço até desculpas, meu pai, por estar me posicionando assim, como quem quer ensinar alguma coisa. Eu sei que eu ainda não vivi o suficiente para enfrentar os problemas da vida e, querendo ou não, eu não tenho o direito de julgar vocês. Eu não tenho noção do que vocês dois enfrentaram”.
Na medida em que a conversa rolava, o pai do Luide ia fazendo as suas interferências, colocando as suas posições. No fundo, ele acabou dando corda para que o filho se expressasse. Na verdade, o pai do Luide, apesar de toda a autoridade que ele queria demonstrar, estava encantado de ver o filho ter uma posição tão bem embasada.
Por isso mesmo o Luide foi se sentindo mais à vontade para falar, para se posicionar e apontar o que ele queria ver no comportamento do pai. Como, por exemplo, ver o pai conversar sobre sexo com a filha. Era um desafio e tanto. Duas pessoas com visões totalmente opostas, tentando chegar a um denominador comum.
A certa altura, Luide falou: “sabe, pai, aquela coisa de conversar, de trocar ideia com os filhos, dar ouvido, como dizia a minha avó... Essas coisas fazem bem. Seria muito importante para nós dois, seus filhos, ouvir as experiências de vocês, conversar abertamente e trocar ideias. Tanto eu quanto minha irmã temos a necessidade disso”.
Nesse momento o pai do Luide se desmanchou, deixou que as lágrimas tomassem conta do rosto, abraçou o filho e pediu desculpas. Lá no fundo do coração ele queria ter oferecido tudo isso que estava sendo jogado na cara dele. Ele queria ter estado mais próximo dos filhos, e viu isso se esvair por consequência dos caminhos e da dureza da vida.
Fechando a conversa, o Luide falou: “pai, eu sei que existe muito amor entre nós. O senhor e a mamãe construíram uma família, nos ofereceram boas condições de vida e nos nortearam. Fomos criados dentro dos princípios de vida que vocês tinham nas mãos, e que achavam ser o correto. Eu e a minha irmã temos muito a agradecer e admirar vocês por tudo isso”.
E concluiu: “mas pai, nós estamos crescendo. Na medida em que o tempo passa, nós vamos ganhando alguns conhecimentos, e podemos contribuir com o andamento da nossa família. Não é uma questão de querer ensinar, é a condição de trazer para o seio da família novas formas de ver e entender o que o mundo está nos oferecendo”.
Aélio Jalles (Lelo)
Livro:
Era Uma Vez Meu Coração
Capitulo
01: O primeiro beijo
Link do Texto:
Capitulo
02: O curso da vida
Link do Texto:
Capitulo
03: E Ai Cadê meu ovo?
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html
Capitulo
04: O Desabrochar da Sexualidade
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/o-desabrochar-da-sexualidade.html
Capitulo 05: A
primeira vez
Link https://aeliojalles.blogspot.com/2023/05/a-primeira-vez.html
Capitulo
06: Sexo a Conexão das Almas
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/05/sexo-conexao-das-almas.html
Capitulo
07: O Abraço da Confiança
Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/07/o-abraco-da-confinca.html
Capitulo
08: As novas cores do Arco-Íris
Link
do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/as-novas-cores-do-arco-iris.html
Capitulo
09: A Liberdade da Libido
Link do
Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/a-liberdade-da-libido.html
Capitulo 10:
Equidade é uma questão de respeito
Link do
Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/08/equidade-e-uma-questao-de-respeito.html
Capitulo
11: Sob a ótica do filho
Link
do texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/09/sob-otica-do-filho.html
Capitulo
12: O valor de uma relação maturada
Link do
Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/10/o-valor-de-uma-relacao-maturada.html

Que maturidade!!
ResponderExcluirEstou adorando o desenrolar desse conto. E que conversa franca e forte o Luide teve com o pai. Será que a mãe do Luide vai conseguir enxergar por essa mesma prisma do pai?! Sobre a importância de abordar e juntar as experiências da vida, como forma de aprendizado?! Aguardar os novos capítulos...rsrsrs
ResponderExcluirConversar com pai e mãe é complicado, que não deveria ser, conversar com meu pai aí que era difícil rsrs.
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