Romanticamente, nos é dito que em cada encontro, em cada uma das nossas
relações pessoais, nós deixamos alguma coisa e levamos alguma coisa do outro,
como uma herança para a vida. Uma troca do aprender e ensinar, do doar e
receber, que é promovido pelo convívio.
Existe uma troca, uma experiência nova de vida em cada relação
vivenciada. Quanto mais profunda a relação se torna, maior se torna essa troca.
Positiva ou negativamente, você recebe mais, e doa mais, com o tempo, com a
proximidade e com a intimidade.
Uma das definições que eu escutei sobre as relações afetivas, dizia que “a
relação entre os seres humanos provoca uma troca de energia”. É uma energia que
reverbera durante dias, nos pondo para cima ou para baixo, dependendo da pessoa
com a qual nos relacionamos.
É, sem duvidas, uma visão voltada para o lado mais exotérico da vida,
mas não deixa de ser uma forma muito interessante de olhar para essa realidade.
Segundo essa mesma teoria, a energia que cada um de nós reverbera, traduz muito
do sentimento que é alimentado, em função do momento e da representatividade de
cada uma dessas relações.
Quanto mais próximas duas pessoas se posicionam, mais profunda é a
troca. A intimidade condiciona a um contato maior, e a pele desnuda quase não
oferece resistência, por isso essa energia flui com muito mais facilidade. E
essa é uma troca que provoca tanto satisfações como danos.
Nos casos em que a relação não tem interação nenhuma, logo depois do
prazer se segue um abismo existencial, o vazio da falta de laços. Um tempo
interpretado, quase em sua totalidade por um incomodo, por um vácuo de
sentimentos. Naquele momento o melhor que poderia acontecer é a pessoa que está
ao lado sumir.
Mais essa sensação de querer que outra pessoa desapareça, me foi dito, é
uma sensação muito mais masculina. Para as mulheres, esse vazio tem outra
vertente. Para as mulheres, também vou
usar o que me foi dito, esse vazio provoca uma sensação de fragilidade.
A sensação de distanciamento e de indiferença da outra pessoa, causada
por esse prazer torpe, acaba causando um destroço na autoestima, e em boa parte
esse descaso provoca também um asco.
De uma forma geral, fica claro que essa é uma situação, o vazio do sexo
vazio, que não é confortável para ninguém. As relações deveriam ganhar
intimidade partindo de uma dose qualquer de sentimento. Que seja uma boa dose
de amizade, por exemplo.
Nós temos um monte de gente que se sente solitária e que, ao invés de se
abrir, de buscar relações honestas, sinceras, mesmo que somente de boas
amizades, se deixam levar pela solidão. Essas pessoas acabam tão carentes, que,
de uma forma qualquer, se sujeitam a essas trocas, digamos assim, a baixo
preço.
O fato é que, por egoísmo, ou podemos chamar de excesso de acomodação,
nós estamos construindo uma sociedade de relacionamentos “superficializados”.
Relacionamentos com um mínimo de compromissos, onde o foco básico é suprir as
carências de sexo e solidão, e, nesse último caso, somente até que a presença
do outro incomode.
É certo que, na medida que convivemos com outra pessoa, vamos unindo
nossos pedaços de vida. Vamos cedendo partes da vida, como em pedaços de corda
em que vamos dando laços. Cada um cede o pedaço que dispõe, e recebe do outro
da mesma forma.
Em cada nó, o pedaço doado por um não é exatamente igual ao que foi
doado pelo outro, e por isso esses laços não vão ficando uniformes. Quem tem
mais, quem pode mais, acaba oferecendo mais de si à relação.
Isso não representa nada de ruim, é uma história que vai sendo
construída. Em cada etapa é possível avaliar os acordos e, quem sabe, ajustar
melhor os laços, desfazer o que não for tido como necessário, e atar outros que
possam ser vistos como interessantes.
Talvez por conta do meu momento de vida, eu vejo hoje que uma boa
relação tem a necessidade de uma extrema transparência. A franqueza, o fato de
poder ser honesto comigo mesmo e com a pessoa que está ao meu lado, é o que
pode fazer toda a diferença.
Se esse não é o caminho que leva a uma relação sólida, pelo menos esse é
o caminho que evita as frustrações. Eu penso que todo mundo merece uma troca de
energia positiva, aquela troca que no final do ato, ao invés do vazio, fica na
verdade um gostinho de quero mais.
Aélio Jalles (Lelo)









