A vida, mesmo cheia de obrigações e contas, abre espaço, por um curto
espaço de tempo, para o confete e a serpentina do carnaval. Um espaço que,
muito mais que uma fuga da realidade, ou um momento de alienação, serve como um
respiro das pressões do cotidiano.
Eu mesmo vejo a festa como uma forma de fazer valer os excessos. É o
momento de escancarar as portas e extravasar todas as questões sociais que são
oprimidas no dia a dia. É a oportunidade de romper a censura prévia da
sociedade, sem grandes danos morais.
É que, se for bem observado, pode-se ver nesse instante de tempo toda a
subversão apresentada nas estereotipias. São as formas que os desejos mais
sórdidos, enclausurados no âmago dos corações, se apresentam ganham forma e
força através das fantasias e das performances.
“Já sei namorar, já sei beijar de língua”, a questão então era a
permissão para sonhar e soltar o verbo. Pois o momento é agora, é carnaval e é
a hora de você dizer quem é você de fato. Nada de censura, pois muito além de
uma suposta alienação, esse é o momento de reconhecer a sociedade que nós
vivemos.
Esse é o momento de tomar consciência e de perceber aonde o sapato vem
apertando. Esse é o momento em que os padrões e os conceitos são postos à prova
e o tempo certo para se perceber as mudanças, os ajustes sociais mais
necessários que devem ser feitos.
É a hora de entender os novos comportamentos e tomar nota de tudo. É
hora de nortear as ações, tomando por base os principais pontos do
comportamento, e melhorar as relações humanas seguindo a direção que a própria
sociedade aponta.
Faz-se necessário o respeito a todos os comportamentos. Não existe mais
esse momento onde ninguém é de ninguém. Hoje uma paquera mais insistente é
assédio. São readaptações sociais necessárias, mas que ainda não se tem uma
total assertividade.
Então, carnavalizando a vida, é importante entender que até a subversão,
tão característica do carnaval, tem o seu limite. Existe uma prerrogativa
básica de respeito, do qual se precisa ter consciência, mesmo que ninguém saiba
exatamente como se aplica.
Aélio Jalles (Lelo)
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