quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A irradiante energia da cumplicidade


Ter nas mãos uma relação que fosse capaz de vencer as “contracepções” da vida cotidiana, isso é o máximo! Uso contracepções como forma de ilustrar as questões que dificultam a semeadura da cumplicidade, da confiança e dos fatores que consolidam uma relação. Os fatores que fortalecem e fazem a cumplicidade ser assim irradiante.
 
Quando nos unimos a alguém, influenciamos, provocamos mudanças, oferecemos novas formas de ver e de sentir a vida. Apresentamos novos caminhos e, não tem como escapar, acabamos modificando a vida do outro. Isso nos imputa responsabilidade, quer queira ou não, deixamos grandes pedaços de nós e levamos pedaços do outro no final da relação.  
 
Mesmo rompendo com esse compromisso, penso eu que nunca vamos nos eximir por completo dessa responsabilidade. Essa noção me foi fortalecida agora, quando eu recebi a notícia do falecimento de um dos parceiros, um dos parceiros de uma dessas relações de vida. Alguém com quem eu tive, posso dizer, o privilégio de conviver uns dias.
 
Eu me deliciei em poder observar a relação e a energia mágica do compromisso que eles assumiram por mais de 60 anos. Nem vou querer aqui retratar a paixão. Em uma história tão longa, sentimentos voláteis como esse nem cabem mais, não aparecem, não fazem mais diferença.
 
Ali se apresentava, a todo momento, o sentimento jocoso da empatia, do compromisso assumido de coração, do fato de que um era literalmente problema do outro. Falo problema, unicamente, como laço de vida, como a responsabilidade sem limites, dessas que a gente só assume mesmo por um filho.
 
Era como se tudo o que ele fizesse resvalasse nela e vice-versa. Eles não paravam de cuidar, de se importar, e porque não dizer de implicar com o que o outro fazia. Eu o vi incomodado, sem canto, sem saber onde ficar. Foi quando a filha, ao perceber minha atenção, disse: “isso é só porque ela ainda não chegou, ela ainda está se arrumando. Enquanto ela não chegar, ele não se aquieta e não faz nada”.
 
E foi exatamente isso. Foi só ela chegar que ele sentou, encheu o copo de cerveja e entrou na conversa. Aí ela deu logo na folga dele dizendo: “você não vá beber demais. Tenha cuidado para não encher a cara. É feio um velho bêbado”. Ele riu e disse: “lá vem ela, ô mulher para se incomodar com a minha vida”. Todo cheio, mostrando ao mundo que essa certeza era o maior prazer da vida dele.
 
Com ela não era diferente. Ela também não dava um passo sem a presença dele. Eu a vi perambulando na cozinha, mas o tempo todo ligada. Ela estava atenta para ver se ele chegava. Mesmo todo mundo chamando para ela vir para a mesa, e o lugar deles dois já reservado, ao lado um do outro, ela só veio sentar quando ele chegou.
 
Dentre tantas coisas que eu tive a oportunidade de observar, desde a forma de dividir um copo de água, eu vi neles a prerrogativa de vida, estabelecida nessa convivência. Eu vi a divisão do pedaço de pão, a atenção dele oferecendo o salgado da mesa, o cuidado dela com a gola mal postada. Era o mundo da vida deles.
 
Eu vi um emaranhado de emoções mergulhadas em uma troca, como se o objetivo básico de um fosse exclusivamente a comodidade, o conforto e a felicidade do outro. Um amor que não precisa de testemunha, que não já não ostentava beleza física, que não precisa de registros ou de provas, mas que encantou minha alma.
 
Como eu tive “inveja” daquela relação. Ponho a “inveja” entre aspas para deixar claro o sentido de admiração, mas denoto a inveja, porque de fato eu desejei para mim. Como não desejar uma relação que parecia não precisar de mais nada? Esse é o tipo de relação que reluz e que da mesma forma se basta. 
 
Quando soube da morte dele, imaginei o sofrimento dela. Veio a minha cabeça o tamanho da relação que eles construíram e consequentemente o tamanho do buraco desastroso que deve haver agora no coração dela. A divisão de dois corpos entrelaçados a esse ponto, a retirada de um da vida do outro deve doer, como se essa fosse “uma fratura exposta da alma”.
 
A partir de hoje, como propósito, e pela minha admiração, dirijo a energia das minhas orações pela plenitude da alma dele, pelo conforto do coração dela e para que a energia desse amor promova o encontro dessas duas almas em uma nova vida.
 
Não posso acreditar que uma irradiante força de cumplicidade como essa caiba na existência exígua de uma única vida.
 
 
Aélio Jalles (Lelo)








 

 
 


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O sabor da amizade


Eu quero agora, mais do nunca, levantar um brinde às boas amizades.

Meu primo, uma vez na comemoração de um dos seus aniversários, disse que o melhor daquele dia era a possibilidade de comemorar a vida junto dos amigos. Então, quero fazer dessas as minhas palavras, e poder nesse momento comemorar a vida e todas as minhas boas amizades.

Eu nunca gostei muito da solidão, até penso que tenho meus bons momentos comigo mesmo, mas nunca me prendi muito a essa linha. Eu penso que o isolamento é uma forma de exclusão, de autossabotagem, uma forma de você se eximir da possibilidade de ser feliz.

Na minha cabeça, o melhor da vida está ligado ao convívio com os amigos. Que é a amizade que proporciona o contágio das alegrias, e que os abraços sinceros renovam as nossas energias. Não pode existir nada melhor que a cumplicidade que só uma boa amizade é capaz de proporcionar.

Eu me considero um sujeito agregador. Eu participo de alguns bons grupos, e sinto a diversidade dos sabores desses relacionamentos. Sabores que o fato de caminhar junto vai desvendando e nos oferecendo, como que marcando o valor da presença que cada um tem na vida do outro.   

É um gosto que pode surgir de um gole de café, e de toda a resenha que acontece, por exemplo, nos encontros da turma da praça. São encontros que marcam uma amizade que transbordou os limites da praça e nos faz conviver mais intimamente, como parte integrante da vida uns dos outros.

São sabores que brotam dos brindes da cerveja gelada, mas que só servem de fato, se realçados pela cumplicidade dos demais sorrisos que rodeiam a mesa. Uma cumplicidade que até parece com sabor de tira gosto, pois que tempera a boca pela simples presença do amigo.

Ainda estamos vivendo alguns pontos do efeito da Covid e o afastamento de algumas pessoas que os processos de vida nos impuseram. E nessa ilustração dos sabores, é como se nos faltasse retomar alguns bons goles de cerveja e levantar mais alguns bons brindes. Uma “reapropriação” de algumas boas convivências.

Viver os amigos, reviver as boas amizades, as relações familiares e os amores. Já é cientificamente comprovado que vivenciar cada uma dessas relações, de forma intensa e continuada, é o que promove a melhor sensação de realização para a vida.  

Se a nossa estrada não é mais bonita, não podemos culpar a ninguém, as flores que estão nela, fomos nós que plantamos. Os amigos, esses podem até ajudar, eles podem nos oferecer algumas sementes e melhorar o que vem daqui em diante, mas o plantio depende de cada um de nós.  

Fazer amigos é como plantar mais flores na sua estrada. Cuidar e zelar por essas flores, é o mesmo que abraçar e reconhecer, no dia a dia, o valor de cada boa relação que você tem, e isso faz parte do melhor que a vida pode oferecer!

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 





 

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A cor da consciência


 

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da

sua pele, por sua origem ou ainda pela sua religião.

Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem

aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.

 

Nelson Mandela

 


Existe uma diversidade de movimentos no mundo em defesa das minorias, contra as segregações e todas as formas de discriminação. Chega a ser absurdo, nós ainda estarmos presenciando a necessidade de se ter que lutar por uma equidade humana. Isso é a maior demonstração do atraso que vivemos. 

O mundo é uma aldeia e nós dependemos uns dos outros. Não tem cabimento tentar distinguir-nos dessa forma, rotular-nos, impondo superioridade por essa ou aquela condição. Uma condição que de fato não confere nada a ninguém, a não ser o registro das facilidades que alguém recebeu de presente da vida.

Mais grave ainda é o uso das religiões para isso. Em sua grande maioria, as religiões vivenciadas no Brasil são derivadas do cristianismo. O Cristo, um judeu na sua essência, nascido na Palestina, um território Árabe, e que é a figura de maior representação do amor, segundo os mesmos religiosos.

O mesmo Cristo que pregou a igualdade, a irmandade, a solidariedade, o amor ao próximo, é usado para tentar justificar os atos de preconceito, de segregação. Será que ninguém mais para e pensa, ou será que eu estou “viajando”? Eu acho que quando alguém instiga esse tipo de raciocínio está negando todas as boas diretrizes dos ensinamentos de qualquer que seja a religião.

Eu reconheço as desigualdades do mundo. Reconheço a segregação, o racismo e as mazelas do comportamento humano. Reconheço a falta de oportunidades à que é sujeita uma boa parte da população, mas acho que isso só vai acabar quando a maior pregação deixar de ser a luta e passar a ser o respeito.

É necessário conversar, debater o assunto e montar os novos conceitos sociais. Essas adaptações da sociedade cobram que os conceitos sejam revistos de tempos em tempos. Essa é uma necessidade natural, eu só não posso acreditar que se possa consertar nada acentuando as diferenças ou querendo empurrar de goela abaixo a opinião individualizada de um ou outro.

Perdoem-me os ativistas, mas ferir o outro não compensa nada, não resgata nada. A dor aferida a alguém não vai curar as feridas do outro. Esse tipo de atitude só aumenta a segregação, amplia a polarização das ideias e gera efeitos colaterais graves.  

Eu sei que ativismo não necessariamente quer dizer violência. Existem muitíssimos tipos de ativismo, muitíssimas formas de reivindicar e lutar pelos direitos das minorias, eu só não consigo aceitar a justificativa da violência. Não se faz inclusão pela força.

Na minha humilde opinião, mesmo sendo branco, hétero e não favelado, eu vivencio uma série de situações onde esses posicionamentos provocam polarização e a necessidade de se tomar partido, como se essas coisas tivessem lado. Não consigo entender que uma pregação que faz distinção possa gerar uma educação de equidade.

Eu penso que é o respeito que vai acabar com as minorias apontadas. Eu sei que é um pensamento simplório demais, que para se chegar efetivamente a isso, nós precisamos de um processo educacional, da implantação de uma nova visão. Foi por isso mesmo que eu abri o texto com a citação do Nelson Mandela.

Como ele disse: “Ninguém nasce odiando”. E se ao invés de acentuar diferenças, nós educássemos pela equidade, sem a necessidade de se impor valores sobre as diferenças? Será que nós não extinguiríamos um monte dessas mazelas humanas? Será que o respeito não tornaria tudo muito mais igual em uma ou duas gerações?

Eu penso que enquanto estivermos realçando as diferenças, elas vão continuar existindo. O respeito concede, cede espaço e abraça a quem tem necessidade. Por isso eu acho que consciência não deve ter cor, credo, raça, nem nenhuma outra distinção, ela deve ser consciência, a consciência do respeito, da equidade e do amor.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 

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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

O efeito da gratidão


Na vida, nós temos muitos professores. Aprendemos as mais diversas lições e das mais diversas formas. Cada lição vem de uma situação de vida, e de acordo com as condições que temos na mão para aprender.

Um antigo chefe, em uma discussão, me disse que, para conquistar respeito, é preciso se impor. Que as pessoas nos respeitam pelo mal que somos capazes de causar. Mesmo não concordando com ele, eu não consegui dar uma resposta de imediato.

Eu precisei de algum tempo para conseguir digerir a informação e concatenar, o que na minha cabeça parecia uma incoerência. Aos poucos eu consegui entender, e hoje eu afirmo com todas as letras que não se pode comparar medo ao respeito. Isso é uma distorção de raciocínio.

Essa é uma pregação do livro O Príncipe, de Maquiavel. Ensinamentos poderosos para o domínio e o doutrinamento psicológico do comportamento humano. Ensinamentos que isentam a pessoa de qualquer sensibilidade, e que podem até oferecer resultados práticos, mas não duradouros.

Algumas duras lições, que são impostas de forma pesada, podem ser deveras inesquecíveis. Sob o domínio da força, como nos ensinamentos de Maquiavel, as lições ficam marcadas na mente, mas normalmente com mágoa, com dor. Quando puxamos por elas, resgatamo-las do coração com uma lembrança amarga.

Sei que devemos tirar proveito de todas as lições da vida, e que, independentemente da forma, todas elas têm seu valor. No entanto, as lições que nos são oferecidas com amor, com carinho, que nos são apresentadas com generosidade, essas ganham um lugar de destaque em nossas vidas.

A diferença mais forte de todas é que, quando nos deparamos com o autor dessas lições de força, lembramos com rancor. Temos por eles um ranço tão profundo, que se tivermos a possibilidade, oferecemos o troco, sem mesmo lembrar da valia do que nos foi ensinado.

Já daquele que nos ofereceu uma mesma lição, mas que dessa vez com o coração, lembramos com o carinho e o respeito de um grande mestre. Respeito, nunca medo, ou muito menos qualquer tipo de raiva.

Diante dessas pessoas, naturalmente nos tornamos mais receptivos, mais abertos. Os grandes mestres, são naturalmente reluzentes, são pessoas que emanam boas energias, que olhamos como exemplos, independente do tamanho, da condição social ou da força que elas possam apresentar.

Pessoas simples, ou não, os grandes mestres são pessoas cheias de gratidão. Hoje eu posso afirmar que, dentre todos os outros sentimentos, a maior base, ou a maior referência do respeito, é a gratidão. Naturalmente, quem é grato, respeita!

Quando se é grato, é fácil estender a mão. Por gratidão você se desdobra, porque divida de gratidão nunca perde a valia, nunca expira e nunca se esgota. Essa é uma divida que simplesmente se renova, a cada vez que é resgatada pelo coração.



Aélio Jalles (Lelo)




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quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Bem-vindo ao ano novo



Essa sensação de poder recomeçar, mesmo sabendo que a nossa história não está começando do zero, tem seu valor. Pôr um ponto final no que foi vivido, e começar a escrever um novo capítulo da vida. Isso nos provoca a sensação de sermos capazes de, daqui para frente, poder acertar mais.

O ano novo não é uma referência de carta branca para uma nova história de vida, muito menos a absolvição dos pecados cometidos, como se o ser supremo tivesse nos oferecido a desvalia do que nos vai ser cobrado por cada ato cometido. 

Não, não temos como nos isentar totalmente dos erros, isso é verdade, até porque eles foram cometidos de fato. Que eles então nos sirvam de lições. Que seja possível aprender o que tem e que deve ser assimilado, para que possamos melhorar o nosso parâmetro. Daí sim, dar início a um novo capítulo da vida, com muito mais sabedoria.

Segundo os Budistas, a paz de espirito acompanha as boas atitudes, as atitudes retas e sensatas. Eu então complementaria dizendo que elas também devem nos aproximar das boas companhias, das boas amizades, das boas energias e nos proporcionar uma boa harmonia com a vida. Ou seja, só precisamos focar na forma que agimos.

Então, o desejo realmente válido, como votos, ou como presságio, para o ano que começa é que cada um de nós saiba fazer uso do aprendizado que a vida ofereceu até aqui. Que a partir desse aprendizado nós possamos redirecionar as nossas velas e dar sobriedade aos nossos objetivos de vida.

Que, com toda essa experiência adquirida, nós possamos cometer mais acertos. Que encontremos os caminhos mais retos, mais coerentes e saibamos nos posicionar melhor frente aos novos obstáculos que a vida vai apresentar. Isso, por si só, já deve te proporcionar uma caminhada muito mais alinhada com as coisas boas da vida.

Que toda essa sabedoria nos aproxime dos bons amigos, que o tempo nos proporcione mais certezas. Esse deve ser o caminho para que cada um possa buscar, à sua maneira, a felicidade que lhe cabe e é devida.  

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


 

A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...