sexta-feira, 5 de maio de 2023

A Primeira Vez!




Nem era uma data especial, nem um dia diferente dos outros. Era simplesmente um domingo chuvoso. A chuva atrapalhou os planos do passeio em família, um passeio que tinha sido devidamente programado, e aí, por conta disso, o dia terminou se transformando em algo cheio de improvisos.

Sem passeio, a coisa foi parar mesmo em um almoço arranjado, feito em casa. Sabe, aquela coisa de aproveitar tudo o que se tem na mão. Mas foi exatamente essa bagunça, o ato de sair improvisando tudo, de fazer os arranjos necessários para conseguir fazer o almoço, que foi preenchendo o dia de graça.

O Luide já se sentia de casa, ele se sentia parte da família, e se misturava com os tios e primos da Eli com a maior facilidade. O namoro já se estendia por meses, e os pais da Eli já o tratavam como filho, como alguém que eles queriam por perto. Eles tinham abençoado o namoro da filha e, por isso, o acolhiam com tanto carinho.

Foi um dia todo de muita festa, de muita brincadeira, de muita música e alegria. Estavam todos aproveitando aquela energia emotiva do convívio familiar. Tudo como era devido, até que o cansaço começou a tomar conta. Dessa forma, todo mundo começou a tomar seu rumo.

A Eli e o Luide acabaram juntos, no quarto dela. Os dois jogados em cima da cama, rindo e comentando tudo o que tinha acontecido durante o dia. Aos poucos, eles foram deixando que o cansaço fosse dando lugar ao desejo e ao envolvimento natural que a intimidade de vida provoca.

Eles eram adolescentes, não é difícil entender que a intimidade que eles já tinham conquistado, e a privacidade daquele momento, deixavam a situação fantasticamente adequada. Era só deixar correr que o instinto, a química natural de um casal apaixonado, iria conduzir tranquilamente os fatos.

Eles tinham sido muito bem orientados. De uma forma discreta, mas muito participativa, os pais da Eli conseguiram mostrar para eles todas as prerrogativas necessárias para que aquele momento fosse especial. Eles foram recebendo as lições e absolvendo os pontos que fariam a diferença.

Com o passar do tempo, a intimidade que tinha se formando entre eles, fruto da confiança construída de um com o outro, deixou a situação muito tranquila. Eles já tinham tido a oportunidade de conversar e entender o que significaria aquele momento, para que tudo aquilo acontecesse exatamente assim, sem peso.

 

Cada toque, cada passo dado, cada gesto ia conduzindo o casal para aquele momento mais íntimo. Tudo foi acontecendo de uma forma tão natural que nem parecia que seria a primeira vez. Eles tinham consciência do que estavam fazendo, do que queriam e de que nada seria feito de uma forma indevida.

Aos poucos os corpos foram se despindo e revelando a beleza dessas duas almas. Era de impressionar a sintonia. De fato, naquele momento nada parecia ser de improviso, era como se tudo estivesse escrito, um script que se desenhava na energia mágica do amor e do desejo.

O apalpar carinhoso do seio, oferecia a contrapartida da mão firme que apoiava a cabeça para dar sustentabilidade ao beijo. De cada toque, dos beijos distribuídos pelo corpo, vinha a confirmação de que aquele era o momento onde tudo tinha o sentido único do prazer.

Desde o afago carinhoso das mãos percorrendo as curvas do corpo, aos beijos dados com a fome de quem não consegue saciar o desejo, tudo traduzia a ânsia do entregar e receber a energia prazerosa do amor. Eles se envolveram em uma aura de energia e a conexão obtida com a junção dos corpos foi radiante.

As unhas que carinhosamente riscavam as costas, só demonstravam o tamanho do prazer que o corpo estava exalando. Nem mesmo a incômoda dor da iniciação foi capaz de deter a explosão do delírio que o ato foi capaz de oferecer.

Foi uma relação plena, recheada com o carinho do mundo todo. Teve atenção, respeito e isso fez com que tudo fosse acontecendo da forma mais prazerosa possível. Eles conseguiram fazer com que o tempo de cada um fosse observado e respeitado.

Por isso mesmo, quando no final de tudo eles se olharam, o sorriso brotou no rosto como se um fosse espelho da felicidade do outro. A sensação de êxtase pairou no ar, paralisando o mundo e o cheiro do amor inundou o ambiente.




Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 

 

Livro: Era Uma Vez Meu Coração

Capitulo 01: E Ai K dê meu ovo?

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html


Capitulo 02: O Desabrochar da Sexualidade

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/o-desabrochar-da-sexualidade.html



 

terça-feira, 25 de abril de 2023

O Vazio do SEXO Vazio!


Romanticamente, nos é dito que em cada encontro, em cada uma das nossas relações pessoais, nós deixamos alguma coisa e levamos alguma coisa do outro, como uma herança para a vida. Uma troca do aprender e ensinar, do doar e receber, que é promovido pelo convívio.  

Existe uma troca, uma experiência nova de vida em cada relação vivenciada. Quanto mais profunda a relação se torna, maior se torna essa troca. Positiva ou negativamente, você recebe mais, e doa mais, com o tempo, com a proximidade e com a intimidade.

Uma das definições que eu escutei sobre as relações afetivas, dizia que “a relação entre os seres humanos provoca uma troca de energia”. É uma energia que reverbera durante dias, nos pondo para cima ou para baixo, dependendo da pessoa com a qual nos relacionamos.

É, sem duvidas, uma visão voltada para o lado mais exotérico da vida, mas não deixa de ser uma forma muito interessante de olhar para essa realidade. Segundo essa mesma teoria, a energia que cada um de nós reverbera, traduz muito do sentimento que é alimentado, em função do momento e da representatividade de cada uma dessas relações.

Quanto mais próximas duas pessoas se posicionam, mais profunda é a troca. A intimidade condiciona a um contato maior, e a pele desnuda quase não oferece resistência, por isso essa energia flui com muito mais facilidade. E essa é uma troca que provoca tanto satisfações como danos.

Nos casos em que a relação não tem interação nenhuma, logo depois do prazer se segue um abismo existencial, o vazio da falta de laços. Um tempo interpretado, quase em sua totalidade por um incomodo, por um vácuo de sentimentos. Naquele momento o melhor que poderia acontecer é a pessoa que está ao lado sumir.

Mais essa sensação de querer que outra pessoa desapareça, me foi dito, é uma sensação muito mais masculina. Para as mulheres, esse vazio tem outra vertente.  Para as mulheres, também vou usar o que me foi dito, esse vazio provoca uma sensação de fragilidade.

A sensação de distanciamento e de indiferença da outra pessoa, causada por esse prazer torpe, acaba causando um destroço na autoestima, e em boa parte esse descaso provoca também um asco. 

De uma forma geral, fica claro que essa é uma situação, o vazio do sexo vazio, que não é confortável para ninguém. As relações deveriam ganhar intimidade partindo de uma dose qualquer de sentimento. Que seja uma boa dose de amizade, por exemplo.

Nós temos um monte de gente que se sente solitária e que, ao invés de se abrir, de buscar relações honestas, sinceras, mesmo que somente de boas amizades, se deixam levar pela solidão. Essas pessoas acabam tão carentes, que, de uma forma qualquer, se sujeitam a essas trocas, digamos assim, a baixo preço.

O fato é que, por egoísmo, ou podemos chamar de excesso de acomodação, nós estamos construindo uma sociedade de relacionamentos “superficializados”. Relacionamentos com um mínimo de compromissos, onde o foco básico é suprir as carências de sexo e solidão, e, nesse último caso, somente até que a presença do outro incomode.

É certo que, na medida que convivemos com outra pessoa, vamos unindo nossos pedaços de vida. Vamos cedendo partes da vida, como em pedaços de corda em que vamos dando laços. Cada um cede o pedaço que dispõe, e recebe do outro da mesma forma.

Em cada nó, o pedaço doado por um não é exatamente igual ao que foi doado pelo outro, e por isso esses laços não vão ficando uniformes. Quem tem mais, quem pode mais, acaba oferecendo mais de si à relação.

Isso não representa nada de ruim, é uma história que vai sendo construída. Em cada etapa é possível avaliar os acordos e, quem sabe, ajustar melhor os laços, desfazer o que não for tido como necessário, e atar outros que possam ser vistos como interessantes.

Talvez por conta do meu momento de vida, eu vejo hoje que uma boa relação tem a necessidade de uma extrema transparência. A franqueza, o fato de poder ser honesto comigo mesmo e com a pessoa que está ao meu lado, é o que pode fazer toda a diferença.

Se esse não é o caminho que leva a uma relação sólida, pelo menos esse é o caminho que evita as frustrações. Eu penso que todo mundo merece uma troca de energia positiva, aquela troca que no final do ato, ao invés do vazio, fica na verdade um gostinho de quero mais.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

terça-feira, 18 de abril de 2023

A Vaidade que Mutila!


Eu parto do princípio de que a beleza tem sua graça. Não tem como deixar de entender a importância da vaidade. É bonito de se ver uma pessoa bem-vestida, melhor dizendo, vestida de forma bem adequada, uma roupa bem trabalhada para o corpo da pessoa e para a ocasião e o que se segue a esse raciocínio. Nada é mais bonito que uma boa apresentação.

No entanto nada disso pode ultrapassar a barreira do que é lógico e saudável. No meu modo de ver, a vaidade tem que sempre estar no limite do conforto, da comodidade, do que realmente deve e pode lhe proporcionar prazer e felicidade. Sempre que isso estiver em jogo, é melhor repensar. A exigência da vaidade pode ter passado do ponto e tudo aquilo que se torna excesso, que passa do limite, acaba por fazer mal.

Nem todas as pessoas entendem esse limite. Mesmo a vaidade tendo uma grande ascensão entre os homens, ela ainda é bem mais acentuada nas mulheres. Ter tudo certo, do jeito certo, começa a parecer uma necessidade tão desmedida que, até os diferenciais, aqueles diferenciais que nos tornam seres únicos, deixam de ser respeitados. 

E é essa vaidade que escraviza que acaba mutilando. A poucos dias saiu, em mais um noticiário, o caso de uma modelo que faleceu em uma dessas cirurgias absurdas. Uma lipoaspiração de uma barriga que, digamos, era o ideal de beleza para muitas outras mulheres. Literalmente esse é o excesso ao qual fiz a referência.   

Outro dia, em um grupo de amigos, as amigas, mulheres bonitas, estavam falando do uso do Botox como se isso fosse uma coisa simples, natural. Elas tratavam isso de forma tão simplória que mais pareciam estar falando do uso de uma maquiagem. Aí me veio à cabeça: quantas pessoas eu conheço que hoje tem o rosto desfigurado pelo uso exagerado do Botox.

Não sou especialista em estética, não conheço os limites do uso deste ou daquele produto, mas sou capaz de reconhecer as pessoas que vão ficando sem expressão facial. O rosto acaba ficando de uma forma tal, como se fosse plastificado, que tanto faz se ela está rindo ou chorando, não faz diferença à expressão é a mesma.

Peço desculpas pela forma de tratar a coisa. Aqui nada mais estou que chamando a atenção para um fato. A beleza física, a estética pode até atrair olhares, mas não é ela que vai encantar ninguém, principalmente se for de plástico. 

Não estou fazendo nenhuma crítica ao trabalho dos cirurgiões plásticos, apesar dos que colocam o dinheiro em primeiro plano, muito menos das cirurgias, que em muitos casos reparam danos que fazem a diferença na vida das pessoas. Cirurgias que resgatam a autoestima e que devolvem a condição, mesmo que parcial, de normalidade de vida para muita gente.

O meu chamado de atenção cabe exclusivamente às pessoas que se deixam levar pela cobrança exagerada da perfeição. Pessoas que se deixam levar pela imagem que elas apresentam nas redes sociais. Uma imagem retocada, uma beleza que não existe.

Ficou tão fácil mexer com as imagens, deixar tudo do jeito que o padrão da beleza cobra, que a realidade apresentada pela imagem diante do espelho, se torna angustiante. De uma forma mais grosseira, isso tem provocado uma negação do que é a realidade, a realidade que as pessoas enxergam diante do espelho.

Essas pessoas vão aos poucos se angustiando, se deprimindo com a verdade da vida. A vida boa está logo ali, na postagem, na ficção, na falsa sensação de felicidade que ela apresenta aos amigos. Elas começam a querer que a imagem das redes sociais seja a que vale, como se essa fosse a imagem real.

Eu acho que o maior e melhor exemplo disso tudo é o Michael Jackson. Não sei os motivos, mas em nível do senso comum, ele foi um cara que modificou tanto a imagem do rosto, que acabou se mutilando. Mais uma vez, não estou fazendo um julgamento. Isso é só uma constatação.

E assim como ele, muitas outras pessoas vêm se mutilando. Cada um tem seus motivos, seus desejos, suas vaidades e cada um tem, da mesma forma, suas responsabilidades. Somos responsáveis pelas nossas atitudes, e pagamos, indubitavelmente, o preço cobrado por elas.

Embora eu seja uma dessas pessoas que prega o respeito pela forma de pensar de cada um, me senti incomodado com a conversa das minhas amigas e a forma de utilização desse tratamento estético de forma bem específica. E foi por isso que eu resolvi abrir um raciocínio sobre o tema.

Somos um conjunto de valores e, mesmo sem querer tirar a importância da beleza, eu queria chamar a atenção de que tem coisa mais importante nesse conjunto. Existem outros valores dentro de cada um de nós que se somam e que nos fazem muito mais que um rosto bonito.

Eu queria, de uma forma qualquer, gritar que olhar só para a beleza física está errado, que, nesse conjunto de valores, tem muito mais o que ser visto. Minha eloquência com as palavras e o meu conhecimento não me permitem uma maior profundidade sobre o assunto, tenho medo de expor alguma informação indevida.

Gostaria, então, de fechar com um texto muito bonito que encontrei, e que faz referência sobre o assunto, um texto da Mônica Denise Viana de Barrios. Ela disse: “Temos a tendência de nos atrair pela beleza, mas logo em um segundo instante, já nos sentimos ligados à essência das pessoas, pois é a alma que nos encanta”.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

terça-feira, 11 de abril de 2023

O desabrochar da sexualidade!

Eli passou pela centésima vez diante do espelho. Ela conferiu mais uma vez a barra da calça, o formato que a blusa estava dando aos seus seios, a maquiagem, se os cachos do cabelo estavam do jeito que ela queria. Era tudo mera formalidade, mas mesmo assim ela não conseguia se convencer. Tinha sempre uma sensação de que ainda faltava alguma coisa no ar.

Aquilo não era insegurança. Não mesmo. Eli sempre reclamava de alguma coisa, mas eu acho que era só para que alguém lhe reafirmasse o tamanho da beleza que ela esbanjava. Ela gostava da imagem que o espelho lhe apresentava, embora sempre tivesse um detalhezinho que ela quisesse corrigir. Mas isso é coisa de mulher mesmo, né?

Quando o Luide chegou, ela deu aquela respirada, se concentrou e correu para a porta, foi recebê-lo. Eles se entreolharam, sorriram um para o outro, como se não acreditassem que aquele sentimento tinha tomado conta deles, e deram aquele selinho bem básico.

A área lateral da casa de Eli era o espaço de junção das casas da família. A casa dos avós que os filhos vão ocupando. Eles constroem as casas e o que fica no meio delas acaba se tornando o espaço comum para toda a família. Eli morava no que se pode chamar de condomínio familiar. O que sobrou do terreno entre as casa acabou se tornando ideal para os festejos e, porque não, para namorar também.

O casalzinho estava bem empolgado com o andar do relacionamento. Eles conversavam, conseguiam se entender e vinham até então tendo boas negociações com as divergências de pensamento. Eles conversavam sobre uma diversidade de coisas, e sexo já não era um tabu entre eles.

Embora as situações ainda fossem muito novas, o volume que se formava nas calças do Luide, digamos que, a cada beijo mais chegado, já não era nenhuma supressa para a moça. Ela também sentia os efeitos dos hormônios borbulhando no seu corpo e, para não deixar o rapaz embaraçado demais, fazia questão de corresponder ao desejo dele.

Lógico que, com o passar do tempo, a intimidade vai crescendo e a confiança mútua no relacionamento também. Isso, da forma mais natural possível, faz com que eles se sintam à vontade, e comecem a vencer as barreiras naturais que a sociedade impõe para a sexualidade das pessoas, muitas vezes sem muita explicação.

Eli era uma menina de boa formação. Seus pais eram muito ligados a sua educação e eles entendiam cada passo do desenvolvimento da sexualidade da filha. Eles estavam sempre buscando orientá-la da maneira mais transparente possível. Os pais de Eli ainda se consideravam apaixonados, e, por isso mesmo, conseguiam passar para ela essas questões de uma forma muito bonita.

 

Mesmo assim, e como um casal responsável, os pais de Eli tinham toda a atenção e preocupação com a filha. Eles não queriam que ela passasse da conta, ou que ela avançasse nenhuma das etapas da vida de uma forma indevida.

Luide também não era um menino à toa. Mesmo assim, ele sofria as questões da sexualidade que são impostas aos homens pela sociedade, pelos amigos, pela família e por que não dizer, pelos próprios pais. Os homens acabam tendo a sexualidade tratada na base da porrada mesmo. É como se, por ser homem, você já nascesse sabendo o que fazer e como fazer.

De uma forma qualquer, o Luide, fugindo de todo esse prognóstico, tinha uma visão romantizada da sexualidade. Ele tinha um respeito muito grande pela Eli. Ele desejava, curtia os momentos ao lado dela, deixava fluir a energia natural da idade. Só que ele se preocupava com a situação. Ele mesmo não se permitia qualquer conduta indevida.

Sexo, entre eles dois, mesmo sendo um casal ainda muito jovem, era um assunto já facilmente debatido, e tudo o que vinha acontecendo, apesar das empolgações, passava pelo acordo do que deveria ou não acontecer entre eles. Não acontecia nada sem uma espécie de consciência prévia que eles dois iam formando. 

Naquele dia, a empolgação do casal deu um pouco mais de “pilha” ao desejo. Eles já tinham conversado bastante, inclusive sobre uma situação indelicada que aconteceu com outro casal, um casal de amigos. Como entre eles o respeito era um sentimento muito latente, eles se permitiram mais. Acho que isso faz parte, e que é o andamento natural de todo relacionamento.

Atentos a tudo, os pais de Eli se apresentaram. De uma forma muito descente, eles se fizeram notar com antecedência, na tentativa de evitar o constrangimento do casalzinho.  Era difícil, o constrangimento deles foi muito direto e, embora não tenham sido pegos, por assim dizer, com as calças na mão, a simples presença dos pais já era demais para a situação.

Os pais de Eli foram contornando a situação. Eles falaram de muitas coisas antes de chagar ao assunto devido, e trataram a coisa da forma mais natural que se pode imaginar. Como um casal adulto, eles deram um depoimento de todo o processo de construção da vida a dois. O processo que eles mesmos tinham vivenciado.

É difícil você se colocar como exemplo. É difícil você, com a honestidade devida, e sem querer só as glórias por tudo o que fez ou conquistou, ser capaz de assumir os erros que cometeu. Eu penso que mostrar o peso dos erros cometidos, e tudo o que se teve a necessidade de fazer para contornar, é mostrar muito equilíbrio.

Pois esse foi o grande feito dos pais de Eli. O equilíbrio mostrado por eles fez a diferença. Eli e Luide se olharam no espelho no dia seguinte sem culpa. Eles não passaram do ponto naquela noite por pouco, mas no fundo eles sabiam que aquele momento ofereceu para eles muito mais.

Eli e Luide tiveram nas mãos o apoio, o carinho, gente que ofereceu a ajuda mais do que necessária para uma boa formação da história da vida deles. Foi por conta daquela intervenção que eles se sentiram prontos para ir mais longe.

  

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 

*Do livro: Era uma vez meu coração..........

 

Livro: Era Uma Vez Meu Coração

Capitulo 01: E Ai K dê meu ovo?

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html



 

terça-feira, 4 de abril de 2023

E ai, K dê Meu Ovo?




Bem cedinho da manhã, Eli ainda lutava contra a preguiça. Transitava entre a lucidez da beleza do dia de sol e o abraço dos lençóis e travesseiros, que insistiam em mante-la na cama. Ela ansiava por aquele dia, mas a preguiça agia com a força natural que era capaz de exercer sobre todo adolescente.

Eli era uma adolescente bem apresentada. Tinha uma beleza capaz de atrair os olhares dos meninos, muito simpática e comunicativa. Ela era aquela pessoa muito bem aceita em todos os círculos dos quais fazia parte. Digamos que uma menina de uma vida bem razoável.

Mas aquela manhã era especial. É que Eli tinha recém começado um namoro. O “carinha” já a vinha cercando há algum tempo, e ela, por pura precaução, demorou a ceder aos encantos do rapaz. O sujeitinho era aquele tipo cobiçado, o gostosão que pairava pelo desejo de quase todas as suas amigas.

De certo que mexia com o desejo da menina também, e ela, entre a vontade de ficar com ele e todos os comentários negativos sobre o que seria namorar com aquela figura, sofria a angústia de ter que tomar uma decisão e assumir, diante das amigas, as consequências. 

Pois aquele era o dia. Aquele era o domingo de Páscoa, o dia do encontro da família, e o dia em que o tal garoto ia se apresentar, ou seria apresentado. A bagunça na cabeça da menina já não deixava o pensamento fluir normalmente, e a ansiedade tomava conta até da sua respiração.

Ela não sabia se sorria ou se chorava quando Luide se aproximou do portão. Ele chegou todo bonitinho, vestido de forma simples, como era conveniente para a ocasião, em um estilo bem casual, mas muito apresentado. A sua simpatia não conseguia esconder o nervosismo natural da situação a ser enfrentada.

Não tinha como ser diferente. Ele ainda era um menino se jogando em uma situação delicada, enfrentando com a cara e a coragem os desafios que a família da moça certamente o iria impor. Claro que não poderia faltar, para agravar a situação, um sujeito mais sarcástico que vem fazer piadas e perguntas indelicadas, para pôr a pessoa em uma saia justa.

Eles até tinham se preparado para isso. Eli tinha repassado as possibilidades desses acontecimentos, e prevenido o Luide de quem seriam as pessoas brincalhonas. Ela preveniu sobre os tios que instigariam os pais dela, os primos e primas mais gaiatos e as pessoas mais suscetíveis às brincadeiras provocadoras.

Mas, o Luide chegou. A mãe de Eli foi recebê-lo, e fez questão de conduzi-lo sob seus cuidados. Ele trazia, na mão, flores. Uma cortesia que ele pensava em destinar a Eli, e, à mãe dela, um ovo de chocolate. O ovo era para homenagear a namorada recém-conquistada.

Só que quando a situação foge de todo e qualquer script razoavelmente possível, o nervosismo toma conta da situação, e o raciocínio não consegue se fazer ouvir. Sabe quando simplesmente não tem como fazer tudo o que você tinha pensado, pelo menos não exatamente como você tinha pensado?

Fugiu do controle. Antes mesmo de ele chegar junto de Eli, o grupo dos primos e primas tomou conta da situação. Eles tinham preparado uma verdadeira loucura de amor para anunciar o namoro da priminha querida. Uma brincadeira que deveria quebrar, de uma vez por todas, o gelo do rapaz para com a família da moça.

Tomaram as flores e o ovo de chocolate das mãos do Luide, e carregaram o rapaz para o palco da festa. Seguraram Eli até posicionar o rapaz no palco, e depois levaram ela para o meio do salão. Forçaram a barra para que o rapaz fizesse o pedido de namoro ali, na frente de todo mundo.

Só não foi pior porque o pai da moça, percebendo o sufoco em que tinham metido o rapaz, subiu no palco. Ele chegou junto, acalmou o Luide e deu a ele o apoio necessário para encarar a brincadeira. A mãe também chegou junto da filha, apoiando, mas sem fugir da situação. Eles fizeram com que a coisa acontecesse bem.

No final das contas, ao invés do Luide, quem fez a declaração de amor foi o pai da Eli. O casal falou de todo o início do namoro, contou a sua história e refez os seus votos, inspirados no início da relação de namoro da filha. Eles abraçaram os dois meninos, e depositaram as melhores energias possíveis naquele início de relação.

Foi aí que o pai da Eli desfez a bagunça do início da festa. Ele trouxe de volta as flores, que o Luide gentilmente distribuiu entre a mãe e a filha, assim como também o ovo de Páscoa. Nesse momento, o rapaz, já sem mais nenhuma cerimônia, fez o pedido de namoro e entregou o bendito ovo de Páscoa a Eli.

Só que um grito de ”PERA AÍ”, interrompeu tudo. Era a mãe da Eli. Foi ela quem olhou para o marido e perguntou: E aí, cadê meu ovo?!

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

*Do livro Era uma vez meu coração



 

terça-feira, 28 de março de 2023

“A Intimidade Artificial”


Ponho o título entre aspas para deixar bem claro que estou fazendo uso de algo que não é uma criação minha. Mais ainda, digo que fiz questão de colocar dessa forma por ser um tema recorrente nos eventos que tenho participado.

O mais fascinante é que ele vem sendo abordado desde eventos colegiais aos eventos coorporativos. Definitivamente é uma temática que tem tirado o sono, vamos dizer assim, de todo mundo. Uma discussão que ainda precisa ganhar força.

Recentemente, vi o assunto como pauta de uma reunião na escola da minha filha. Os professores falavam do desafio de controlar o uso das tecnologias. Que essa era uma porta indispensável para as pesquisas e para o acesso à informação, mas que isso permite a fuga da atenção dos alunos.

Eles mostravam o quanto o mundo virtual, e essas relações digitais, eram responsáveis pela desatenção dos alunos para com os objetivos das aulas. A tecnologia não só era uma porta que possibilitava a ruptura do aprendizado, como também introduzia informações distorcidas na sala de aula. 

No mundo coorporativo, assisti a uma palestra que apresentava o excesso de informação e a perfeição da vida emoldurada pelas redes sociais, como um dos maiores motivadores da depressão. Que as pessoas entravam em conflito existencial quando comparavam a perfeição de vida, projetada nas redes, com a realidade de vida delas.

De frente para o espelho, a imagem que era projetada, a realidade de vida daquela pessoa, impunha uma crueldade inaceitável. Um gatilho gigantesco para a crença de um mundo inconcebível e a completa ausência de petencimento. O ponto de partida para toda e qualquer distorção de comportamento que você queira imaginar.

A palestrante conseguiu contextualizar, de forma magnífica, a falta de preparo da humanidade para esse momento. O excesso de informação que chegou como uma onda gigante, e que ninguém sabe exatamente o que fazer com ela. Não estamos preparados para processar tanta informação e de forma tão rápida.

Para fechar, recebi de um amigo um texto falando de uma palestrante norte americana, uma pessoa especializada em relações humanas, que, em um evento de tecnologia, roubou a cena ao falar da “Intimidade Artificial”.

Seu argumento é que estamos vivendo nossas vidas em permanente estado de atenção parcial. Que nós não conseguimos mais nos relacionar de forma autêntica, e que estamos o tempo todo divididos, divagando na realidade das nossas redes sociais. Que esse é o maior motivador da ausência de uma intimidade real.

 

Ela se refere a essa artificialidade da relação quando mostra o quanto o uso das redes sociais, do celular, é capaz de permitir a fuga sempre que uma situação se apresenta inadequada. É como se a pessoa tivesse na mão uma forma de anestesia seletiva que ela pode acionar sempre que se sentir desconfortável.

Reconheço que não sou nenhuma autoridade no assunto, e que minha menção vem do senso comum. Mas como observador, qualquer ser mais analógico é capaz de perceber o desvio de conduta quando, em uma mesma mesa de bar, quatro pessoas se utilizam de mensagem para uma troca de informação.

Chamou-me a atenção quando uma mãe, com uma criança de 10 ou 11 anos, respondia às perguntas do médico, que por acaso consultava a menina, enquanto essa se mantinha ligada ao telefone. Era como se, fora o corpo físico, a filha não estivesse ali e a consulta não fosse com ela.

Não pode passar despercebido o quanto as crianças estão sendo impelidas e se fechar em um aparelho. É como se eles se mantivessem fora da realidade, sem a necessidade de participar das situações. Sem relações diretas, sem cumprimentar as pessoas, sem a necessidade de interagir.

Nesse meu senso, mesmo sem nenhuma especialidade, não consigo ver um mundo feliz sem as relações humanas. Conflitos, articulações, negociações, direitos, limites, cidadania, civilidade, ou simplesmente troca de sorrisos, não se pode pensar um mundo sem essas vivências.

E aí eu vou fechar meu texto com a fala da Dra. Ester Perel: “Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana”.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 23 de março de 2023

O lixo nosso de cada dia!


Dos quatro cantos da Praça João Gentil, a esquina das ruas Waldery Uchoa com Paulino Nogueira se transformou em um deposito de lixo. É como se aquele canto tivesse sido estabelecido como o lixão da praça. É impressionante a facilidade com a qual o lixo aparece nesse canto.

Não faltam dedos para apontar os motivos de como isso tudo começou. Por mais que a prefeitura atue, nesse caso não podemos dizer que ela não faz a sua parte, não se consegue passar um só dia sem que ali seja depositado o lixo dos bares, restaurantes, assim como das casas do entorno da praça, para não ser injusto.

Para quem frequenta a praça há mais tempo, sabe que o problema foi sendo construído no dia a dia, e que é fato que a colaboração dos bares da região foi muito grande.  Todos os dias, os usuários da praça testemunham as garrafas secas, os espetos de madeira utilizados, os resto de comida e outros dejetos característicos dos desses bares.

Isso não isenta os moradores que, como foi dito, são flagrados fazendo o descarte de uma variedade de objetos. É que a comunidade, os moradores das casas da vizinhança, ao invés de combater, corrobora com o acumulo do lixo no canto da praça, mesmo sendo impactada diretamente com o efeito nocivo dessa ação.  

Esse aspecto causado pelo lixo se soma aos bancos quebrados, aos aparelhos da academia da praça cheios de problemas e mais os detalhes da falta de manutenção, para transmitir a ideia de abandono do espaço. Isso para fechar o estigma do “ninguém liga” que cai sobre a nossa praça.

A praça é usada diariamente por uma boa diversidade de público. É um local de atividade física, uma área de laser para as crianças, tem feiras, venda de roupas e um mundo de atividades culturais. Não tenho dúvida em afirmar que é uma das praças mais movimentadas de Fortaleza.

Nós estamos falando de um ambiente que mistura a maturidade dos moradores de um bairro já antigo, de moradores estabelecidos há décadas, com toda a juventude dos estudantes. Sendo esse público jovem, um público que se renova ano a ano, por conta da universidade, do instituto federal e dos centros de cultura.   

Eu sou parte dos que utiliza a praça para atividade física todos os dias e que, por isso mesmo, quero trabalhar na busca de uma boa solução para essa questão. Sou um dos tantos que querem ver a praça bem apresentada.

 

Também sou cliente desses mesmos bares citados e, por isso, levanto a bandeira de que chega a hora de buscar, entre eles, um salvador da pátria. Não seria difícil começar uma mudança, se um desses empresários resolvesse assumir a responsabilidade e adotasse formalmente a Praça João Gentil.  

Tenho certeza de que o ganho de imagem compensaria o investimento. Imagine o quanto esse empresário seria bem-visto. De uma forma bem significativa, a propaganda institucional, nesse caso, poderia oferecer a essa empresa o carinho de muitos moradores e frequentadores, consumidores diretos desses bares e restaurantes.

Digamos que uma atitude como essa seria capaz de capitalizar os méritos para a sua empresa. De uma forma bem lúdica, esse empresário estaria transformando lixo em reconhecimento.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)





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terça-feira, 14 de março de 2023

Um Sonho de Família!


Eu achei emocionante, pela maneira com a qual ela se expressou, quando li o comentário da mãe de uma amiga, sobre o relato do sonho de vida da filha. A mãe ressaltou a beleza desse sonho, com o pedido de licença para se incluir. Era como se existisse a necessidade de pedir licença para poder fazer parte da vida da filha.

Aquela declaração destacou a beleza da projeção de felicidade que a filha tinha descrito. O sonho de uma vidinha simples, em um local aconchegante, sem pompas, com o abastecimento das necessidades materiais mais básicas e um mínimo de conforto necessário.

Só que, no texto, a felicidade vai sendo descrita em uma conjuntura de fatores, que enfatiza o espaço físico como símbolo dessa felicidade. O local acolhedor invoca o romantismo do que é “um amor e uma cabana”, e esse é o ponto do questionamento que acabei fazendo. 

No meu modo de interpretar as palavras da filha, nas entrelinhas, ela ressaltou a ternura do convívio familiar. E o que é mais forte, um convívio que a própria mãe proporcionara durante a vida toda, mesmo sem todo o aparato e as condições necessárias.  

A filha descreveu uma cena em que o café quentinho envolve a casa com o seu cheiro, dizendo que esse odor, por si, era acolhedor. Na minha visão, ela estava simplesmente resgatando uma memória afetiva. O cheiro podia até remeter a uma sensação gostosa, mas acolhedora, na verdade, são as mãos que sempre serviram o café.   

Nunca uma tapioca com manteiga vai ter o gosto descrito pela minha amiga, por mais eloquente que sejam as suas palavras, se a mesa não estiver rodeada de gente, de conversas soltas e muito carinho. Isso sim, na verdade, se traduz em um sentimento de plenitude de vida e de felicidade.

Não quero aqui questionar os sentimentos da minha amiga. Eu sei o quanto ela é emotiva. De coração, eu quero somente chamar a sua atenção para o foco. Esse sonho nunca vai ser encontrado assim, por conta de um cenário, por mais que ele pareça apropriado.

Esse sonho, e eu já tive a oportunidade de dizer a ela, nasce de uma ação acolhedora, da atitude das pessoas que sabem abraçar, muito mais do que um espaço físico possa apresentar.

Enumerando todos os casos em que eu vi pessoas com essa relação de pertencimento, é perceptível que o espaço físico nunca fez diferença. Esse é um ambiente que somente vai se moldando e se caracterizando pela ação de acolhimento.

Ele vai sendo criado pela disponibilidade, pela boa vontade e por um conjunto de fatores que nem sempre dá para explicar. Esse espaço vai se transformando e, de acordo com as necessidades, vai se adequando para que possam caber nele um conjunto de vidas.

Esse é o espaço em que a sensação de aconchego tem um valor imensamente maior que o conforto físico. Nele o vão mais importante é o do abraço. Tal lugar só existe no coração, e é ali que todos querem estar.

Todos nós, eu acredito que sem muitas exceções, gostaríamos de terminar a existência terrena dentro de um desses círculos de amor. Terminar a vida entre as pessoas que se importam e com a segurança do convívio familiar. 

Por isso, sem querer ser grosseiro com a minha amiga, eu digo que o pedido de inclusão, feito pela mãe, nada mais era que um chamado de atenção. Ela estava somente mostrando para a filha que tudo aquilo que estava descrito, ela já tinha nas mãos.

É que o melhor lugar do mundo tem uma ligação direta com o amor, com o calor humano e com a troca de energia das pessoas que se gostam.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 


 

terça-feira, 7 de março de 2023

Dilemas Éticos da Pluralidade Social!


 

O carnaval é sem duvidas a festa da liberdade, a festa da carne, da permissividade. E é por isso mesmo que é nele onde se apresentam, de forma mais clara, toda a nossa pluralidade social. De uma maneira bem ampla, as pessoas se desnudam e expõe as suas maiores intimidades, deixando a mostra toda a sua alma, a essência do seu “EU”.

Também, e exatamente por conta dessa exposição, que uma diversidade de situações, de dilemas sociais, acaba se apresentando, vindo à tona. São manifestações derivadas das novas condições sociais, desse movimento dinâmico de vida que nos obriga a repensar e nos adaptar a essas novas questões comportamentais que emergem.

Vivemos um embate permanente entre a parte mais progressista da sociedade e a parte mais conservadora. Eu diria que, dentro de um todo, as duas partes acabam tendo muito valor. O que seria do desenvolvimento sem a parte mais progressista, e o que seria da história sem a parte mais conservadora.

Nesse processo de desenvolvimento, nem todos os comportamentos são tão fáceis de serem aceitos, de serem compreendidos, ou até mesmo de se moldar à realidade da cultura social que nós vivemos. Sempre vão existir os dilemas práticos que toda mudança comportamental carrega.

A questão do uso do banheiro é um dos exemplos do que é essa discussão. Não dá para se ter uma opinião, ou para se definir uma questão como essa sem muita conversa. Tudo o que for pensado deve levar em conta o RESPEITO, com todas as letras maiúsculas, sobre o direito e o sentimento individual de cada pessoa. Não se pode deixar de levar em conta as implicações sobre a coletividade. 

Uma pessoa, num corpo físico de um homem, que se identifica como mulher, pode usar o banheiro feminino? Uma pessoa, em um corpo físico de mulher, que se identifica como homem, vai usar o banheiro masculino? Como vai se sentir a mulher, com a presença de uma pessoa com o corpo físico de um homem no banheiro? O que pode acontecer com uma pessoa com o corpo físico de mulher em um banheiro masculino?

Pensar, conversar e discutir sobre o assunto, pode propiciar o encontro das melhores possibilidades, o encontro das saídas mais adequadas. E isso é o que cabe para uma série de questões dentro do que é a convivência social.

Não é simplesmente impor o que um ou dois acham, ou o que é a condição mais conveniente para uma meia dúzia. O meu comportamento como ser individual, deve ser respeitado, e eu, da mesma forma, devo respeitar o sentimento e o comportamento das outras pessoas. Ninguém precisa, ou tem o direito de agredir ninguém.

De uma forma qualquer, a diversidade carrega consigo o sentimento de plenitude da vida. Ela funciona como um espelho da alegria, e o “grosso” da sociedade enxerga isso com muita clareza. Na sua grande maioria, a sociedade enxerga esses dilemas e pensa sobre eles, independente de se posicionar mais conservador ou mais progressista.  A sociedade, como um todo, é tolerante, por assim dizer.

Só que, à margem desses dois lados, tem um público que abdica dessa tolerância, um público que não se conforma com o fato dos demais divergirem do seu pensamento, e que faz questão impor a sua verdade. Eles agridem, como se isso fosse capaz de provocar a aceitação.  

A maior parte da sociedade, a parte onde eu mesmo me enxergo incluso, busca o seu espaço, as suas conveniências, mas procura entender e valorizar o espaço dos outros. Mesmo tendo uns mais arraigados com as ideias conservadoras e outros que tem a necessidade de criar, ou, por assim dizer, de abrir os seus espaços, existe uma interseção de pensamento e uma tolerância que possibilita a convivência harmónica.

Os que agridem, os que precisam ferir para defender suas posições, fazem parte do grupo mais tóxico da sociedade, do grupo que faz questão de se pôr à margem, independente do lado da corda em que eles estão. São pessoas que não se abrem para pensar com os demais, não conseguem uma argumentação lógica, e por isso querem forçar o seu raciocínio no grito, na pancada. 

Normalmente, esse é um comportamento que chama muito a atenção. Nós notamos e acabamos dando ênfase a esse tipo de comportamento. Por isso, acabamos por percebê-los com uma conotação de grandeza maior do que deveríamos.

A questão que nós precisamos entender é que dentro do círculo estão a maioria das pessoas. É aqui que está a maior força da sociedade. Nós precisamos olhar melhor uns para os outros, valorizar essa pluralidade, nos dar as mãos para construir uma barreira contra todos esses que buscam se colocar à margem, e que fazem questão de ferir e machucar a sociedade como um todo.

Nunca devemos parar no tempo. Precisamos da dinâmica social, da evolução, mas nunca devemos deixar que a tolerância, que a possibilidade de olhar para o lado, se perca na individualidade, no egoísmo do ser humano.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...