Ter nas mãos uma relação que fosse capaz de vencer as “contracepções” da
vida cotidiana, isso é o máximo! Uso contracepções como forma de ilustrar as
questões que dificultam a semeadura da cumplicidade, da confiança e dos fatores
que consolidam uma relação. Os fatores que fortalecem e fazem a cumplicidade
ser assim irradiante.
Quando nos unimos a alguém, influenciamos, provocamos mudanças,
oferecemos novas formas de ver e de sentir a vida. Apresentamos novos caminhos
e, não tem como escapar, acabamos modificando a vida do outro. Isso nos imputa
responsabilidade, quer queira ou não, deixamos grandes pedaços de nós e levamos
pedaços do outro no final da relação.
Mesmo rompendo com esse compromisso, penso eu que nunca vamos nos eximir
por completo dessa responsabilidade. Essa noção me foi fortalecida agora,
quando eu recebi a notícia do falecimento de um dos parceiros, um dos parceiros
de uma dessas relações de vida. Alguém com quem eu tive, posso dizer, o privilégio
de conviver uns dias.
Eu me deliciei em poder observar a relação e a energia mágica do
compromisso que eles assumiram por mais de 60 anos. Nem vou querer aqui
retratar a paixão. Em uma história tão longa, sentimentos voláteis como esse
nem cabem mais, não aparecem, não fazem mais diferença.
Ali se apresentava, a todo momento, o sentimento jocoso da empatia, do
compromisso assumido de coração, do fato de que um era literalmente problema do
outro. Falo problema, unicamente, como laço de vida, como a responsabilidade
sem limites, dessas que a gente só assume mesmo por um filho.
Era como se tudo o que ele fizesse resvalasse nela e vice-versa. Eles
não paravam de cuidar, de se importar, e porque não dizer de implicar com o que
o outro fazia. Eu o vi incomodado, sem canto, sem saber onde ficar. Foi quando
a filha, ao perceber minha atenção, disse: “isso é só porque ela ainda não
chegou, ela ainda está se arrumando. Enquanto ela não chegar, ele não se
aquieta e não faz nada”.
E foi exatamente isso. Foi só ela chegar que ele sentou, encheu o copo
de cerveja e entrou na conversa. Aí ela deu logo na folga dele dizendo: “você
não vá beber demais. Tenha cuidado para não encher a cara. É feio um velho
bêbado”. Ele riu e disse: “lá vem ela, ô mulher para se incomodar com a minha
vida”. Todo cheio, mostrando ao mundo que essa certeza era o maior prazer da
vida dele.
Com ela não era diferente. Ela também não dava um passo sem a presença
dele. Eu a vi perambulando na cozinha, mas o tempo todo ligada. Ela estava
atenta para ver se ele chegava. Mesmo todo mundo chamando para ela vir para a
mesa, e o lugar deles dois já reservado, ao lado um do outro, ela só veio
sentar quando ele chegou.
Dentre tantas coisas que eu tive a oportunidade de observar, desde a
forma de dividir um copo de água, eu vi neles a prerrogativa de vida,
estabelecida nessa convivência. Eu vi a divisão do pedaço de pão, a atenção
dele oferecendo o salgado da mesa, o cuidado dela com a gola mal postada. Era o
mundo da vida deles.
Eu vi um emaranhado de emoções mergulhadas em uma troca, como se o
objetivo básico de um fosse exclusivamente a comodidade, o conforto e a
felicidade do outro. Um amor que não precisa de testemunha, que não já não
ostentava beleza física, que não precisa de registros ou de provas, mas que
encantou minha alma.
Como eu tive “inveja” daquela relação. Ponho a “inveja” entre aspas para
deixar claro o sentido de admiração, mas denoto a inveja, porque de fato eu
desejei para mim. Como não desejar uma relação que parecia não precisar de mais
nada? Esse é o tipo de relação que reluz e que da mesma forma se basta.
Quando soube da morte dele, imaginei o sofrimento dela. Veio a minha
cabeça o tamanho da relação que eles construíram e consequentemente o tamanho
do buraco desastroso que deve haver agora no coração dela. A divisão de dois
corpos entrelaçados a esse ponto, a retirada de um da vida do outro deve doer, como se essa fosse “uma
fratura exposta da alma”.
A partir de hoje, como propósito, e pela minha
admiração, dirijo a energia das minhas orações pela plenitude da alma dele,
pelo conforto do coração dela e para que a energia desse amor promova o
encontro dessas duas almas em uma nova vida.
Não posso acreditar que uma irradiante força de cumplicidade como essa
caiba na existência exígua de uma única vida.
Aélio Jalles (Lelo)
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As relações duradouras dependem de cumplicidade, e cumplicidade é algo que se conquista, um estado de entrega e devoção. É quando dois seres caminham juntos em busca de algo que dê à vida um pouco mais de sentido.
ResponderExcluirExiste a vida de cada um e existe uma terceira vida que nasce da soma das duas, muito maior, muito mais abrangente, muito mais bonita e invejável.
A cumplicidade torna seus parceiros, pessoas mais fortes e felizes, pois têm na outra parte algo rico e digno de orgulho.
E percebi na leitura do texto, que esse lindo casal era o elo um do outro. Acredito que essa linda história de amor não termina no aqui e agora, e sim irá perdura em outras esferas e dimensões.
Que sejamos capazes de seguir o exemplo desse belo casal. Texto magnifico!
"Não posso acreditar que uma irradiante força de cumplicidade como essa caiba na existência exígua de uma única vida." E nem nós amigo, nem nós. Grato por sua inspiração e sensibilidade na construção dessa narrativa. Vc é um contador de histórias nato.
ResponderExcluirAlmas Gêmeas!!! Perfeito.
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