quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O valor de uma relação maturada



Já tinha sido o dia todo de festa. Era o aniversário da mãe do Luide e o domingo tinha se transformado em uma grande reunião de família e dos amigos dos pais dele. Eli e os pais faziam parte, as famílias já se reconheciam.

Os pais do Luide já tinham percebido que o convívio com a família da Eli fazia bem ao filho. Era notável o quanto ele tinha desenvolvido sua personalidade, ganhado confiança e de como sua postura já tinha influenciado, trazido para o seio da família dele, alguns benefícios.

As conversas familiares na casa do Luide tinham se intensificado.  As ocasiões em que estavam todos juntos tinham se multiplicado também e a troca de informações entre os pais, o Luide e a irmã tinha ganhado fluidez. Era sem dúvidas uma influência direta da relação da casa da Eli.

Já para o final da festa, ficando somente um núcleo bem pequeno dos amigos e familiares, os mais chegados de fato, o pai do Luide resolveu instigar o pai da Eli. Era como deixar fluir uma verdadeira mistura de sentimentos. Curiosidade, afronta, necessidade de se mostrar, sem falar que ele queria pôr à prova as pregações que o filho fazia.

Ele tirou proveito de uma linha de raciocínio, uma deixa da conversa que eles estavam tendo, e jogou a pergunta no ar, só que, na verdade, a pergunta era muito bem direcionada ao pai da Eli. A pergunta, envolta em questionamentos e ponderações sobre as relações dos casais, dizia: quem pode me explicar o que significa ter uma relação maturada?

De pronto o Luide quis repreender o pai, mas o sogro tomou a palavra. Ele disse de forma muito bem humorada: “eu acho que essa é uma pergunta quase direta para mim. Essa é uma pregação muito pessoal que eu tenho feito aos nossos filhos. Se mais alguém quiser dizer alguma coisa, fique à vontade, e se não, vou tentar oferecer a vocês o meu raciocínio”.

Ele aguardou o silêncio se concretizar e falou: “tem duas características que eu valorizo muito em uma relação. A primeira é a equidade, o equilíbrio de forças entre os pares, a condição de que os dois estão sempre dentro da mesma medida e do mesmo patamar. Eu penso que esse é um primeiro passo, para que uma relação possa ter longevidade, com saúde”.

Ele continuou: “a segunda é a maturidade, colocando essa como a característica necessária para que um seja capaz de escutar o outro. A maturidade, nesse caso, acaba sendo a condição necessária para que nenhum dos dois tome uma decisão unilateral”.

Ainda na fala dele: “assim, eu tenho como uma relação maturada a relação onde os dois se conhecem de forma muito profunda. Eles já conversaram tanto, já se escutaram tanto, que um conhece a opinião do outro, de forma clara e transparente. Uma relação que só se constrói se um for capaz, principalmente, de escutar o outro”.

Aí, para não permitir que a conversa virasse um monólogo, a mãe da Eli resolveu intervir: “eu queria falar aqui, para que todos pudessem pensar, para nós mulheres ainda não é fácil entender essa questão da equidade, sem pensar em guerra dos sexos”.

Ela continuou: “como a grande maioria das mulheres, eu venho de uma criação patriarcalista, machista, sexista e mais um monte dessas coisas. Nós não recebemos uma formação sexual inclusiva, capaz de nos fazer entender que sexo era bom, que fazia bem e que nós tínhamos o mesmo direito ao prazer”.

Nessa hora a plateia já estava de olhos arregalados, mas ela só aproveitou a atenção: “meu marido é maior que eu, se eu quiser medir forças com ele, eu acho que vou me dar mal. Mas eu quero me agarrar com ele. Eu quero me prender a ele e somar forças. Juntos nós somos maiores e mais fortes”. 

Em uma dessas sintonias que chamam a atenção, o pai da Eli tomou a palavra: “a gente sempre tenta puxar o nosso par para o nosso mundo. Só que não é assim que as coisas funcionam, as medidas da relação têm que ser embasadas pelos dois, a gente tem que saber entender o que dá mais certo”.

Ainda na mesma sintonia, a mãe completa: “Maturada é uma relação que já levou tanta paulada, que se moldou devidamente. É difícil moldar alguma coisa sem levar em conta a parcela de sacrifício que se tem que viver. Só não se pode querer que o sacrifício venha só de um lado. Os dois devem ceder”. 

Aí, para completar a fala, para fechar com chave de ouro, entra em cena a voz do Luide: “aceitar  que o mundo não é feito somente das suas verdades é uma lição muito difícil de entender”. O garoto foi apresentando a sua maturidade e falando com muita segurança.        

Ele fechou a fala e a conversa dizendo: “eu venho entendendo cada vez mais que o amor é uma construção diária e não uma coisa casual. A decisão de caminhar juntos cobra da gente a ampliação da nossa flexibilidade e da nossa resiliência. Para sonhar um sonho a dois se faz necessário trilhar um caminho que não é só seu”. 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 


Livro: Era Uma Vez Meu Coração

 

Capitulo 01: O primeiro beijo

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Capitulo 02: O curso da vida

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Capitulo 03: E Ai Cadê meu ovo?

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Capitulo 04: O Desabrochar da Sexualidade

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Capitulo 05: A primeira vez

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Capitulo 06: Sexo a Conexão das Almas

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Capitulo 07: O Abraço da Confiança

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Capitulo 08: As novas cores do Arco-Íris

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Capitulo 09:  A Liberdade da Libido 

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Capitulo 10: Equidade é uma questão de respeito 

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Capitulo 11: Sob a ótica do filho

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Capitulo 12: O valor de uma relação maturada

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

O Gênio Implicante


A grosseria é muitas coisas,

e sempre uma arrogância......”


Encontrei essa frase no meio de textos perdidos. Não consegui encontrar um autor, mas achei o texto instigante à abertura de um bom raciocínio. Eu sei que todos nós dispomos de um “Gênio Implicante”. Uma alusão a esse limite que cada um tem para deixar fluir a raiva, a brutalidade, a grosseria.

Chamei de “Gênio Implicante” por ser um momento em que a capacidade de raciocínio se apequena e a pessoa não consegue medir as consequências. Ela simplesmente sai dando “patadas” sem a noção exata se a outra pessoa vai suportar, de como elas serão absorvidas, ou até mesmo se elas não vão atingir outras pessoas. 

Isso sempre tem uma medida. Isso fere, magoa, fragiliza as relações e, por mais resiliência que a outra pessoa possa ter, vai acabar acontecendo de, em um momento, essa pessoa se magoar de forma mais profunda. De tantas pancadas, uma delas pode bater em um lugar mais sensível.

Na verdade, ninguém merece ser saco de pancadas de ninguém. Quando a pessoa permite que o seu “Gênio Implicante” tome conta do seu raciocínio, naturalmente ela começa a agir sem pensar. Ruim para ela mesma. Esse comportamento faz com que naturalmente as pessoas se afastem. Ninguém gosta de espinhos!

Se essa situação, mesmo acontecendo esporadicamente, já trás consequências ruins, imagine para quem tem esse gênio pesado à flor da pele. Imagine para a pessoa que considera normal fazer uso dessa irritabilidade. Algumas pessoas acreditam que se não for batendo nas outras não conseguem nada.

Existem pessoas que acham que os seus problemas são maiores que os das outras.  Existem pessoas que querem culpar o mundo pelas mazelas da vida, mesmo que essas mazelas sejam construídas por elas mesmas. É como se elas não tivessem culpa de nada, que sempre deve ter alguém ali para ser responsabilizado pelos seus erros.    

No meu modo de ver, todas as formas de animosidade se transformam em amarras que nos levam à solidão. São fatores que nos prendem em uma vida pequena, que nos proporcionam um mundo sem muita cor e sem muita graça. Mas esse é um fator que só nos damos conta para o final das nossas vidas.

Em uma ilustração bem lúdica, eu, conversando com o meu cachorro, costumo dizer: se quer ficar solto, tem que ser bonzinho. Cachorro valente normalmente fica na coleira, preso em um canto onde ele não pode morder ninguém. Ou seja; quanto mais valente, quanto mais bravo você for, mais isolado você vai ficar.   

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O meu lado mais doce


Gostaria de ser mais avô, de me fazer mais presente do que tenho sido na vida das minhas netas. É que eu mesmo, me imaginando nessa condição de avô, me caricaturei, de uma forma bem lúdica, com o comportamento muito próximo do que foi um dos meus avôs. 

Isso não retira a consideração, o respeito, o carinho, ou a admiração que eu tenho pelos outros. Cada um com as suas características e com as suas possibilidades. Agora eu até entendo que, dentro do que a vida vai impondo e proporcionando, cada um faz o que pode.  

Mas, um deles, como eu bem disse, teve a possibilidade e a estrutura necessária para se misturar com os netos. Era bem o jeito dele, de quem não tinha tido a infância necessária e, por isso, ele se fazia criança, se metia entre nós. O “sem noção” brigava, como se fosse de igual para igual, pelos brinquedos que ele gostava.

Esse cara, mesmo com as juntas que não respondiam mais a tudo, se jogava no chão e brincava como se realmente fosse um menino. Na casa dele, todos os netos tinham brinquedos guardados. Cada um tinha os seus brinquedos, cada um tinha a sua caixa de sapatos determinada.

Eram as normas e determinações da minha avó. Uma fortaleza à parte, ela comandava tudo com a mão de ferro. Para evitar as confusões dos netos, cada um tinha a sua caixa de sapatos nominada. Lógico que, pela vaidade pessoal, tinha uma caixa que era a dele. A caixa de sapato com o nome e com os brinquedos do meu avô.

Esse avô nunca meteu a mão no bolso para dar um bombom a um neto. Muito pelo contrário, ele brigava era pela panela, quando nós íamos raspar o resto do doce de leite que a vovó fazia. Ele vinha com a aquela mãozona, maior do que as nossas, melava tudo. Saia lambendo os dedos e mangando da gente.

Nas minhas melhores lembranças afetivas, essa convivência tem um lugar muito especial. A criança, que ainda vive no meu coração, tem a referência desse avô como alguma coisa bem ímpar, diferente de tudo o que todo mundo viveu. Essa vivência deixou na minha memória um sentimento muito gotoso.

Eu até vivi muito de tudo isso com os meus filhos, com os amigos dos meus filhos e, por isso mesmo, considero esse o meu lado mais doce. Eu queria poder oferecer às minhas netas, da mesma forma, esse carinho de vida que eu recebi. Um exemplo contido de muitas emoções, e que eu ainda não consegui fazer chegar a elas.    

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Amor é uma construção a quatro mãos




Plantou o amor e não floresceu.......

Tenha certeza de que a terra não era fértil.......

Não desperdice mais sementes, plante em novos campos.  

 

Clarice Lispectro

 

Não se pode pensar em uma relação longeva sem reciprocidade. Não se pode pensar em uma relação sem a dualidade de opiniões e o somatório de forças para que se possa construir um caminho de sonhos, realizações e muita felicidade.

Sempre que um dos dois resolve dar as cartas e se apoderar da relação, no meu ponto de vista, os sentimentos se deturpam. Não se pode pensar em uma relação de amor quando um dos dois se anula à vontade do outro. A submissão não é condizente com o sentimento de amor.

Seguindo a mesma trilha de raciocínio de uma das crônicas do Rubem Alves, a relação, quando é vivenciada em caráter de disputa, medindo forças, como em um jogo de tênis, tem uma vida previsivelmente curta. Uma hora alguém vai marcar o ponto final e pronto, não tem mais o que fazer, o jogo acaba.

Essa relação tende a tornar-se abusiva. Tem sempre um fazendo pressão sobre o outro na busca de ser ele a marcar o ponto e quanto mais ele marca ponto, maior e mais forte ele fica. Já o outro vai ficando subjugado, cada vez mais sem voz e sem vez. Essa pessoa subjugada vai se resumindo, cada vez mais, à sua insignificância.

O tênis, como uma relação abusiva, é feroz, seu objetivo é derrotar, literalmente subjugar o outro. O bom jogador, o mais forte, vai tendo a noção de como encaminhar o jogo a seu favor e se utiliza das debilidades do seu oponente, no caso, para marcar seus pontos. É justamente do ponto fraco do outro que ele tira proveito.

A minha questão é que isso não pode ser amor. Não se ama por pressão. Por opressão só se constrói o medo. Como no mito da caverna de Platão, o que você pode construir na opressão é a dependência da incerteza, é o aprisionamento pelos sentidos, por uma falha na percepção da verdade.

Volto aqui à ideia ilustrada pelo Rubens Alves. O amor, apesar de bem parecido com o tênis, se posiciona melhor como se fosse um jogo de frescobol. Aqui, ao contrário do tênis, joga-se para fazer com que o outro acerte mais e quanto mais os dois acertam melhor fica o jogo. Aqui, quando a bola vem torta, o melhor que se faz é tentar corrigir a jogada e azeitar a bola para o outro.

Nesse caso o erro é um mero acidente de percurso e quem erra se desculpa, porque sabe que o melhor do jogo é o vai e vem da bola. Todo esforço que se faz é para facilitar a próxima jogada e é isso que faz com que o jogo fique ainda mais bonito.

Aqui o conhecimento que se tem do parceiro e as experiências da vida servem de base para fazer a relação crescer e o jogo perdurar. A bolinha do jogo funciona como os nossos sonhos e o mais gostoso da vida é ficar batendo bola para lá e para cá.

E isso serve para todo tipo de relação. A verdade é que o amor real, qualquer que seja ele, é uma via de mão dupla. Ele deve ser regado de amizade, de carinho, de afeto e tudo mais. Nessa relação, a energia do sentimento deve circular livremente entre os corpos e um deve proporcionar ao outro o que a vida pode oferecer de melhor.

Não cabe em uma relação como essa nenhum tipo de disputa, a imposição ou qualquer que seja o domínio. No amor, na amizade, nas boas trocas da vida, quanto mais se oferece uma bola redondinha para o outro, quanto mais um colabora com a vida do outro, melhor.

No jogo da vida, quanto mais se sonha junto, melhor vai ficando o jogo.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...