terça-feira, 25 de abril de 2023

O Vazio do SEXO Vazio!


Romanticamente, nos é dito que em cada encontro, em cada uma das nossas relações pessoais, nós deixamos alguma coisa e levamos alguma coisa do outro, como uma herança para a vida. Uma troca do aprender e ensinar, do doar e receber, que é promovido pelo convívio.  

Existe uma troca, uma experiência nova de vida em cada relação vivenciada. Quanto mais profunda a relação se torna, maior se torna essa troca. Positiva ou negativamente, você recebe mais, e doa mais, com o tempo, com a proximidade e com a intimidade.

Uma das definições que eu escutei sobre as relações afetivas, dizia que “a relação entre os seres humanos provoca uma troca de energia”. É uma energia que reverbera durante dias, nos pondo para cima ou para baixo, dependendo da pessoa com a qual nos relacionamos.

É, sem duvidas, uma visão voltada para o lado mais exotérico da vida, mas não deixa de ser uma forma muito interessante de olhar para essa realidade. Segundo essa mesma teoria, a energia que cada um de nós reverbera, traduz muito do sentimento que é alimentado, em função do momento e da representatividade de cada uma dessas relações.

Quanto mais próximas duas pessoas se posicionam, mais profunda é a troca. A intimidade condiciona a um contato maior, e a pele desnuda quase não oferece resistência, por isso essa energia flui com muito mais facilidade. E essa é uma troca que provoca tanto satisfações como danos.

Nos casos em que a relação não tem interação nenhuma, logo depois do prazer se segue um abismo existencial, o vazio da falta de laços. Um tempo interpretado, quase em sua totalidade por um incomodo, por um vácuo de sentimentos. Naquele momento o melhor que poderia acontecer é a pessoa que está ao lado sumir.

Mais essa sensação de querer que outra pessoa desapareça, me foi dito, é uma sensação muito mais masculina. Para as mulheres, esse vazio tem outra vertente.  Para as mulheres, também vou usar o que me foi dito, esse vazio provoca uma sensação de fragilidade.

A sensação de distanciamento e de indiferença da outra pessoa, causada por esse prazer torpe, acaba causando um destroço na autoestima, e em boa parte esse descaso provoca também um asco. 

De uma forma geral, fica claro que essa é uma situação, o vazio do sexo vazio, que não é confortável para ninguém. As relações deveriam ganhar intimidade partindo de uma dose qualquer de sentimento. Que seja uma boa dose de amizade, por exemplo.

Nós temos um monte de gente que se sente solitária e que, ao invés de se abrir, de buscar relações honestas, sinceras, mesmo que somente de boas amizades, se deixam levar pela solidão. Essas pessoas acabam tão carentes, que, de uma forma qualquer, se sujeitam a essas trocas, digamos assim, a baixo preço.

O fato é que, por egoísmo, ou podemos chamar de excesso de acomodação, nós estamos construindo uma sociedade de relacionamentos “superficializados”. Relacionamentos com um mínimo de compromissos, onde o foco básico é suprir as carências de sexo e solidão, e, nesse último caso, somente até que a presença do outro incomode.

É certo que, na medida que convivemos com outra pessoa, vamos unindo nossos pedaços de vida. Vamos cedendo partes da vida, como em pedaços de corda em que vamos dando laços. Cada um cede o pedaço que dispõe, e recebe do outro da mesma forma.

Em cada nó, o pedaço doado por um não é exatamente igual ao que foi doado pelo outro, e por isso esses laços não vão ficando uniformes. Quem tem mais, quem pode mais, acaba oferecendo mais de si à relação.

Isso não representa nada de ruim, é uma história que vai sendo construída. Em cada etapa é possível avaliar os acordos e, quem sabe, ajustar melhor os laços, desfazer o que não for tido como necessário, e atar outros que possam ser vistos como interessantes.

Talvez por conta do meu momento de vida, eu vejo hoje que uma boa relação tem a necessidade de uma extrema transparência. A franqueza, o fato de poder ser honesto comigo mesmo e com a pessoa que está ao meu lado, é o que pode fazer toda a diferença.

Se esse não é o caminho que leva a uma relação sólida, pelo menos esse é o caminho que evita as frustrações. Eu penso que todo mundo merece uma troca de energia positiva, aquela troca que no final do ato, ao invés do vazio, fica na verdade um gostinho de quero mais.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

terça-feira, 18 de abril de 2023

A Vaidade que Mutila!


Eu parto do princípio de que a beleza tem sua graça. Não tem como deixar de entender a importância da vaidade. É bonito de se ver uma pessoa bem-vestida, melhor dizendo, vestida de forma bem adequada, uma roupa bem trabalhada para o corpo da pessoa e para a ocasião e o que se segue a esse raciocínio. Nada é mais bonito que uma boa apresentação.

No entanto nada disso pode ultrapassar a barreira do que é lógico e saudável. No meu modo de ver, a vaidade tem que sempre estar no limite do conforto, da comodidade, do que realmente deve e pode lhe proporcionar prazer e felicidade. Sempre que isso estiver em jogo, é melhor repensar. A exigência da vaidade pode ter passado do ponto e tudo aquilo que se torna excesso, que passa do limite, acaba por fazer mal.

Nem todas as pessoas entendem esse limite. Mesmo a vaidade tendo uma grande ascensão entre os homens, ela ainda é bem mais acentuada nas mulheres. Ter tudo certo, do jeito certo, começa a parecer uma necessidade tão desmedida que, até os diferenciais, aqueles diferenciais que nos tornam seres únicos, deixam de ser respeitados. 

E é essa vaidade que escraviza que acaba mutilando. A poucos dias saiu, em mais um noticiário, o caso de uma modelo que faleceu em uma dessas cirurgias absurdas. Uma lipoaspiração de uma barriga que, digamos, era o ideal de beleza para muitas outras mulheres. Literalmente esse é o excesso ao qual fiz a referência.   

Outro dia, em um grupo de amigos, as amigas, mulheres bonitas, estavam falando do uso do Botox como se isso fosse uma coisa simples, natural. Elas tratavam isso de forma tão simplória que mais pareciam estar falando do uso de uma maquiagem. Aí me veio à cabeça: quantas pessoas eu conheço que hoje tem o rosto desfigurado pelo uso exagerado do Botox.

Não sou especialista em estética, não conheço os limites do uso deste ou daquele produto, mas sou capaz de reconhecer as pessoas que vão ficando sem expressão facial. O rosto acaba ficando de uma forma tal, como se fosse plastificado, que tanto faz se ela está rindo ou chorando, não faz diferença à expressão é a mesma.

Peço desculpas pela forma de tratar a coisa. Aqui nada mais estou que chamando a atenção para um fato. A beleza física, a estética pode até atrair olhares, mas não é ela que vai encantar ninguém, principalmente se for de plástico. 

Não estou fazendo nenhuma crítica ao trabalho dos cirurgiões plásticos, apesar dos que colocam o dinheiro em primeiro plano, muito menos das cirurgias, que em muitos casos reparam danos que fazem a diferença na vida das pessoas. Cirurgias que resgatam a autoestima e que devolvem a condição, mesmo que parcial, de normalidade de vida para muita gente.

O meu chamado de atenção cabe exclusivamente às pessoas que se deixam levar pela cobrança exagerada da perfeição. Pessoas que se deixam levar pela imagem que elas apresentam nas redes sociais. Uma imagem retocada, uma beleza que não existe.

Ficou tão fácil mexer com as imagens, deixar tudo do jeito que o padrão da beleza cobra, que a realidade apresentada pela imagem diante do espelho, se torna angustiante. De uma forma mais grosseira, isso tem provocado uma negação do que é a realidade, a realidade que as pessoas enxergam diante do espelho.

Essas pessoas vão aos poucos se angustiando, se deprimindo com a verdade da vida. A vida boa está logo ali, na postagem, na ficção, na falsa sensação de felicidade que ela apresenta aos amigos. Elas começam a querer que a imagem das redes sociais seja a que vale, como se essa fosse a imagem real.

Eu acho que o maior e melhor exemplo disso tudo é o Michael Jackson. Não sei os motivos, mas em nível do senso comum, ele foi um cara que modificou tanto a imagem do rosto, que acabou se mutilando. Mais uma vez, não estou fazendo um julgamento. Isso é só uma constatação.

E assim como ele, muitas outras pessoas vêm se mutilando. Cada um tem seus motivos, seus desejos, suas vaidades e cada um tem, da mesma forma, suas responsabilidades. Somos responsáveis pelas nossas atitudes, e pagamos, indubitavelmente, o preço cobrado por elas.

Embora eu seja uma dessas pessoas que prega o respeito pela forma de pensar de cada um, me senti incomodado com a conversa das minhas amigas e a forma de utilização desse tratamento estético de forma bem específica. E foi por isso que eu resolvi abrir um raciocínio sobre o tema.

Somos um conjunto de valores e, mesmo sem querer tirar a importância da beleza, eu queria chamar a atenção de que tem coisa mais importante nesse conjunto. Existem outros valores dentro de cada um de nós que se somam e que nos fazem muito mais que um rosto bonito.

Eu queria, de uma forma qualquer, gritar que olhar só para a beleza física está errado, que, nesse conjunto de valores, tem muito mais o que ser visto. Minha eloquência com as palavras e o meu conhecimento não me permitem uma maior profundidade sobre o assunto, tenho medo de expor alguma informação indevida.

Gostaria, então, de fechar com um texto muito bonito que encontrei, e que faz referência sobre o assunto, um texto da Mônica Denise Viana de Barrios. Ela disse: “Temos a tendência de nos atrair pela beleza, mas logo em um segundo instante, já nos sentimos ligados à essência das pessoas, pois é a alma que nos encanta”.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

terça-feira, 11 de abril de 2023

O desabrochar da sexualidade!

Eli passou pela centésima vez diante do espelho. Ela conferiu mais uma vez a barra da calça, o formato que a blusa estava dando aos seus seios, a maquiagem, se os cachos do cabelo estavam do jeito que ela queria. Era tudo mera formalidade, mas mesmo assim ela não conseguia se convencer. Tinha sempre uma sensação de que ainda faltava alguma coisa no ar.

Aquilo não era insegurança. Não mesmo. Eli sempre reclamava de alguma coisa, mas eu acho que era só para que alguém lhe reafirmasse o tamanho da beleza que ela esbanjava. Ela gostava da imagem que o espelho lhe apresentava, embora sempre tivesse um detalhezinho que ela quisesse corrigir. Mas isso é coisa de mulher mesmo, né?

Quando o Luide chegou, ela deu aquela respirada, se concentrou e correu para a porta, foi recebê-lo. Eles se entreolharam, sorriram um para o outro, como se não acreditassem que aquele sentimento tinha tomado conta deles, e deram aquele selinho bem básico.

A área lateral da casa de Eli era o espaço de junção das casas da família. A casa dos avós que os filhos vão ocupando. Eles constroem as casas e o que fica no meio delas acaba se tornando o espaço comum para toda a família. Eli morava no que se pode chamar de condomínio familiar. O que sobrou do terreno entre as casa acabou se tornando ideal para os festejos e, porque não, para namorar também.

O casalzinho estava bem empolgado com o andar do relacionamento. Eles conversavam, conseguiam se entender e vinham até então tendo boas negociações com as divergências de pensamento. Eles conversavam sobre uma diversidade de coisas, e sexo já não era um tabu entre eles.

Embora as situações ainda fossem muito novas, o volume que se formava nas calças do Luide, digamos que, a cada beijo mais chegado, já não era nenhuma supressa para a moça. Ela também sentia os efeitos dos hormônios borbulhando no seu corpo e, para não deixar o rapaz embaraçado demais, fazia questão de corresponder ao desejo dele.

Lógico que, com o passar do tempo, a intimidade vai crescendo e a confiança mútua no relacionamento também. Isso, da forma mais natural possível, faz com que eles se sintam à vontade, e comecem a vencer as barreiras naturais que a sociedade impõe para a sexualidade das pessoas, muitas vezes sem muita explicação.

Eli era uma menina de boa formação. Seus pais eram muito ligados a sua educação e eles entendiam cada passo do desenvolvimento da sexualidade da filha. Eles estavam sempre buscando orientá-la da maneira mais transparente possível. Os pais de Eli ainda se consideravam apaixonados, e, por isso mesmo, conseguiam passar para ela essas questões de uma forma muito bonita.

 

Mesmo assim, e como um casal responsável, os pais de Eli tinham toda a atenção e preocupação com a filha. Eles não queriam que ela passasse da conta, ou que ela avançasse nenhuma das etapas da vida de uma forma indevida.

Luide também não era um menino à toa. Mesmo assim, ele sofria as questões da sexualidade que são impostas aos homens pela sociedade, pelos amigos, pela família e por que não dizer, pelos próprios pais. Os homens acabam tendo a sexualidade tratada na base da porrada mesmo. É como se, por ser homem, você já nascesse sabendo o que fazer e como fazer.

De uma forma qualquer, o Luide, fugindo de todo esse prognóstico, tinha uma visão romantizada da sexualidade. Ele tinha um respeito muito grande pela Eli. Ele desejava, curtia os momentos ao lado dela, deixava fluir a energia natural da idade. Só que ele se preocupava com a situação. Ele mesmo não se permitia qualquer conduta indevida.

Sexo, entre eles dois, mesmo sendo um casal ainda muito jovem, era um assunto já facilmente debatido, e tudo o que vinha acontecendo, apesar das empolgações, passava pelo acordo do que deveria ou não acontecer entre eles. Não acontecia nada sem uma espécie de consciência prévia que eles dois iam formando. 

Naquele dia, a empolgação do casal deu um pouco mais de “pilha” ao desejo. Eles já tinham conversado bastante, inclusive sobre uma situação indelicada que aconteceu com outro casal, um casal de amigos. Como entre eles o respeito era um sentimento muito latente, eles se permitiram mais. Acho que isso faz parte, e que é o andamento natural de todo relacionamento.

Atentos a tudo, os pais de Eli se apresentaram. De uma forma muito descente, eles se fizeram notar com antecedência, na tentativa de evitar o constrangimento do casalzinho.  Era difícil, o constrangimento deles foi muito direto e, embora não tenham sido pegos, por assim dizer, com as calças na mão, a simples presença dos pais já era demais para a situação.

Os pais de Eli foram contornando a situação. Eles falaram de muitas coisas antes de chagar ao assunto devido, e trataram a coisa da forma mais natural que se pode imaginar. Como um casal adulto, eles deram um depoimento de todo o processo de construção da vida a dois. O processo que eles mesmos tinham vivenciado.

É difícil você se colocar como exemplo. É difícil você, com a honestidade devida, e sem querer só as glórias por tudo o que fez ou conquistou, ser capaz de assumir os erros que cometeu. Eu penso que mostrar o peso dos erros cometidos, e tudo o que se teve a necessidade de fazer para contornar, é mostrar muito equilíbrio.

Pois esse foi o grande feito dos pais de Eli. O equilíbrio mostrado por eles fez a diferença. Eli e Luide se olharam no espelho no dia seguinte sem culpa. Eles não passaram do ponto naquela noite por pouco, mas no fundo eles sabiam que aquele momento ofereceu para eles muito mais.

Eli e Luide tiveram nas mãos o apoio, o carinho, gente que ofereceu a ajuda mais do que necessária para uma boa formação da história da vida deles. Foi por conta daquela intervenção que eles se sentiram prontos para ir mais longe.

  

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 

*Do livro: Era uma vez meu coração..........

 

Livro: Era Uma Vez Meu Coração

Capitulo 01: E Ai K dê meu ovo?

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/04/e-ai-k-de-meu-ovo.html



 

terça-feira, 4 de abril de 2023

E ai, K dê Meu Ovo?




Bem cedinho da manhã, Eli ainda lutava contra a preguiça. Transitava entre a lucidez da beleza do dia de sol e o abraço dos lençóis e travesseiros, que insistiam em mante-la na cama. Ela ansiava por aquele dia, mas a preguiça agia com a força natural que era capaz de exercer sobre todo adolescente.

Eli era uma adolescente bem apresentada. Tinha uma beleza capaz de atrair os olhares dos meninos, muito simpática e comunicativa. Ela era aquela pessoa muito bem aceita em todos os círculos dos quais fazia parte. Digamos que uma menina de uma vida bem razoável.

Mas aquela manhã era especial. É que Eli tinha recém começado um namoro. O “carinha” já a vinha cercando há algum tempo, e ela, por pura precaução, demorou a ceder aos encantos do rapaz. O sujeitinho era aquele tipo cobiçado, o gostosão que pairava pelo desejo de quase todas as suas amigas.

De certo que mexia com o desejo da menina também, e ela, entre a vontade de ficar com ele e todos os comentários negativos sobre o que seria namorar com aquela figura, sofria a angústia de ter que tomar uma decisão e assumir, diante das amigas, as consequências. 

Pois aquele era o dia. Aquele era o domingo de Páscoa, o dia do encontro da família, e o dia em que o tal garoto ia se apresentar, ou seria apresentado. A bagunça na cabeça da menina já não deixava o pensamento fluir normalmente, e a ansiedade tomava conta até da sua respiração.

Ela não sabia se sorria ou se chorava quando Luide se aproximou do portão. Ele chegou todo bonitinho, vestido de forma simples, como era conveniente para a ocasião, em um estilo bem casual, mas muito apresentado. A sua simpatia não conseguia esconder o nervosismo natural da situação a ser enfrentada.

Não tinha como ser diferente. Ele ainda era um menino se jogando em uma situação delicada, enfrentando com a cara e a coragem os desafios que a família da moça certamente o iria impor. Claro que não poderia faltar, para agravar a situação, um sujeito mais sarcástico que vem fazer piadas e perguntas indelicadas, para pôr a pessoa em uma saia justa.

Eles até tinham se preparado para isso. Eli tinha repassado as possibilidades desses acontecimentos, e prevenido o Luide de quem seriam as pessoas brincalhonas. Ela preveniu sobre os tios que instigariam os pais dela, os primos e primas mais gaiatos e as pessoas mais suscetíveis às brincadeiras provocadoras.

Mas, o Luide chegou. A mãe de Eli foi recebê-lo, e fez questão de conduzi-lo sob seus cuidados. Ele trazia, na mão, flores. Uma cortesia que ele pensava em destinar a Eli, e, à mãe dela, um ovo de chocolate. O ovo era para homenagear a namorada recém-conquistada.

Só que quando a situação foge de todo e qualquer script razoavelmente possível, o nervosismo toma conta da situação, e o raciocínio não consegue se fazer ouvir. Sabe quando simplesmente não tem como fazer tudo o que você tinha pensado, pelo menos não exatamente como você tinha pensado?

Fugiu do controle. Antes mesmo de ele chegar junto de Eli, o grupo dos primos e primas tomou conta da situação. Eles tinham preparado uma verdadeira loucura de amor para anunciar o namoro da priminha querida. Uma brincadeira que deveria quebrar, de uma vez por todas, o gelo do rapaz para com a família da moça.

Tomaram as flores e o ovo de chocolate das mãos do Luide, e carregaram o rapaz para o palco da festa. Seguraram Eli até posicionar o rapaz no palco, e depois levaram ela para o meio do salão. Forçaram a barra para que o rapaz fizesse o pedido de namoro ali, na frente de todo mundo.

Só não foi pior porque o pai da moça, percebendo o sufoco em que tinham metido o rapaz, subiu no palco. Ele chegou junto, acalmou o Luide e deu a ele o apoio necessário para encarar a brincadeira. A mãe também chegou junto da filha, apoiando, mas sem fugir da situação. Eles fizeram com que a coisa acontecesse bem.

No final das contas, ao invés do Luide, quem fez a declaração de amor foi o pai da Eli. O casal falou de todo o início do namoro, contou a sua história e refez os seus votos, inspirados no início da relação de namoro da filha. Eles abraçaram os dois meninos, e depositaram as melhores energias possíveis naquele início de relação.

Foi aí que o pai da Eli desfez a bagunça do início da festa. Ele trouxe de volta as flores, que o Luide gentilmente distribuiu entre a mãe e a filha, assim como também o ovo de Páscoa. Nesse momento, o rapaz, já sem mais nenhuma cerimônia, fez o pedido de namoro e entregou o bendito ovo de Páscoa a Eli.

Só que um grito de ”PERA AÍ”, interrompeu tudo. Era a mãe da Eli. Foi ela quem olhou para o marido e perguntou: E aí, cadê meu ovo?!

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

*Do livro Era uma vez meu coração



 

terça-feira, 28 de março de 2023

“A Intimidade Artificial”


Ponho o título entre aspas para deixar bem claro que estou fazendo uso de algo que não é uma criação minha. Mais ainda, digo que fiz questão de colocar dessa forma por ser um tema recorrente nos eventos que tenho participado.

O mais fascinante é que ele vem sendo abordado desde eventos colegiais aos eventos coorporativos. Definitivamente é uma temática que tem tirado o sono, vamos dizer assim, de todo mundo. Uma discussão que ainda precisa ganhar força.

Recentemente, vi o assunto como pauta de uma reunião na escola da minha filha. Os professores falavam do desafio de controlar o uso das tecnologias. Que essa era uma porta indispensável para as pesquisas e para o acesso à informação, mas que isso permite a fuga da atenção dos alunos.

Eles mostravam o quanto o mundo virtual, e essas relações digitais, eram responsáveis pela desatenção dos alunos para com os objetivos das aulas. A tecnologia não só era uma porta que possibilitava a ruptura do aprendizado, como também introduzia informações distorcidas na sala de aula. 

No mundo coorporativo, assisti a uma palestra que apresentava o excesso de informação e a perfeição da vida emoldurada pelas redes sociais, como um dos maiores motivadores da depressão. Que as pessoas entravam em conflito existencial quando comparavam a perfeição de vida, projetada nas redes, com a realidade de vida delas.

De frente para o espelho, a imagem que era projetada, a realidade de vida daquela pessoa, impunha uma crueldade inaceitável. Um gatilho gigantesco para a crença de um mundo inconcebível e a completa ausência de petencimento. O ponto de partida para toda e qualquer distorção de comportamento que você queira imaginar.

A palestrante conseguiu contextualizar, de forma magnífica, a falta de preparo da humanidade para esse momento. O excesso de informação que chegou como uma onda gigante, e que ninguém sabe exatamente o que fazer com ela. Não estamos preparados para processar tanta informação e de forma tão rápida.

Para fechar, recebi de um amigo um texto falando de uma palestrante norte americana, uma pessoa especializada em relações humanas, que, em um evento de tecnologia, roubou a cena ao falar da “Intimidade Artificial”.

Seu argumento é que estamos vivendo nossas vidas em permanente estado de atenção parcial. Que nós não conseguimos mais nos relacionar de forma autêntica, e que estamos o tempo todo divididos, divagando na realidade das nossas redes sociais. Que esse é o maior motivador da ausência de uma intimidade real.

 

Ela se refere a essa artificialidade da relação quando mostra o quanto o uso das redes sociais, do celular, é capaz de permitir a fuga sempre que uma situação se apresenta inadequada. É como se a pessoa tivesse na mão uma forma de anestesia seletiva que ela pode acionar sempre que se sentir desconfortável.

Reconheço que não sou nenhuma autoridade no assunto, e que minha menção vem do senso comum. Mas como observador, qualquer ser mais analógico é capaz de perceber o desvio de conduta quando, em uma mesma mesa de bar, quatro pessoas se utilizam de mensagem para uma troca de informação.

Chamou-me a atenção quando uma mãe, com uma criança de 10 ou 11 anos, respondia às perguntas do médico, que por acaso consultava a menina, enquanto essa se mantinha ligada ao telefone. Era como se, fora o corpo físico, a filha não estivesse ali e a consulta não fosse com ela.

Não pode passar despercebido o quanto as crianças estão sendo impelidas e se fechar em um aparelho. É como se eles se mantivessem fora da realidade, sem a necessidade de participar das situações. Sem relações diretas, sem cumprimentar as pessoas, sem a necessidade de interagir.

Nesse meu senso, mesmo sem nenhuma especialidade, não consigo ver um mundo feliz sem as relações humanas. Conflitos, articulações, negociações, direitos, limites, cidadania, civilidade, ou simplesmente troca de sorrisos, não se pode pensar um mundo sem essas vivências.

E aí eu vou fechar meu texto com a fala da Dra. Ester Perel: “Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana”.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 23 de março de 2023

O lixo nosso de cada dia!


Dos quatro cantos da Praça João Gentil, a esquina das ruas Waldery Uchoa com Paulino Nogueira se transformou em um deposito de lixo. É como se aquele canto tivesse sido estabelecido como o lixão da praça. É impressionante a facilidade com a qual o lixo aparece nesse canto.

Não faltam dedos para apontar os motivos de como isso tudo começou. Por mais que a prefeitura atue, nesse caso não podemos dizer que ela não faz a sua parte, não se consegue passar um só dia sem que ali seja depositado o lixo dos bares, restaurantes, assim como das casas do entorno da praça, para não ser injusto.

Para quem frequenta a praça há mais tempo, sabe que o problema foi sendo construído no dia a dia, e que é fato que a colaboração dos bares da região foi muito grande.  Todos os dias, os usuários da praça testemunham as garrafas secas, os espetos de madeira utilizados, os resto de comida e outros dejetos característicos dos desses bares.

Isso não isenta os moradores que, como foi dito, são flagrados fazendo o descarte de uma variedade de objetos. É que a comunidade, os moradores das casas da vizinhança, ao invés de combater, corrobora com o acumulo do lixo no canto da praça, mesmo sendo impactada diretamente com o efeito nocivo dessa ação.  

Esse aspecto causado pelo lixo se soma aos bancos quebrados, aos aparelhos da academia da praça cheios de problemas e mais os detalhes da falta de manutenção, para transmitir a ideia de abandono do espaço. Isso para fechar o estigma do “ninguém liga” que cai sobre a nossa praça.

A praça é usada diariamente por uma boa diversidade de público. É um local de atividade física, uma área de laser para as crianças, tem feiras, venda de roupas e um mundo de atividades culturais. Não tenho dúvida em afirmar que é uma das praças mais movimentadas de Fortaleza.

Nós estamos falando de um ambiente que mistura a maturidade dos moradores de um bairro já antigo, de moradores estabelecidos há décadas, com toda a juventude dos estudantes. Sendo esse público jovem, um público que se renova ano a ano, por conta da universidade, do instituto federal e dos centros de cultura.   

Eu sou parte dos que utiliza a praça para atividade física todos os dias e que, por isso mesmo, quero trabalhar na busca de uma boa solução para essa questão. Sou um dos tantos que querem ver a praça bem apresentada.

 

Também sou cliente desses mesmos bares citados e, por isso, levanto a bandeira de que chega a hora de buscar, entre eles, um salvador da pátria. Não seria difícil começar uma mudança, se um desses empresários resolvesse assumir a responsabilidade e adotasse formalmente a Praça João Gentil.  

Tenho certeza de que o ganho de imagem compensaria o investimento. Imagine o quanto esse empresário seria bem-visto. De uma forma bem significativa, a propaganda institucional, nesse caso, poderia oferecer a essa empresa o carinho de muitos moradores e frequentadores, consumidores diretos desses bares e restaurantes.

Digamos que uma atitude como essa seria capaz de capitalizar os méritos para a sua empresa. De uma forma bem lúdica, esse empresário estaria transformando lixo em reconhecimento.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)





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terça-feira, 14 de março de 2023

Um Sonho de Família!


Eu achei emocionante, pela maneira com a qual ela se expressou, quando li o comentário da mãe de uma amiga, sobre o relato do sonho de vida da filha. A mãe ressaltou a beleza desse sonho, com o pedido de licença para se incluir. Era como se existisse a necessidade de pedir licença para poder fazer parte da vida da filha.

Aquela declaração destacou a beleza da projeção de felicidade que a filha tinha descrito. O sonho de uma vidinha simples, em um local aconchegante, sem pompas, com o abastecimento das necessidades materiais mais básicas e um mínimo de conforto necessário.

Só que, no texto, a felicidade vai sendo descrita em uma conjuntura de fatores, que enfatiza o espaço físico como símbolo dessa felicidade. O local acolhedor invoca o romantismo do que é “um amor e uma cabana”, e esse é o ponto do questionamento que acabei fazendo. 

No meu modo de interpretar as palavras da filha, nas entrelinhas, ela ressaltou a ternura do convívio familiar. E o que é mais forte, um convívio que a própria mãe proporcionara durante a vida toda, mesmo sem todo o aparato e as condições necessárias.  

A filha descreveu uma cena em que o café quentinho envolve a casa com o seu cheiro, dizendo que esse odor, por si, era acolhedor. Na minha visão, ela estava simplesmente resgatando uma memória afetiva. O cheiro podia até remeter a uma sensação gostosa, mas acolhedora, na verdade, são as mãos que sempre serviram o café.   

Nunca uma tapioca com manteiga vai ter o gosto descrito pela minha amiga, por mais eloquente que sejam as suas palavras, se a mesa não estiver rodeada de gente, de conversas soltas e muito carinho. Isso sim, na verdade, se traduz em um sentimento de plenitude de vida e de felicidade.

Não quero aqui questionar os sentimentos da minha amiga. Eu sei o quanto ela é emotiva. De coração, eu quero somente chamar a sua atenção para o foco. Esse sonho nunca vai ser encontrado assim, por conta de um cenário, por mais que ele pareça apropriado.

Esse sonho, e eu já tive a oportunidade de dizer a ela, nasce de uma ação acolhedora, da atitude das pessoas que sabem abraçar, muito mais do que um espaço físico possa apresentar.

Enumerando todos os casos em que eu vi pessoas com essa relação de pertencimento, é perceptível que o espaço físico nunca fez diferença. Esse é um ambiente que somente vai se moldando e se caracterizando pela ação de acolhimento.

Ele vai sendo criado pela disponibilidade, pela boa vontade e por um conjunto de fatores que nem sempre dá para explicar. Esse espaço vai se transformando e, de acordo com as necessidades, vai se adequando para que possam caber nele um conjunto de vidas.

Esse é o espaço em que a sensação de aconchego tem um valor imensamente maior que o conforto físico. Nele o vão mais importante é o do abraço. Tal lugar só existe no coração, e é ali que todos querem estar.

Todos nós, eu acredito que sem muitas exceções, gostaríamos de terminar a existência terrena dentro de um desses círculos de amor. Terminar a vida entre as pessoas que se importam e com a segurança do convívio familiar. 

Por isso, sem querer ser grosseiro com a minha amiga, eu digo que o pedido de inclusão, feito pela mãe, nada mais era que um chamado de atenção. Ela estava somente mostrando para a filha que tudo aquilo que estava descrito, ela já tinha nas mãos.

É que o melhor lugar do mundo tem uma ligação direta com o amor, com o calor humano e com a troca de energia das pessoas que se gostam.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 


 

terça-feira, 7 de março de 2023

Dilemas Éticos da Pluralidade Social!


 

O carnaval é sem duvidas a festa da liberdade, a festa da carne, da permissividade. E é por isso mesmo que é nele onde se apresentam, de forma mais clara, toda a nossa pluralidade social. De uma maneira bem ampla, as pessoas se desnudam e expõe as suas maiores intimidades, deixando a mostra toda a sua alma, a essência do seu “EU”.

Também, e exatamente por conta dessa exposição, que uma diversidade de situações, de dilemas sociais, acaba se apresentando, vindo à tona. São manifestações derivadas das novas condições sociais, desse movimento dinâmico de vida que nos obriga a repensar e nos adaptar a essas novas questões comportamentais que emergem.

Vivemos um embate permanente entre a parte mais progressista da sociedade e a parte mais conservadora. Eu diria que, dentro de um todo, as duas partes acabam tendo muito valor. O que seria do desenvolvimento sem a parte mais progressista, e o que seria da história sem a parte mais conservadora.

Nesse processo de desenvolvimento, nem todos os comportamentos são tão fáceis de serem aceitos, de serem compreendidos, ou até mesmo de se moldar à realidade da cultura social que nós vivemos. Sempre vão existir os dilemas práticos que toda mudança comportamental carrega.

A questão do uso do banheiro é um dos exemplos do que é essa discussão. Não dá para se ter uma opinião, ou para se definir uma questão como essa sem muita conversa. Tudo o que for pensado deve levar em conta o RESPEITO, com todas as letras maiúsculas, sobre o direito e o sentimento individual de cada pessoa. Não se pode deixar de levar em conta as implicações sobre a coletividade. 

Uma pessoa, num corpo físico de um homem, que se identifica como mulher, pode usar o banheiro feminino? Uma pessoa, em um corpo físico de mulher, que se identifica como homem, vai usar o banheiro masculino? Como vai se sentir a mulher, com a presença de uma pessoa com o corpo físico de um homem no banheiro? O que pode acontecer com uma pessoa com o corpo físico de mulher em um banheiro masculino?

Pensar, conversar e discutir sobre o assunto, pode propiciar o encontro das melhores possibilidades, o encontro das saídas mais adequadas. E isso é o que cabe para uma série de questões dentro do que é a convivência social.

Não é simplesmente impor o que um ou dois acham, ou o que é a condição mais conveniente para uma meia dúzia. O meu comportamento como ser individual, deve ser respeitado, e eu, da mesma forma, devo respeitar o sentimento e o comportamento das outras pessoas. Ninguém precisa, ou tem o direito de agredir ninguém.

De uma forma qualquer, a diversidade carrega consigo o sentimento de plenitude da vida. Ela funciona como um espelho da alegria, e o “grosso” da sociedade enxerga isso com muita clareza. Na sua grande maioria, a sociedade enxerga esses dilemas e pensa sobre eles, independente de se posicionar mais conservador ou mais progressista.  A sociedade, como um todo, é tolerante, por assim dizer.

Só que, à margem desses dois lados, tem um público que abdica dessa tolerância, um público que não se conforma com o fato dos demais divergirem do seu pensamento, e que faz questão impor a sua verdade. Eles agridem, como se isso fosse capaz de provocar a aceitação.  

A maior parte da sociedade, a parte onde eu mesmo me enxergo incluso, busca o seu espaço, as suas conveniências, mas procura entender e valorizar o espaço dos outros. Mesmo tendo uns mais arraigados com as ideias conservadoras e outros que tem a necessidade de criar, ou, por assim dizer, de abrir os seus espaços, existe uma interseção de pensamento e uma tolerância que possibilita a convivência harmónica.

Os que agridem, os que precisam ferir para defender suas posições, fazem parte do grupo mais tóxico da sociedade, do grupo que faz questão de se pôr à margem, independente do lado da corda em que eles estão. São pessoas que não se abrem para pensar com os demais, não conseguem uma argumentação lógica, e por isso querem forçar o seu raciocínio no grito, na pancada. 

Normalmente, esse é um comportamento que chama muito a atenção. Nós notamos e acabamos dando ênfase a esse tipo de comportamento. Por isso, acabamos por percebê-los com uma conotação de grandeza maior do que deveríamos.

A questão que nós precisamos entender é que dentro do círculo estão a maioria das pessoas. É aqui que está a maior força da sociedade. Nós precisamos olhar melhor uns para os outros, valorizar essa pluralidade, nos dar as mãos para construir uma barreira contra todos esses que buscam se colocar à margem, e que fazem questão de ferir e machucar a sociedade como um todo.

Nunca devemos parar no tempo. Precisamos da dinâmica social, da evolução, mas nunca devemos deixar que a tolerância, que a possibilidade de olhar para o lado, se perca na individualidade, no egoísmo do ser humano.

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Meu Acordo com Baco!


 

Os excessos de tudo que representa o Carnaval batem à porta logo depois da festa, como cobrança por tudo aquilo que se fez. Nem é difícil entender isso! Acaba aparecendo um registro aqui, outro ali, dos pequenos deslizes que foram cometidos no decorrer desse período momesco.

Afinal, essa é festa da carne, da alegria, dos deslumbres, dos excessos! A bem da verdade, só quem não se permite contagiar pelo carnaval, é que fica isento desses registros. Bem ou mal, isso é vida. Faz parte! Isso é o que nós deixamos para a nossa história pessoal.   

Eu mesmo nem me considero um folião dos mais aguerridos, muito menos um bebedor inveterado. Nesses dois pontos, bem especificamente, eu me considero um cara extremamente comedido. Gosto da festa, da brincadeira, gosto da bebida, das rodas de amigos, mas de fato, tudo dentro dos limites, sem passar do ponto.

Meu acordo com o Baco, já de muito tempo, foi de que a bebida não poderia passar do ponto, e que eu jamais deveria passar da linha em que se perde o controle. De uma forma qualquer, por esse acordo, eu percebo o momento de parar. Não me permitindo passar daquele ponto em que o álcool assumiria o controle.

E assim eu tenho feito. Nem sei quando foi à última vez que eu passei desse ponto. Sempre venho tendo o cuidado de não me deixar levar pela empolgação e, no momento certo, paro, sem perder a condição da alegria e do bem estar. Eu me vanglorio por conseguir reconhecer o momento certo em que não posso mais ceder aos encantos de continuar na brincadeira. 

Eu reconheço que tem ocasiões em que eu chego a pisar na linha. É que tem situações em que a vontade vai um pouco mais longe. São situações empolgantes, que deixam o sangue mais quente. Mas, o desejo que eu tenho de manter o controle é muito determinado.

Essa determinação vem de muitas histórias de família, das mais diversas situações com os amigos e muitas outras situações vivenciadas pelo descontrole do consumo de álcool. Por isso, mesmo quando pontualmente acontece comigo, eu grito e recorro à água. Tomo muita água. Tanto que acabo, naturalmente, saindo das minhas festas e confraternizações totalmente lúcido. 

Até aqui, eu pensava ter encontrado o acordo perfeito. Só que tem uma pessoa que tem me feito questionar esse acordo tão bem elaborado. Segundo ela, eu deveria parar sempre alguns copos antes. Nessa linha de pensamento, eu tenho que dar uma afinada maior no meu controle, de uma forma que eu não me permita chegar tão perto do limite.

Mas, ainda que essa pessoa me faça pensar sobre os meus motivos, buscando uma reflexão, algo como se beber, para mim, fosse uma obrigação, não me vejo assim dependente. Ela questiona que a bebida não pode funcionar como o gatilho da minha felicidade. Como se eu só pudesse ser feliz assim, de copo na mão.

Lógico que isso abre uma reflexão. Existe uma razão na questão do controle sobre o ato de beber. Mais ainda na questão da necessidade da bebida. Isso torna a situação difícil de explicar. Ora, nem mesmo um alcoólatra inveterado consegue reconhecer seu vício.

Meu dilema é conseguir mostrar que o peso que está sendo colocado é maior do que merece. A bebida é atrativa sim, ela ajuda a liberar as tensões, alivia o peso das obrigações, desafoga os problemas e faz a vida fluir, digamos assim, mais facilmente. Ela dá uma pitada a mais, põe um tempero, oferece um colorido para a vida.

Mesmo sendo Baco o Deus protetor das condutas desviadas, meu acordo com ele não prevê excessos. De uma forma bem clara, eu penso que todo excesso, seja ele na bebida ou na vaidade, tomando somente como um exemplo paralelo, carrega uma dose de compensação, como se isso fosse capaz de suprir alguma falta.  

Eu sei que existem os que não conseguem esse acordo tão preciso com ele. Tem muitos que não podem beber pela falta de controle, por não conseguir identificar um limite seja lá onde for. Tem outros que simplesmente saem do ar com a bebida, desligam o “modo” bom senso e entram em um outro “modo” meio questionável.  

Assim, mesmo respeitando os que podem ter os problemas com a bebida, quero reiterar meu acordo com Baco. Brindar a alegria não pode ser considerado um pecado, e fazê-lo por opção, sem excessos e quando coerentemente pode ser feito, faz parte do lado bom da vida.

Essa é uma questão que faz bem, integra aquilo que é pleno e merecedor da luz divina!

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Saudade do Carnaval!




O carnaval de rua tem seu valor. Não é a ideia questionar essa verdade. Mas neste instante, eu queria rememorar o carnaval dos clubes, o carnaval que se fazia ao redor da pista de dança, onde a cada volta se avizinhava mais uma troca de olhares. Sabe, a brincadeira ganhava empolgação.

O carnaval de clubes era bem menos irreverente do que o carnaval de rua, por conta das regras impostas pelo clube, bem menos inclusivo. Isto é fato. Os ambientes acabavam selecionados pelo preço. Também era um espaço bem menos permissivo, o que é fácil de entender. O ambiente era bem controlado, por assim dizer, mesmo assim era um lugar sugestivo e apropriado à brincadeira.

O fato de estar em um espaço fechado, na contrapartida das exigências, proporcionava uma sensação de segurança. Essa sensação de segurança proporcionava a condição de deixar o contexto mais leve, as pessoas ficavam mais desarmadas, mais soltas, mais acessíveis.

Quer queira ou não, isso propiciava bons encontros. Essa condição abria o espaço para as possibilidades das relações, para que uma aproximação fosse capaz de ser feita sem tanto receio. Um alguém que se aproximava de um outro alguém, não se fazia anônimo jamais.

Os amigos, as companhias, as brincadeiras, o comportamento, o ambiente ajudava muito para que uma pessoa fosse referenciada. Digamos que o mau comportamento, nesse caso, era identificado rapidamente e punido. Se não fosse a identificação da própria pessoa, os amigos se posicionavam rapidamente para tirar a pessoa de uma eventual fogueira.

Essa condição também nos deixava mais a vontade quando a companhia já estava estabelecida. Os casais se faziam mais soltos na sua própria relação. As demonstrações de amor, de afeto, que surgiam dentro da festa, em boa parte eram embaladas pelo cantarolar das letras. Estas davam o ar de romantismo necessário e deixava tudo muito mais gostoso.

Eu pude reviver um pouco de tudo isso, com o carnaval da saudade do Clube do Náutico. Não posso negar que fiquei impressionado com a idade das pessoas presentes. Pelos comentários das festas anteriores, eu já estava esperando encontrar um público de mais idade, mas mesmo assim me surpreendi.

O que eu vi, não foram só pessoas mais velhas brincando carnaval, o que eu vi foi a alegria de muita gente por poder estar brincando o carnaval. Pessoas que com certeza não iriam para as ruas. Essas pessoas, que devem ter aos montes por ai ainda, que não se sentem à vontade para brincar o carnaval de rua.

Eu vi, na expressão de muitos, o valor de se fazer presente ao baile. Não cabe aqui nenhum questionamento da condição financeira, mesmo ciente de que aquela festa, por ser uma festa tradicional e de uma referência social, tem um custo relativo. Aqui, o que chamo a atenção, é o fator condicionante da idade, onde a possibilidade de um ambiente favorável pode permitir a participação de uma grande parcela dessas pessoas.

Muito além do Carnaval da Saudade, eu percebi a saudade do carnaval na alma de muita gente e tudo o que um ambiente agregador, mais seguro, pode proporcionar. .

 

 

Aélio Jalles (Lelo)







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A mentira de mil vezes

O efeito da chamada “Mentira Ilusória” já é de senso comum e os efeitos dela sobre a ação cognitiva do ser humano, também. Não, eu não sou p...