sexta-feira, 21 de junho de 2024

Não ao abandono afetivo



Na loucura da vida, estamos vendo, ou posso dizer que, na medida em que a velhice se instala, vamos vivenciando cada vez menos a afetividade social. É como ressaltado por um amigo, em um texto, estamos passando pela eliminação gradativa da vida, condenados a um esquecimento, a um doloroso abandono afetivo.

A cada dia que passa, nós somos naturalmente afastados dos nossos círculos sociais. As reuniões em família, os encontros com os amigos, às ocasiões de acolhimento social, todas essas situações vão ficando cada vez mais escassas e, no fundo, não dá para culpar ninguém por isso.

Os filhos vão crescendo e ganhando novos compromissos, os amigos vão se distanciando, vão tendo mais dificuldade de locomoção, vão adoecendo, vão falecendo. É um processo inevitável, não se pode frear, e nós naturalmente, como se não tivesse nada o que fazer, vamos nos acomodando, aceitando esse distanciamento.   

Vamos ficando ultrapassados, isso é um fato, e a cada dia, mais desinteressantes. Começamos a fazer perguntas demais, a compreender de menos e a querer saber o que, realmente, não nos interessa. Também, o que é ainda pior, vamos nos tornando mais intolerantes, mais aborrecidos. 

Olhando para minha mãe, minhas tias, e mais outras pessoas de idade avançada, eu percebo que; quanto mais reclamamos, mais afastamos as pessoas do nosso convívio. Fica claro que reclamar, seja das ausências, das dores, ou até mesmo das consequências de ter vivido tanto, provoca afastamento, fechamento de portas e ampliação da vala que vai sendo construída entre nós e o resto do mundo. 

Temos que encontrar a forma de virar essa chave, mesmo que não seja assim uma virada tão grande ou significativa. Temos que entender nossas limitações e aprender a tirar o máximo proveito de todo momento de felicidade que nós conseguimos ter acesso, sem estragá-los com qualquer tipo de questionamento.

Precisamos abusar da simpatia e tentar nos integrar, da melhor maneira, a todas essas situações que se apresentam. Na verdade ninguém gosta da chatice alheia, da rabugice dos outros. Temos que aprender a degustar esses momentos, como se eles fossem únicos, recebendo-os de bom grado e de coração aberto.   

Assim sendo, eu diria que; a partir da virada da casa dos cinquenta anos, o negócio é redobrar os vínculos de amizade e de retirar dessas amizades a maior quantidade de alegria possível. Nós temos que desfrutar dessas amizades ao máximo. Dá para curtir a vida com o que nós ainda temos na mão.

É essa curtição que vai, na pior das hipóteses, gerar, no futuro, nossas boas lembranças. Vamos registrar histórias interessantes e formar boas memórias. Quem sabe assim nós possamos “entreter” as pessoas que vão nos cercar mais na frente, com elas.

Nesse futuro incerto, é bem melhor abdicar das dores, do que do convívio com as pessoas. Nesse cenário, eu não vejo uma forma melhor de dizer não ao abandono afetivo, do que contagiar o mundo com um belo sorriso e boas histórias.

 

Aélio Jalles (Lelo)






 

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2 comentários:

  1. Eu creio que o bem viver e o bem agir, são duas ações que durante o "desenrolar" da vida nos leva a felicidade. A felicidade se encontra na forma como fazemos nossas escolhas, encarando a vida da maneira como ela realmente se apresenta, vivendo-a intensamente com responsabilidade. O que quero dizer é que quando encaramos a vida com alegria, sabedoria, harmonia, amor e disposição, chegamos a velhice de forma leve e feliz com a vida, fazendo com que a nossa presença seja agradável e apreciada, tanto pela família e amigos, assim como pelas pessoas a nossa volta. "Viver uma vida de bem com a vida", nos fará velhos bem apreciados. É uma questão de escolha.

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  2. A vida é um sopro, qdo menos esperamos tudo já passou.. nessa correria do dia a dia, acho que deixamos p amanhã as coisas que nos fazem bem como nossos amigos.. são tantos afazeres, responsabilidades que vão nos distanciando um pouco mesmo.

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