quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Através de você


Eu sou, sim, um desses sujeitos que se dizem eternamente românticos, desses que respiram o amor e que sempre sonharam com uma relação de reciprocidade plena. Na minha cabeça, não existe nada tão forte quanto esse encontro de vidas. O encontro onde duas pessoas resolvem dar as mãos, assumem-se responsáveis uma pela outra e tomam o caminho da vida juntas.

Eu até pensei que não teria mais tempo, tempo de vida, para viver esse amor. Engano meu. Acabei enxergando o amor em um encontro que eu mesmo achei improvável, quando um dia olhei para você e pensei na possibilidade. Um momento diferente entre tantos outros que nós já tivemos e sob uma lente que me fez ver você, sob uma nova versão.

Dizem por aí que tudo tem seu tempo e que o tempo de Deus nem sempre cabe dentro da nossa compreensão. Que é ele quem determina os encontros e traça os caminhos. Que na hora certa as vidas se encontram e as almas entram em sintonia.  

Acredito que eu tive sorte, hoje entendo dessa forma, de viver alguns amores, amores que não consegui explicar, que não consegui entender. Eles foram confusos, cheios de entraves e outras coisas mais. Coisas que me entorpeceram, me machucaram e até endureceram meu coração.

Eu me achei decepcionado com a vida, cheguei até a me sentir frustrado imaginando que tinha perdido a chance de viver o amor como eu sonhava. Só que, como bem disse Jorge Vercillo, esse amor chega para nós através dos encontros e desencontros da vida, levado de “amigo a amigo”, de “mão em mão”, e que o tempo e essas relações vividas são meros estágios.

Pois agora, mais que tudo, eu digo a você: a vida me preparou para viver essa nova história. Eu voltei a ver o colorido da vida através dos seus olhos e os percalços e as dificuldades que ela ainda me impõe tornar-se-ão meros detalhes, pois eu tenho a energia da certeza renovada a cada vez que o meu olhar encontra com o seu.

O mundo ganhou um colorido novo e a minha vida ganhou a força necessária para seguir em frente. O seu cheiro, no tom perfeito, me faz viajar pelos ares de um prazer que eu até então nem imaginava existir. É que; através de você, eu entendi que o amor repara os danos da alma, recicla o coração e só constrói coisas boas.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O valor de uma relação maturada



Já tinha sido o dia todo de festa. Era o aniversário da mãe do Luide e o domingo tinha se transformado em uma grande reunião de família e dos amigos dos pais dele. Eli e os pais faziam parte, as famílias já se reconheciam.

Os pais do Luide já tinham percebido que o convívio com a família da Eli fazia bem ao filho. Era notável o quanto ele tinha desenvolvido sua personalidade, ganhado confiança e de como sua postura já tinha influenciado, trazido para o seio da família dele, alguns benefícios.

As conversas familiares na casa do Luide tinham se intensificado.  As ocasiões em que estavam todos juntos tinham se multiplicado também e a troca de informações entre os pais, o Luide e a irmã tinha ganhado fluidez. Era sem dúvidas uma influência direta da relação da casa da Eli.

Já para o final da festa, ficando somente um núcleo bem pequeno dos amigos e familiares, os mais chegados de fato, o pai do Luide resolveu instigar o pai da Eli. Era como deixar fluir uma verdadeira mistura de sentimentos. Curiosidade, afronta, necessidade de se mostrar, sem falar que ele queria pôr à prova as pregações que o filho fazia.

Ele tirou proveito de uma linha de raciocínio, uma deixa da conversa que eles estavam tendo, e jogou a pergunta no ar, só que, na verdade, a pergunta era muito bem direcionada ao pai da Eli. A pergunta, envolta em questionamentos e ponderações sobre as relações dos casais, dizia: quem pode me explicar o que significa ter uma relação maturada?

De pronto o Luide quis repreender o pai, mas o sogro tomou a palavra. Ele disse de forma muito bem humorada: “eu acho que essa é uma pergunta quase direta para mim. Essa é uma pregação muito pessoal que eu tenho feito aos nossos filhos. Se mais alguém quiser dizer alguma coisa, fique à vontade, e se não, vou tentar oferecer a vocês o meu raciocínio”.

Ele aguardou o silêncio se concretizar e falou: “tem duas características que eu valorizo muito em uma relação. A primeira é a equidade, o equilíbrio de forças entre os pares, a condição de que os dois estão sempre dentro da mesma medida e do mesmo patamar. Eu penso que esse é um primeiro passo, para que uma relação possa ter longevidade, com saúde”.

Ele continuou: “a segunda é a maturidade, colocando essa como a característica necessária para que um seja capaz de escutar o outro. A maturidade, nesse caso, acaba sendo a condição necessária para que nenhum dos dois tome uma decisão unilateral”.

Ainda na fala dele: “assim, eu tenho como uma relação maturada a relação onde os dois se conhecem de forma muito profunda. Eles já conversaram tanto, já se escutaram tanto, que um conhece a opinião do outro, de forma clara e transparente. Uma relação que só se constrói se um for capaz, principalmente, de escutar o outro”.

Aí, para não permitir que a conversa virasse um monólogo, a mãe da Eli resolveu intervir: “eu queria falar aqui, para que todos pudessem pensar, para nós mulheres ainda não é fácil entender essa questão da equidade, sem pensar em guerra dos sexos”.

Ela continuou: “como a grande maioria das mulheres, eu venho de uma criação patriarcalista, machista, sexista e mais um monte dessas coisas. Nós não recebemos uma formação sexual inclusiva, capaz de nos fazer entender que sexo era bom, que fazia bem e que nós tínhamos o mesmo direito ao prazer”.

Nessa hora a plateia já estava de olhos arregalados, mas ela só aproveitou a atenção: “meu marido é maior que eu, se eu quiser medir forças com ele, eu acho que vou me dar mal. Mas eu quero me agarrar com ele. Eu quero me prender a ele e somar forças. Juntos nós somos maiores e mais fortes”. 

Em uma dessas sintonias que chamam a atenção, o pai da Eli tomou a palavra: “a gente sempre tenta puxar o nosso par para o nosso mundo. Só que não é assim que as coisas funcionam, as medidas da relação têm que ser embasadas pelos dois, a gente tem que saber entender o que dá mais certo”.

Ainda na mesma sintonia, a mãe completa: “Maturada é uma relação que já levou tanta paulada, que se moldou devidamente. É difícil moldar alguma coisa sem levar em conta a parcela de sacrifício que se tem que viver. Só não se pode querer que o sacrifício venha só de um lado. Os dois devem ceder”. 

Aí, para completar a fala, para fechar com chave de ouro, entra em cena a voz do Luide: “aceitar  que o mundo não é feito somente das suas verdades é uma lição muito difícil de entender”. O garoto foi apresentando a sua maturidade e falando com muita segurança.        

Ele fechou a fala e a conversa dizendo: “eu venho entendendo cada vez mais que o amor é uma construção diária e não uma coisa casual. A decisão de caminhar juntos cobra da gente a ampliação da nossa flexibilidade e da nossa resiliência. Para sonhar um sonho a dois se faz necessário trilhar um caminho que não é só seu”. 

 

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

 

 


Livro: Era Uma Vez Meu Coração

 

Capitulo 01: O primeiro beijo

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Capitulo 02: O curso da vida

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Capitulo 03: E Ai Cadê meu ovo?

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Capitulo 04: O Desabrochar da Sexualidade

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Capitulo 05: A primeira vez

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Capitulo 06: Sexo a Conexão das Almas

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/05/sexo-conexao-das-almas.html

 

Capitulo 07: O Abraço da Confiança

Link do Texto: https://aeliojalles.blogspot.com/2023/07/o-abraco-da-confinca.html

 

Capitulo 08: As novas cores do Arco-Íris

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Capitulo 09:  A Liberdade da Libido 

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Capitulo 10: Equidade é uma questão de respeito 

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Capitulo 11: Sob a ótica do filho

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Capitulo 12: O valor de uma relação maturada

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

O Gênio Implicante


A grosseria é muitas coisas,

e sempre uma arrogância......”


Encontrei essa frase no meio de textos perdidos. Não consegui encontrar um autor, mas achei o texto instigante à abertura de um bom raciocínio. Eu sei que todos nós dispomos de um “Gênio Implicante”. Uma alusão a esse limite que cada um tem para deixar fluir a raiva, a brutalidade, a grosseria.

Chamei de “Gênio Implicante” por ser um momento em que a capacidade de raciocínio se apequena e a pessoa não consegue medir as consequências. Ela simplesmente sai dando “patadas” sem a noção exata se a outra pessoa vai suportar, de como elas serão absorvidas, ou até mesmo se elas não vão atingir outras pessoas. 

Isso sempre tem uma medida. Isso fere, magoa, fragiliza as relações e, por mais resiliência que a outra pessoa possa ter, vai acabar acontecendo de, em um momento, essa pessoa se magoar de forma mais profunda. De tantas pancadas, uma delas pode bater em um lugar mais sensível.

Na verdade, ninguém merece ser saco de pancadas de ninguém. Quando a pessoa permite que o seu “Gênio Implicante” tome conta do seu raciocínio, naturalmente ela começa a agir sem pensar. Ruim para ela mesma. Esse comportamento faz com que naturalmente as pessoas se afastem. Ninguém gosta de espinhos!

Se essa situação, mesmo acontecendo esporadicamente, já trás consequências ruins, imagine para quem tem esse gênio pesado à flor da pele. Imagine para a pessoa que considera normal fazer uso dessa irritabilidade. Algumas pessoas acreditam que se não for batendo nas outras não conseguem nada.

Existem pessoas que acham que os seus problemas são maiores que os das outras.  Existem pessoas que querem culpar o mundo pelas mazelas da vida, mesmo que essas mazelas sejam construídas por elas mesmas. É como se elas não tivessem culpa de nada, que sempre deve ter alguém ali para ser responsabilizado pelos seus erros.    

No meu modo de ver, todas as formas de animosidade se transformam em amarras que nos levam à solidão. São fatores que nos prendem em uma vida pequena, que nos proporcionam um mundo sem muita cor e sem muita graça. Mas esse é um fator que só nos damos conta para o final das nossas vidas.

Em uma ilustração bem lúdica, eu, conversando com o meu cachorro, costumo dizer: se quer ficar solto, tem que ser bonzinho. Cachorro valente normalmente fica na coleira, preso em um canto onde ele não pode morder ninguém. Ou seja; quanto mais valente, quanto mais bravo você for, mais isolado você vai ficar.   

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O meu lado mais doce


Gostaria de ser mais avô, de me fazer mais presente do que tenho sido na vida das minhas netas. É que eu mesmo, me imaginando nessa condição de avô, me caricaturei, de uma forma bem lúdica, com o comportamento muito próximo do que foi um dos meus avôs. 

Isso não retira a consideração, o respeito, o carinho, ou a admiração que eu tenho pelos outros. Cada um com as suas características e com as suas possibilidades. Agora eu até entendo que, dentro do que a vida vai impondo e proporcionando, cada um faz o que pode.  

Mas, um deles, como eu bem disse, teve a possibilidade e a estrutura necessária para se misturar com os netos. Era bem o jeito dele, de quem não tinha tido a infância necessária e, por isso, ele se fazia criança, se metia entre nós. O “sem noção” brigava, como se fosse de igual para igual, pelos brinquedos que ele gostava.

Esse cara, mesmo com as juntas que não respondiam mais a tudo, se jogava no chão e brincava como se realmente fosse um menino. Na casa dele, todos os netos tinham brinquedos guardados. Cada um tinha os seus brinquedos, cada um tinha a sua caixa de sapatos determinada.

Eram as normas e determinações da minha avó. Uma fortaleza à parte, ela comandava tudo com a mão de ferro. Para evitar as confusões dos netos, cada um tinha a sua caixa de sapatos nominada. Lógico que, pela vaidade pessoal, tinha uma caixa que era a dele. A caixa de sapato com o nome e com os brinquedos do meu avô.

Esse avô nunca meteu a mão no bolso para dar um bombom a um neto. Muito pelo contrário, ele brigava era pela panela, quando nós íamos raspar o resto do doce de leite que a vovó fazia. Ele vinha com a aquela mãozona, maior do que as nossas, melava tudo. Saia lambendo os dedos e mangando da gente.

Nas minhas melhores lembranças afetivas, essa convivência tem um lugar muito especial. A criança, que ainda vive no meu coração, tem a referência desse avô como alguma coisa bem ímpar, diferente de tudo o que todo mundo viveu. Essa vivência deixou na minha memória um sentimento muito gotoso.

Eu até vivi muito de tudo isso com os meus filhos, com os amigos dos meus filhos e, por isso mesmo, considero esse o meu lado mais doce. Eu queria poder oferecer às minhas netas, da mesma forma, esse carinho de vida que eu recebi. Um exemplo contido de muitas emoções, e que eu ainda não consegui fazer chegar a elas.    

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Amor é uma construção a quatro mãos




Plantou o amor e não floresceu.......

Tenha certeza de que a terra não era fértil.......

Não desperdice mais sementes, plante em novos campos.  

 

Clarice Lispectro

 

Não se pode pensar em uma relação longeva sem reciprocidade. Não se pode pensar em uma relação sem a dualidade de opiniões e o somatório de forças para que se possa construir um caminho de sonhos, realizações e muita felicidade.

Sempre que um dos dois resolve dar as cartas e se apoderar da relação, no meu ponto de vista, os sentimentos se deturpam. Não se pode pensar em uma relação de amor quando um dos dois se anula à vontade do outro. A submissão não é condizente com o sentimento de amor.

Seguindo a mesma trilha de raciocínio de uma das crônicas do Rubem Alves, a relação, quando é vivenciada em caráter de disputa, medindo forças, como em um jogo de tênis, tem uma vida previsivelmente curta. Uma hora alguém vai marcar o ponto final e pronto, não tem mais o que fazer, o jogo acaba.

Essa relação tende a tornar-se abusiva. Tem sempre um fazendo pressão sobre o outro na busca de ser ele a marcar o ponto e quanto mais ele marca ponto, maior e mais forte ele fica. Já o outro vai ficando subjugado, cada vez mais sem voz e sem vez. Essa pessoa subjugada vai se resumindo, cada vez mais, à sua insignificância.

O tênis, como uma relação abusiva, é feroz, seu objetivo é derrotar, literalmente subjugar o outro. O bom jogador, o mais forte, vai tendo a noção de como encaminhar o jogo a seu favor e se utiliza das debilidades do seu oponente, no caso, para marcar seus pontos. É justamente do ponto fraco do outro que ele tira proveito.

A minha questão é que isso não pode ser amor. Não se ama por pressão. Por opressão só se constrói o medo. Como no mito da caverna de Platão, o que você pode construir na opressão é a dependência da incerteza, é o aprisionamento pelos sentidos, por uma falha na percepção da verdade.

Volto aqui à ideia ilustrada pelo Rubens Alves. O amor, apesar de bem parecido com o tênis, se posiciona melhor como se fosse um jogo de frescobol. Aqui, ao contrário do tênis, joga-se para fazer com que o outro acerte mais e quanto mais os dois acertam melhor fica o jogo. Aqui, quando a bola vem torta, o melhor que se faz é tentar corrigir a jogada e azeitar a bola para o outro.

Nesse caso o erro é um mero acidente de percurso e quem erra se desculpa, porque sabe que o melhor do jogo é o vai e vem da bola. Todo esforço que se faz é para facilitar a próxima jogada e é isso que faz com que o jogo fique ainda mais bonito.

Aqui o conhecimento que se tem do parceiro e as experiências da vida servem de base para fazer a relação crescer e o jogo perdurar. A bolinha do jogo funciona como os nossos sonhos e o mais gostoso da vida é ficar batendo bola para lá e para cá.

E isso serve para todo tipo de relação. A verdade é que o amor real, qualquer que seja ele, é uma via de mão dupla. Ele deve ser regado de amizade, de carinho, de afeto e tudo mais. Nessa relação, a energia do sentimento deve circular livremente entre os corpos e um deve proporcionar ao outro o que a vida pode oferecer de melhor.

Não cabe em uma relação como essa nenhum tipo de disputa, a imposição ou qualquer que seja o domínio. No amor, na amizade, nas boas trocas da vida, quanto mais se oferece uma bola redondinha para o outro, quanto mais um colabora com a vida do outro, melhor.

No jogo da vida, quanto mais se sonha junto, melhor vai ficando o jogo.

 

 

Aélio Jalles (Lelo) 

 

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

A musicalidade do amor vivo


De uma forma qualquer, a música está muito ligada à dor de cotovelo, ao sofrimento da perda, à solidão e coisas do gênero. Como bem disse Vinícius de Moraes: “pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza”.

É a velha “sofrência”, tão bem descrita nos mais diversos estilos de música e, digamos de passagem, com as interpretações mais encantadoras possíveis. É a música ligada ao estado de espírito emocionalmente mais frágil. Talvez exatamente por isso, mais marcante.

De qualquer forma, quero deixar aqui o meu contraponto e ressaltar as músicas que falam do amor vivo. É que o encontro das “almas gêmeas”, essa conexão mágica de relações que a vida pode proporcionar, também tem sua boa representação musical.

Uma sintonia que chega, dentro do que eu mesmo pude perceber, quando o estado de espírito se volta para o outro lado, digamos que, mais positivo. É só uma mudança de chave, é só a apreciação do sentimento em plena vigência da relação, do aqui e agora.

No caso, eu estou só instigando que se possa puxar a sintonia para esse lado, que eu pessoalmente acho, mais bonito. Que se perceba toda a beleza gerada na expectativa cantada pelo Jorge Vercilo, em Monalisa, quando ele diz “E a vida, tão generosa comigo, veio de amigo a amigo, me apresentar a você”.

Dá para imaginar a maturidade de um amor que chega já quando nem se espera mais, quando os sonhos já se desencantaram. Ele foi cantado na voz da Marisa Monte assim “ainda bem, que agora encontrei você, eu realmente não sei, o que eu fiz pra merecer, você”.

Não tem como deixar de enaltecer a incrível descrição da saudade de quem está logo ali, a saudade de quem eu estou prestes a encontrar. Poucas pessoas têm a genialidade do Dominguinhos para dizer “tô com saudades de tu meu desejo, tô com saudades do beijo e do mel, do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu”

Passaria horas descrevendo todas as músicas que falam desse amor em plena vigência, e de todas as formas que ele já foi descrito. Mais ainda, se eu for falar de quanto tempo eu demorei em acordar e perceber essa sintonia tão gostosa.

Um casal cheio de amor é, na minha visão, a melhor representação de toda a musicalidade que a vida pode oferecer. Nesse estágio, quando a paixão transborda pelos poros, é que se irradia a felicidade de se estar junto.

Um faz a vida do outro, sem o menor esforço, cheia de graça. Afinal, o mesmo Vinícius de Moraes, disse que “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como luz no coração”.

 

Aélio Jalles (Lelo) 


 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Amizade, o ato de respirar juntos


Há muito tempo, por conta de uma brincadeira, nos intitulamos de Anjinhos, assim mesmo no diminutivo. Toda a história teve início a partir de um desenho. Um desenho com cunho, podemos assim dizer, meio pornográfico, coisa bem de adolescente mesmo.

Na verdade, esse desenho virou símbolo da turma e começou a ornamentar os carros e motos desse grupo de amigos. O desenho formatava somente o M de Motel. Era um casal, digamos assim, em um ato de amor.

Digo um ato de amor para não macular a imagem, já que estamos falando do símbolo dos Anjinhos. O desenho foi feito de forma tal que não estampava o ato sexual de forma tão evidente. Ele era sutil, algo que fosse capaz de deixar a imaginação viajar.

O que tínhamos em comum, na verdade o que nos segurou juntos e o que nos tornou anjos da vida uns dos outros, foi o carinho e muita disponibilidade. O carinho que floresceu, sabe-se lá de onde, mas que encontrou um terreno fértil nos nossos corações.

O vínculo de união desse grupo foi sendo naturalmente fortalecido, cada acontecimento ampliava a ideia de que respirar juntos era muito mais gostoso, e isso foi se tornando um hábito.

Não que fôssemos dependentes uns dos outros. Não. Isso tudo era muito mais pela forma que a presença de cada um fazia a diferença na felicidade que nós vivíamos. Posso dizer que estar juntos era inebriante.

Essa ideia, essa interpretação de respirar juntos, vinha de uma proteção que cada um oferecia gratuitamente ao outro. Uma interpretação que foi dada pelo pai de um dos membros da turma. Alguém que tinha muito gosto de ver os filhos dentro dessa turma.

Ele disse de forma bem textual: “o fato de saber que meus filhos estão com esse grupo de amigos, me oferece uma tranquilidade gigantesca. Eu vejo o quanto o grupo se protege e se cobra. Respirando juntos assim, ninguém consegue fazer nenhuma besteira”.

Essa cobrança, na verdade, fazia com que todos caminhassem dentro de algumas regras, as regras que são naturalmente impostas pelo grupo. Acaba que o grupo não permite que ninguém saia da linha. 

Nós éramos de fato um bando de “aborrecentes”. Um bando mesmo, muitas cabeças, muitas criações diferentes, formação de conceitos diferentes, jeito de lidar com as coisas diferente.

Sempre fomos pessoas de paz. Nunca fomos desordeiros demais, pelo menos não no sentido de criar problemas para outras pessoas, ou de encrencar ninguém. Nossas brincadeiras sempre foram do tipo que podemos chamar de “saudáveis”.

Não gostávamos de briga, estávamos sempre promovendo a alegria. Nesse grupo não cabiam as atitudes pesadas que pudessem prejudicar ninguém. Gostávamos mesmo era de estar juntos, de ouvir música, de acompanhar um violão, de pôr a nossa batucada para fazer barulho.

Nós formamos um grupo de amigos do bem, um grupo que nos levava por um caminho de paz, de harmonia, de entrosamento e de cumplicidade. Nós éramos a representação de toda a musicalidade que a vida podia oferecer, e transmitíamos a alegria que a energia de estar juntos nos proporcionava.

Por tudo isso, dá para ressaltar que nós vivemos os nossos momentos, criamos lembranças que, eu tenho certeza, hoje fazem parte da vida de cada um dos que tiveram a felicidade de usufruir da companhia, do carinho e da amizade desse grupo de amigos.

A vida nos ofereceu um momento ímpar, que nem dá para entender de onde ou porque surgiu. Só sei que foi assim, respirando juntos que nos tornamos anjos da vida uns dos outros.

 

Aélio Jalles (Lelo)

 

Extraído do livro: Anjos daminha vida

 


 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Sob a ótica do Filho


O pai do Luide, apesar dos conceitos patriarcalistas, era um cara de uma cultura interessante, uma pessoa que sabia pensar. Isso pode até não se sobrepor ao machismo exacerbado, mas é um fato capaz de amenizar os efeitos dessas características vindas de uma educação dessas ditas “moralistas”.     

Ponho “moralista” assim, entre aspas, para deixar claro que considero tal forma de educação como uma imposição de determinada aparência social, onde o melhor é “fazer de conta”. Uma imposição que ninguém efetivamente quer cumprir e, mais ainda, ninguém consegue explicar. Trata-se de uma falsa moralidade, que joga para baixo do tapete aquilo que não é para ser visto, ao invés de tentar resolver o problema.

Então, por ser capaz de pensar, o pai do Luide provocou o filho com uma nova conversa. Dessa vez, uma conversa direta de pai para filho, imaginando que, sem a interferência de terceiros, ele poderia se expor mais efetivamente. Era uma boa condição para deixar seus pensamentos fluírem mais soltos.

O pai instigou o Luide: “queria conversar mais com você sobre essa questão da sua relação com a Eli. Sem broncas, meu filho. Eu só quero entender melhor em que pé está esse namoro e, como pai, poder participar mais, poder acompanhar melhor a vida do meu filho. Você acha isso ruim?”

O Luide respondeu de pronto: “de jeito nenhum, meu pai. Muito pelo contrário, eu admiro os pais da Eli por isso. Eles dois, o pai e mãe da minha namorada, são muito participativos, eles acompanham os filhos de perto e, muito ao contrário do comentário do senhor sobre a liberdade exagerada, eles não permitem que aconteça nada com os filhos sem que estejam juntos”.

“Pai”, o Luide disse, “eu já faço parte daquela família há alguns meses. Eu nunca os vi deixarem nenhum fato de lado. Eles conversam sobre tudo. Sempre que acontece alguma coisa, como por exemplo o meu namoro com a Eli, eles chegam junto, conversam, querem saber dos detalhes, aconselham… mas, antes de qualquer coisa, esperam que o filho se posicione”.

O garoto continuou: “como eles dizem, a cada dia que passa os filhos ganham mais liberdade, mais condição de resolver a vida e tomar as próprias decisões. De qualquer forma, eles nunca vão deixar de ser o pai e a mãe de seus filhos, e por isso vão estar ali, juntinhos, para o que der e vier. Lá, os filhos têm o apoio dos pais em tudo o que fazem”. 

Luide, então, relembrou: “foi por isso, pai, que eu chamei a atenção em relação à minha irmã. Eu a vi chorando quando teve sua primeira relação sexual. Eu entendi que ela não tinha com quem conversar, e eu ainda era muito novo para isso. Ela precisava de apoio, de alguém que a norteasse naquele momento”.

O rapaz continuou, dizendo: “hoje eu enxergo que minha irmã foi abusada sexualmente pelo namorado. Ele era bruto, mas ela era apaixonada. Ela se entregou sem saber o que realmente estava fazendo. Eu sei que ela iria ter uma relação sexual mais cedo ou mais tarde, mas poderia não ter sido daquela maneira. O medo, a vergonha, a insegurança que ela sentiu poderiam ter causado problemas sérios para ela. Por sorte o babaca caiu fora”.

Ele ainda acrescentou: “pai, quando eu e a Eli tivemos a nossa primeira relação sexual, ela estava completamente segura do que estava fazendo. Ela estava muito mais segura do que eu. Ela sabia o que fazer, mesmo sem experiência. Ela conhecia os passos que tinha que dar. Acho que por isso foi uma coisa tão gostosa, tão prazerosa e sem nenhuma culpa”.

O Luíde também considerou: “minha irmã pode até ser adulta, financeiramente independente, “de pescoço grosso”, como ela mesma diz... mas mesmo assim, eu acho que ela ainda precisa do apoio de vocês para superar o que aconteceu. Isso definitivamente não pode ficar a cargo das amigas. As amigas dela ainda não têm o conhecimento devido, não têm maturidade”. 

Por fim, disse ainda: “nesse momento eu te peço até desculpas, meu pai, por estar me posicionando assim, como quem quer ensinar alguma coisa. Eu sei que eu ainda não vivi o suficiente para enfrentar os problemas da vida e, querendo ou não, eu não tenho o direito de julgar vocês. Eu não tenho noção do que vocês dois enfrentaram”. 

Na medida em que a conversa rolava, o pai do Luide ia fazendo as suas interferências, colocando as suas posições. No fundo, ele acabou dando corda para que o filho se expressasse. Na verdade, o pai do Luide, apesar de toda a autoridade que ele queria demonstrar, estava encantado de ver o filho ter uma posição tão bem embasada.  

Por isso mesmo o Luide foi se sentindo mais à vontade para falar, para se posicionar e apontar o que ele queria ver no comportamento do pai. Como, por exemplo, ver o pai conversar sobre sexo com a filha. Era um desafio e tanto. Duas pessoas com visões totalmente opostas, tentando chegar a um denominador comum. 

A certa altura, Luide falou: “sabe, pai, aquela coisa de conversar, de trocar ideia com os filhos, dar ouvido, como dizia a minha avó... Essas coisas fazem bem. Seria muito importante para nós dois, seus filhos, ouvir as experiências de vocês, conversar abertamente e trocar ideias. Tanto eu quanto minha irmã temos a necessidade disso”. 

Nesse momento o pai do Luide se desmanchou, deixou que as lágrimas tomassem conta do rosto, abraçou o filho e pediu desculpas. Lá no fundo do coração ele queria ter oferecido tudo isso que estava sendo jogado na cara dele. Ele queria ter estado mais próximo dos filhos, e viu isso se esvair por consequência dos caminhos e da dureza da vida.

Fechando a conversa, o Luide falou: “pai, eu sei que existe muito amor entre nós. O senhor e a mamãe construíram uma família, nos ofereceram boas condições de vida e nos nortearam. Fomos criados dentro dos princípios de vida que vocês tinham nas mãos, e que achavam ser o correto. Eu e a minha irmã temos muito a agradecer e admirar vocês por tudo isso”.

E concluiu: “mas pai, nós estamos crescendo. Na medida em que o tempo passa, nós vamos ganhando alguns conhecimentos, e podemos contribuir com o andamento da nossa família. Não é uma questão de querer ensinar, é a condição de trazer para o seio da família novas formas de ver e entender o que o mundo está nos oferecendo”.

 

 Aélio Jalles (Lelo) 

 

Livro: Era Uma Vez Meu Coração

 

Capitulo 01: O primeiro beijo

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Capitulo 02: O curso da vida

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Capitulo 03: E Ai Cadê meu ovo?

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Capitulo 04: O Desabrochar da Sexualidade

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Capitulo 05: A primeira vez

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Capitulo 06: Sexo a Conexão das Almas

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Capitulo 07: O Abraço da Confiança

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Capitulo 08: As novas cores do Arco-Íris

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Capitulo 09:  A Liberdade da Libido 

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Capitulo 10: Equidade é uma questão de respeito 

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Capitulo 11: Sob a ótica do filho

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Capitulo 12: O valor de uma relação maturada

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terça-feira, 5 de setembro de 2023

Civilidade

 



Nós vivemos em sociedade, e, de uma forma qualquer, dependemos um dos outros. Isso independe da concepção individual de alguns que se acham melhores, maiores ou até mesmo se imaginam independentes da humanidade. No meu modo de ver, por ignorância ou mera estupidez.

Na minha boa fé, eu penso: foi exatamente essa associatividade dos seres humanos que nos fez tão fortes e duradouros diante do mundo. Foi por conta dessa associatividade que vencemos, em parte, a capacidade da natureza de se renovar. Nós, seres humanos, inventamos a velhice.

Saímos de qualquer linha estabelecida e fomos parar no topo da cadeia alimentar. Agora estamos vivenciando o desafio da convivência, no estabelecimento das relações, na construção do que se pode chamar de dinâmica da consciência coletiva.

Então, entendo que essa consciência social é dinâmica pela necessidade de se renovar constantemente, de se moldar aos conceitos e preceitos de cada época. A evolução das relações gera a necessidade da evolução do entendimento acerca da convivência em sociedade.

O conceito de civilidade difere do conceito do “Politicamente Correto”. Dentro da minha compreensão, a civilidade está muito mais ligada à ética, à conduta do que se faz simplesmente pelo bem-estar geral, porque e assim que deve ser feito.    

Ética, em uma definição simplória, é tudo aquilo que se faz porque é bom, porque é justo e porque coloca o respeito ao que é coletivo acima dos interesses individuais. Ética ou, como aqui eu estou querendo traduzir, “civilidade” é a obediência ao que não é obrigatório.   

Isto não se aprende com teorias. Isso se aprende nos exemplos, nos processos de vida. Trata-se de uma coisa cultural que vem com a educação, com a conscientização do papel social que cada indivíduo deve exercer para fazer a diferença na construção de uma sociedade mais justa, livre e solidária.

Somos indivíduos inseridos em uma rede de relações. Pertencemos aos mais diversos grupos (família, amigos, vizinhos etc.), e deles extraímos as condições necessárias para a nossa sobrevivência. Como integrante desses grupos, somos responsáveis pelo bom funcionamento de todos os processos dessa coletividade.

Todos, sem uma única exceção, devem dar a sua contribuição ao contexto de vida e bem estar comum. No meu modo de ver, a “civilidade” se encontra nos detalhes mais cotidianos. Em reciclar o lixo, no observar o posicionamento adequado do carro na vaga, na utilização devida dos bens comuns e coisas do gênero.

A “civilidade” é expressa por um conjunto de atitudes que possibilitam a atuação de cada um de nós, como responsáveis, como atores protagonistas de um mundo melhor.

 

Aélio Jalles (Lelo)

 


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