Eu morava em
Quixeramobim, uma cidade do interior do Ceará. Como toda cidade do interior, a
calma, a tranquilidade e a segurança faziam parte do cotidiano. Era possível se
viver em paz, respirando os ares da noite, sem que tivéssemos a necessidade de
qualquer preocupação.
O interior do Ceará,
aquela região central do estado, para quem não conhece, é quente! Um calor
capaz de tirar o juízo de qualquer pessoa. Esse calor dura o dia todo, um climaquente e seco que entra pelo início da noite. Essa sensação de abafado só é
aliviada com a chegada do Aracati, o vento que sopra do litoral e chega, para
nós lá do Quixeramobim, por volta das 20 horas, trazendo a brisa que alivia a
cidade toda.
Esse é o vento que
sopra as muriçocas, que leva o calor e refresca a casa. Não tem remédio melhor.
Quando o Aracati chega, ele leva o mormaço que se instala nas casas durante o
dia. Até esse momento, se você pegar no
lençol da cama, você vai sentir o reflexo desse mormaço. Dentro de casa, tudo é
quente como se tivesse sido engomado naquele instante. É o reflexo do forno em
que a temperatura normal do dia transforma as casas.
Quando o Aracati
chega, para estabilizar o clima e deixar as casas habitáveis, todo mundo abre
as portas e janelas, deixando tudo escancarado. Esse vento fresco derruba a
temperatura e provoca um conforto térmico fantástico, às vezes chegando ao
ponto de uma boa friagem. Normalmente, ele chega deixando o rastro de um
friozinho gostoso para embalar o sono.
Em uma noite dessas,
eu estava em casa, com as portas abertas, as janelas literalmente arreganhadas,
aproveitando o frescor do vento, que, nessa noite, estava especialmente frio.
Eu estava jogado no sofá da sala, assistindo televisão e, como morava em uma
cidade tranquila, sem nenhuma preocupação com a vida lá fora.
Eu morava em uma
dessas casas antigas, bem características do interior, uma casa que não tem
varanda, onde a porta da sala já fica, como se diz comumente, na porta da rua.
Aquele tipo de casa que a gente pode se debruçar na janela para dar conta da
vida que se passa do lado de fora.
O fato é que a porta
e as janelas, da parede da frente da casa, ficam literalmente ligadas à
calçada. Para receber o vento, como todo mundo, eu deixava tudo aberto. Isso
era comum, não tinha motivo algum para não fazer isso.
Eu estava lá,
sozinho, “deitadão” no sofá da sala, assistindo meu filme. O detalhe é que o
filme era aquele de medo. Sabe aqueles filmes que dão susto na gente, que
deixam os nervos à flor da pele? Esses filmes que ganham a classificação de filmes
de terror. Eu acho que a gente assiste esse tipo de filme para testar o
coração.
Bem na hora da cena mais
cavernosa, aquela cena que você está esmagando o braço da cadeira, comendo as
unhas, arrancando os cabelos, totalmente ligado ao filme, eu só escutei um
berro no meu pé do ouvido: him-hãmmmm,
him-hommmmm - (isso é para ser o relinchado de um jumento), nas
alturas, dentro da sala, bem pertinho de mim, nas costas do sofá que eu estava
sentado.
Naquele momento, o sangue desapareceu do corpo. Meu cabelo,
que já estava arrepiado por conta do filme, virou espeto e eu não sei precisar
exatamente o tempo que eu levei para reencontrar meu corpo. Eu sei que a cena
durou somente alguns segundos, mas eu levei mais tempo para sentir os pés no
chão, e fazer com que os pensamentos se encontrassem com a realidade: tinha um
jumento na minha sala!
Do pulo da cadeira até a minha tentativa de retirar o animal,
teve uma correria ao redor dos móveis, uma fuga pela janela e o encontro com o
vigia da rua bolando de rir. Não sei se vocês conseguiram entender, ou pelo
menos chegar perto, o tamanho do medo que eu senti.
Levei uns minutos respirando para o coração voltar ao normal,
os olhos voltarem para caixa e os pensamentos se desembaralharem, para eu conseguir
entender a diferença do que era o medo do filme e o que era o susto da marmota
que estava acontecendo.
O jumento se aproveitou da porta aberta e, segundo o vigia da
rua, passou uns minutinhos assistido o filme. Ele viu a marmota e já estava quase
chegando na porta para retirar o jumento, quando o bicho resolveu dar o show e me
matar do coração, ou pelo menos testar, para ver se meu coração resistia a
tanto.
O vigia só faltou morrer de rir da minha cara. Não posso
negar que conto isso hoje com a graça que deve. Depois do susto, realmente dá
até para rir!
Aélio Jalles
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