quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O meu lado mais doce


Gostaria de ser mais avô, de me fazer mais presente do que tenho sido na vida das minhas netas. É que eu mesmo, me imaginando nessa condição de avô, me caricaturei, de uma forma bem lúdica, com o comportamento muito próximo do que foi um dos meus avôs. 

Isso não retira a consideração, o respeito, o carinho, ou a admiração que eu tenho pelos outros. Cada um com as suas características e com as suas possibilidades. Agora eu até entendo que, dentro do que a vida vai impondo e proporcionando, cada um faz o que pode.  

Mas, um deles, como eu bem disse, teve a possibilidade e a estrutura necessária para se misturar com os netos. Era bem o jeito dele, de quem não tinha tido a infância necessária e, por isso, ele se fazia criança, se metia entre nós. O “sem noção” brigava, como se fosse de igual para igual, pelos brinquedos que ele gostava.

Esse cara, mesmo com as juntas que não respondiam mais a tudo, se jogava no chão e brincava como se realmente fosse um menino. Na casa dele, todos os netos tinham brinquedos guardados. Cada um tinha os seus brinquedos, cada um tinha a sua caixa de sapatos determinada.

Eram as normas e determinações da minha avó. Uma fortaleza à parte, ela comandava tudo com a mão de ferro. Para evitar as confusões dos netos, cada um tinha a sua caixa de sapatos nominada. Lógico que, pela vaidade pessoal, tinha uma caixa que era a dele. A caixa de sapato com o nome e com os brinquedos do meu avô.

Esse avô nunca meteu a mão no bolso para dar um bombom a um neto. Muito pelo contrário, ele brigava era pela panela, quando nós íamos raspar o resto do doce de leite que a vovó fazia. Ele vinha com a aquela mãozona, maior do que as nossas, melava tudo. Saia lambendo os dedos e mangando da gente.

Nas minhas melhores lembranças afetivas, essa convivência tem um lugar muito especial. A criança, que ainda vive no meu coração, tem a referência desse avô como alguma coisa bem ímpar, diferente de tudo o que todo mundo viveu. Essa vivência deixou na minha memória um sentimento muito gotoso.

Eu até vivi muito de tudo isso com os meus filhos, com os amigos dos meus filhos e, por isso mesmo, considero esse o meu lado mais doce. Eu queria poder oferecer às minhas netas, da mesma forma, esse carinho de vida que eu recebi. Um exemplo contido de muitas emoções, e que eu ainda não consegui fazer chegar a elas.    

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


 

3 comentários:

  1. Linda lembrança, também tenho lembranças memorável com meus avós. Marca nossa vida oara sempre.

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  2. Habita em nosso ser uma criança interior, que traz consigo registros de acontecimentos inesquecíveis de nossa infância. Tenho milhares de lindas recordações.rsrsrs
    Um adulto que não possui um pouco de criança em si não sabe adoçar a vida. Seu avô deve ter sido uma pessoa muito especial e querida. E espero que você tenha a oportunidade de passar para suas netinhas momentos que possam ficar guardado na memória delas. Lindo texto☺️

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  3. Essas lembranças são as que a gente nunca quer perder!! Lindo texto

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